Por Adolfo Caminha (1893)
João começou a enquizilar-se com as freqüentes visitas do Zuza. Por fim notara certas tendências do estudante para a pequena, certo quebrar de olhos, uma como insistência atrevida em dizer as coisas por metáforas... Isso o incomodava, punha-lhe pruridos na calva, enraivecia-o. Quanto ao Loureiro não havia risco, o guarda-livros estava para casar com a Campelinho, era um rapaz sério. Mas o senhor Zuza?... Ali andava namoro, apostava. Tinha idéia de ter lido na Província uns versos dedicados a M. C. e assinados por Z.*** Naquela noite, sobretudo, pareceu-lhe ver o mariola passar uma carta, um papel a Maria. Boas! Era preciso pôr um termo ao descaramento, sob pena de ele, João, desmoralizar-se no conceito da gente séria. Lá por ser filho do Sr. coronel não fosse pensar que faria o que entendesse. Alto lá! Tudo, menos patifaria dentro de sua casa.
E, enquanto ia enchendo os cartões automaticamente sem olhar para os números, pensava em Maria do Carmo, mordendo com desespero as guias do bigodaço.
Quando o Zuza, todo gabola e amaneirado, vermelho do calor da luz, gritou — víspora! numa voz triunfante e clara, João esteve quase atirando-lhe com o cartão. Vieram-lhe desejos imoderados de estourar, de dar escândalo, trêmulo, nervoso, a semicalva reluzente de suor.
— Sim senhor, disse secamente devolvendo o cartão. Vamos à última...
E o jogo continuou. Fez-se novo silêncio. Agora era o Zuza, o futuro bacharel que cantava pausadamente, tirando as pedras com a ponta dos dedos e colocandoas devagar, cauteloso.
Davam nove horas na Sé quando todos se ergueram. A Campelinho suplicou mais uma partida, o Loureiro também foi de opinião que se jogasse ainda uma vez, todos, enfim, desejavam continuar, mas João da Mata opôs-se tenazmente: que era tarde, tinha muito que escrever.
— Uma só, meu padrinho, rogou Maria do Carmo tomando-lhe as duas mãos e fitando-o com os seus magníficos olhos cor de azeitona.
O amanuense estremeceu. Agora era a própria afilhada, a Sra. D. Maria do Carmo que lhe pedia com um sorriso extraordinário que jogassem! E na sua imaginação acentuava-se a suspeita do namoro com o estudante.
Curvou-se e proferiu um palavrão ao ouvido da rapariga. Estava desesperado, não se continha.
— Não senhora, por hoje basta de víspora!
Todos admiraram a súbita mudança na sua fisionomia a princípio tão alegre.
A mulher do Dr. Mendes, muito afetada, acotovelou o marido e despediu-se “até a primeira vista”.
Zuza foi o último a retirar-se, fitando em Maria um olhar embebido de ternura.
A noite estava muito escura e calma. As estrelas tinham um brilho particular, altas, minúsculas como cabeças de alfinetes em papel de seda escuro. Ouvia-se distintamente, como por um tubo acústico, a toada dos soldados rezando à Virgem da Conceição, no quartel de linha e o marulhar da praia, distante. A rua do Trilho, deserta, com a sua iluminação incompleta, naqueles confins da cidade, parecia um túnel subterrâneo. Fazia medo transitar ali a desoras.
Assim que se foram os habitués do víspora, João da Mata desabafou: —
“Uma patifaria! O Sr. Zuza pretendia sem dúvida abusar da sua confiança, plantar a desordem no seio da família, mas estava muito enganado. Ali era casa de gente pobre e honesta. Estava muito enganadinho, seu pelintra!”
— Mas eu sei quem é a culpada, acrescentou furioso, a culpada é a Sra. D. Maria do Carmo, porque se atreve a olhar para ele!
Aquilo não podia continuar, o Sr. Zuza não lhe punha mais os pés em casa sob pretexto algum. Não se portava sério? Pois então — fora! pra rua!
Estavam fazendo de sua casa um alcouce! A Sra. D. Lídia vinha namorar o outro às suas barbas; já uma vez caíra-lhe porta dentro uma imundície de carta anônima denunciando certos abusos...
E colérico, soprando o bigode, sacudindo os braços, esmurrando a mesa, berrava, com os olhos na alcova onde sumira-se D. Terezinha. Maria desaparecera pelo corredor e chorava debruçada sobre a mesa de jantar, onde ardia uma vela de carnaúba.
— Que sujeito! gania o amanuense. Pensa ele que não tem mais do que enfronhar-se num fato de casimira clara, com uma flor no peito, com modos de safardana, e zás! plantar-se na pequena, mas está muito enganado! Aqui estou eu (e batia com força no peito ossudo) para impedir escândalos em minha casa!
Debalde D. Terezinha aconselhava, aflita, que não desse escândalo, que fosse dormir — “As paredes têm ouvidos, dizia ela dentro da alcova. O moço era filho de gente graúda, e ele, Janjão, um simples empregado público. Tivesse modos. Se houvesse má intenção por parte do Zuza, ela, Teté, seria a primeira a não consentir que ele pisasse o chão de sua casa. Mas, não senhor, a gente deve pensar antes de fazer as coisas. Pra que todo aquele espalhafato, por que semelhante barulho?”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.