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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Os pais do núbil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho revolucionário e ardente apologista de Martinho Lutero, que não ocultava-lhes suas tendências anticatólicas. Ele, porém, o apóstata, o herege, sentia-se instintivamente arrebatado pelas idéias do século e tratou de trocar a sotaina de noviço pelo fraque da última moda. Ninguém põe peias à fatalidade. Não contente com ir de encontro à vontade de seus pais e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, súbito, viu-se na capital do Brasil, sem um amigo que o guiasse nesse labirinto de ruas suspeitas onde o vício assentou praça. A Rua do Ouvidor e os teatros sempre eram mais agradáveis que o claustro e as impertinências do reitor — muito mais...

Pobre Gustavo Adolfo! Salvara-se de um abismo para precipitar-se imprudentemente, como criança inexperta, noutro abismo talvez mais perigoso.

Sem amigos, sem proteção, longe de sua terra e de seus pais — que podia esperar o jovem desconhecido naquele turbilhão de vis interesses?

Imbert-Galloix, um italiano também adolescente e cheio de esperanças, inteligente e trabalhador, morreu de miséria numa rua de Paris, por ter trocado sua pátria natal por um país que só conhecia de nome. Fora em busca de glórias e encontrou a miséria, o frio, a fome, e a morte por fim.

Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre vítimas da própria imaginação.

A sorte de Gustavo Adolfo foi mais cruel.

Custa a crer que um insignificante par de brincos leve um homem à cadeia e depois ao exílio perpétuo!

Uma vez sem meios de subsistência, lutando com a má vontade de uns e a indiferença de outros, Gustavo Adolfo, que tinha certa dose de espírito, desse espírito fino que caracteriza o homem de talento, fez-se boêmio, isto é, indiferente à vida, nômade a quem tanto faz dormir sobre flácido colchão, como ao relento e sobre a laje das calçadas. Ora, os boêmios são umas criaturas simpáticas. Quando um boêmio tem espírito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolfo preferiu a mão leve, alva e cetinosa, de uma cortesã pela qual apaixonou-se deveras.

A mulher, sempre essa criatura profundamente sedutora e misteriosa!

E, parece incrível! quando na primeira noite, após as inefáveis carícias do amor, a mísera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava, talvez nalgum banquete suntuoso, à sombra de álamos frondosos, talvez nalguma de suas passadas orgias, à luz de candelabros deslumbrantes, ele, o mal-aventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o rosto sereno desta amante, antepensava um crime e um crime excepcional, monstruoso, inqualificável.

— Estes brincos, estes brincos... pensava ele fitando as jóias, duas grandes lágrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu espírito oscilava como um pêndulo na dúvida terrível, aguçado por um desejo louco.

Ei-lo que se levanta de um ímpeto, pisando devagar, sorrateiramente, tão de leve que dir-se-ia uma sombra; ei-lo que se encaminha para a porta da rua, tateando, encostando-se às paredes, pé ante pé, sem respirar, olhando sempre para trás, para o leito da amante (lembra-me a cena da "Cimbelina" de Shakespeare).

Meia-noite... Ei-lo ainda que volta e se aproxima do leito onde há pouco boiara em mar de volúpia. Traz na mão um objeto reluzente, uma coisa disforme...

uma machadinha.

Que irá ele fazer?!.

Aproxima-se mais, rastejando quase, mansamente, sutilmente.

De repente soa uma pancada surda, e um grito estrangulado: — Soc... corro! Soa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os brancos lençóis daquele malfadado leito palpitam as carnes sangrentas, moribundas, de um corpo de mulher que ainda há pouco sentia e pensava...

Obcecado pela idéia do roubo, o assassino arranca brutalmente as jóias do cadáver, e, à luz do combustor de cristal, reconhece que são falsas!

Foge rua fora, como um possesso, enfia num beco, sai por outra rua, e desaparece na escuridão da noite.

No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafais no livro dos réus: "Gustavo Adolfo... preso pelo duplo crime de assassinato e roubo."

Mais tarde, anos depois, o jovem criminoso tentou fugir de Fernando de Noronha onde fora recolhido. Prenderam-no em flagrante. E há poucos meses, no ano passado, a princesa Isabel, então regente do Brasil, abriu-lhe as portas da prisão.

Gustavo Adolfo publicou, no degredo, um livro de versos intitulado Risos e lágrimas, uma coleção de poesias sentimentais e amorosas que pouco valem pela forma e onde se acham cristalizadas as dores do infeliz poeta, cuja imaginação cantava entre lágrimas.

Penalizou-nos a sorte desse rapaz simpático e inteligente.

Havia, além de Gustavo Adolfo, outro preso não menos interessante e que nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fora condenado igualmente a galés perpétuas.

Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) anos de idade e possuir família numerosa: — mulher e 30 filhos!

— Qual foi o seu crime? perguntamos.

(continua...)

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