Por Inglês de Sousa (1891)
Um curumim de onze anos, legítimo maué, de calças e camisa de riscadinho e grossos sapatos engraxados, tinha na mão um tição de fogo para acender o cachimbo de S. Rev.ma cheio de perfumado tabaco do Tapajós. Ao lado um seminarista, de batina azul, sentado em cadeira baixa, lia num livro de estampas coloridas, muito enfastiado, cumprindo uma sentença, e de vez em quando interrompia a leitura, para olhar, pela janela aberta, para o quintal, e seguir com despeito os jogos barulhentos dos seus felizes colegas.
Por baixo da rede do padre, deitada sobre vistosa pele de onça pintada, uma capivara doméstica deixara-se cavalgar por um macaco barrigudo, de sedoso couro cinzento, e aos punhos da rede um periquito do Rio Branco, mimoso e verde, subindo e descendo sem cessar, pontuava com as suas notas estrídulas a voz monótona e cadenciada do seminarista preso.
Quando o Macário entrou fez-se uma pequena revolução no sossegado aposento de S. Rev.ma. O seminarista fechou o livro, pôs-se de pé e começou a fazer-lhe gaifonas por trás do grande livro de estampas. O macaco deixou a capivara, e, assustado, trepou rapidamente pela rede e subiu pelos punhos, cordas fora, até às escápulas, donde se pôs a olhar desconfiado para o rapazito, fazendolhe momices. O periquito desceu para o fundo da rede e escondeu-se entre as pregas amplas da batina do padre. A capivara fugiu para baixo duma cadeira. O pequeno maué deixou de soprar ao fogo de tição, e fixou no recém-chegado os grandes olhos negros, profundos e mudos.
O padre reitor largou o cachimbo e atentou na cara magra e doentia do Macário, que não tinha ainda aquela belida no olho esquerdo, nem aquele lombinho que lhe começara a surgir do meio da testa aos trinta anos, e agora ostentava a sua protuberância polida num descaro insolente.
— O que tens, tu, rapazinho, que estás tão assustado e trêmulo? — Saberá V. Rev.ma...
O tom do reitor era tão paternal e bondoso, inspirava tanta confiança e punha a gente tão à vontade, que Macário sem vergonha do seminarista nem do curumim, desatou a chorar. E depois, sentindo uma necessidade de proteção e amparo, começou a contar àquele padre gordo, bondoso e afável a desgraça que o sujeitava às brutalidades dum soldado bêbado e ao desamor da mãe desnaturada.
O padre reitor acendeu o cachimbo muito comovido, e prometeu arrancá-lo à sua situação. Justamente partia para Silves o seu amigo padre José, vigário-colado daquela freguesia.
— Vai com o padre José, rapazinho, ele te dará boa vida. Há-de ensinar-te o catecismo, a ler e a escrever. Mais tarde, se for possível, e mostrares vocação, façote entrar no Seminário.
Notando a alegria do Macário, o reitor concluiu:
— Hoje mesmo, à noite, talvez fale ao juiz de órfãos e ao meu amigo padre José.
E como se a idéia da projetada diligência o tivesse fatigado muito, deu um suspiro, descansou o cachimbo sobre a pele de onça pintada, e fechando os olhos ficou silencioso.
No dia seguinte Macário fora arrancado à lavadeira por dois oficiais de justiça, e uma semana depois viera para Silves, humilde e contente, seguindo o vigáriocolado com um reconhecimento de cachorro socorrido. Vinte anos servira o duplo ofício de fâmulo e sacristão do padre José, um pândego! que passava meses nos lagos, tocando violão e namorando as mulatas e as caboclas dos arredores, e gastava em bons-bocados as missas, os enterros e os batizados da freguesia, e, na falta, caloteava ao Costa e Silva e ao Mendes da Fonseca, que era um deus-nosacuda!
A sua mesa era farta, e a casa alegre.
Pela primeira vez na vida, Macário conhecera o bem-estar dum estômago repleto. O pão fresco, barrado de manteiga inglesa de barril, revelara-lhe delícias gastronômicas, de que o seu paladar exigente nunca mais se saciara, encontrando sempre novidade saborosa naquela combinação vulgar. A carne verde, gorda e fibrinosa com que os fazendeiros presenteavam regularmente o senhor vigário, o peixe fresco do rio, a farinha graúda, amarela e torrada, vinda dos sítios do Urubus, forneciam-lhe uma diária farta, apetitosa e saudável que o retemperou e lhe deu carnes. Facilmente se afez àquele passadio, e a vida tranqüila e desocupada que levava, graças à mandriice do vigário, quase sempre ausente, o habituou ao cômodo regalado, e, franqueza! à preguicinha e à moleza.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.