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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, o instrumento de castigo: era o guardião Agostinho, o célebre guardião Agostinho, especialista consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiões, e cujo zelo em cousas de “patescaria” tornara-se proverbial, Nos momentos de manobra difícil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente munido de um apito de prata, não se afastando nunca de suas obrigações.

— Caboclo macho! diziam os companheiros.

Se acontecia desprender-se um moitão, um cabo qualquer, lá cima nos mastros, em lugar arriscado, ele, mais que depressa, galgava os enfrechates, com aquele corpo muito pesado, transpunha o cesto da gávea, sem olhar para trás, e eilo agarradinho aos vaus, atando e desatando, ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilando com o navio, em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas palavras, muito metido consigo, tolerante e enérgico ao mesmo tempo em matéria de serviço, não compreendia a disciplina sem chibata, “único meio de se fazer marinheiro”.

E tinha sempre esta frase na ponta da língua: — Navio de guerra sem chibata é pior que escuna mercante...

Por isso os companheiros não o estimavam muito; pelo contrário, evitavam a sua presença, procurando intrigá-lo com o mestre e com os outros inferiores. — O guardião Agostinho, sim, que era homem valente, capaz de comandar um quarto...

E riam às escondidas, praguejando contra “o burro do Agostinho, que nem ao menos tinha jeito para capitão de proa...”

Ele ali se achava também, no sue posto, à espera de um sinal para descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania...

— Vinte e cinco..., ordenou o comandante.

— Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radiante, cheio de satisfação, vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade. — Não, não: com a camisa...

E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o dorso a força brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava, sonolenta e a arrastada: — Uma!... e sucessivamente: duas!... três!... vinte e cinco!

Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bico dos pés, erguendo os braços e encolhendo as pernas, cortado de dores agudíssimas que se espalhavam por todo o corpo, até pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e trêmulo que ninguém ouvia senão ele próprio no desespero de sua dor.

Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferença de múmias.

— Corja! regougou o comandante brandindo a luva. Não se compenetram de seus deveres, não respeitam a autoridade! Hei de ensiná-los: ou aprendem ou racho-os!

O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver sempre retraído, pelos cantos, evitando a companhia dos outros, fazendo seu serviço calado, não se envolvendo em sambas à noite, na proa. Tímido e esquivo, cada vez mais pálido, o olhar morto com uma pronunciada auréola de bistre, a voz cansada, caindo de fraqueza, — tinham-lhe dado o apelido ridículo de Pinga...

O grumete não podia se conformar com esse tratamento, por mais inofensivo que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateira aprendidos ali mesmo a bordo.

— Ó Pinga!...

Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabulário do insulto numa cólera ameaçadora que às vezes chegava ao delírio.

Os outros, porém, caíam na gargalhada:

— Olha o Pinga! Segura ele! — Pinga é ...

E lá ia uma obscenidade, um calão grosseiro.

Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em questões de outra ordem e daí prisões, castigos...

Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinhamno encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados.

O outro, um mulatinho esperto. que tinha o hábito de andar espiando, à noite, o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o Sant'Ana, e, riscando um fósforo, aproximaram-se ambos “para examinar”.... No convés brilhava a nódoa de um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não previsto nos códigos, um crime de lesa natureza, derramando inutilmente no convés seco e estéril, a seiva geradora do homem.

Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela grotesca situação. Investiu para o Sant'Ana, fulo de raiva, extremamente pálido, e com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpo a corpo, aos trambolhões, acordando os que dormiam por ali o bom sono da madrugadinha... Terminou o alvoroço com a prisão de ambos.

— Ah! seu Pinga, seu Pinga!... repetia o guardião do quarto. Não pense que, por ser branco, há de fazer das suas...

(continua...)

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