Por Aluísio Azevedo (1880)
Era um belo rapaz. Esbelto e destro, olhar sombrio e ardente, agradável expressão de amargura na fisionomia, e suma confiança desamparada nos movimentos. Tinha uma cabeça escultural, modelada pelo tipo quase extinto da raça etrusco-pelágia.
Como os mais vestia jaquetão de veludo com mangas compridas e abotoadas, calções justos e claros, enfeitados de fitas na junção com a meia listrada, camisa de lã, aberta no pescoço.
Chamava-se Miguel Rizio. Filho de um músico romano, dedicara-se à arte do pai com algum êxito até aos doze anos. De repente, viu-se órfão e sem apoio, ficando-lhe, como derradeira consolação, a sua querida rabeca, única que no viver miserável de larazone, a que o condenara a miséria, não o desamparou jamais. Dormiam abraçados, muita vez, pelos alpendres, quando lhes falecia o teto e a cama.
Um belo dia, conseguiu fugir para Roma e lá, melhorando a arte, melhorou também os meios de subsistência.
De volta à ilha, sua pátria, encontrava-se aos domingos com Rosalina, e desde então, apesar da meninice da pequena, amou-a ele, quase tanto, quanto à sua rabeca.
E ela? Valha-a Deus! Por esse tempo nem se lhe dava dos amores do músico.
Quem se deu foi o pescador. De uma feita, desconfiou dos olhos ardentes de Miguel, e, cravando neles os seus, não menos ardentes e mais ferozes, fê-lo desde aí experimentar, a despeito da precoce energias de seus dezenove anos, um não sei que desagradável, que o obrigava e evitar sempre o pai de Rosalina.
Agora, ausente este, o moço sentia-se livre e feliz, e nestas circunstâncias deu com franqueza o braço a Rosalina, tomando alegremente o caminho de casa, que não ficava longe.
A boa Ângela protegia os inocentes amores da pupila, amores novos e superficiais para ambas, que apenas há dois meses o sabiam; enraizados, porém, e velho para Miguel, que há muito consumia noites e esperanças a cismar na filha do seu gratuito e maior inimigo.
Caracteres angélicos como o do artista sabem e podem amar; não com esse amor sensual e grosseiro, cheio de desejos, que estiolam o coração e os sentidos dos filhos das grandes capitais, mas com essa fragrância singela, comparável ao perfume da violeta e que se pode chamar afeto, religião ou mesmo fanatismo. Não a amava ele porque a desejasse, senão porque a sentisse em toda a sua
individualidade; nele tudo se poderia extinguir, menos esse sentimento, que o acompanhava como uma qualidade inerente à sua matéria. Quanto mais procuravam evitá-lo, quanto mais obstáculos levantavam à sua passagem, quanto mais faziam por pisá-lo, mais forte recendia esse afeto, semelhante às plantas do Oriente, que tanto mais perfume exalam, quanto mais grosseira for a mão que as triture.
Supersticioso como era, tinha para si que nem a morte seria capaz de destruir essa paixão.
— Quando eu morrer — pensava ele, há de ficar nesta ilha o meu amor, triste, invisível e inconsolável, como um espírito penado, e irá todas as noites deitarse à soleira da tua casinha branca, minha Rosalina. Vês um frasco de perfume que se quebra e derrama o líquido perfumoso? Pois bem; os pedaços desaparecem, a umidade do chão, que o líquido ensopara, bebe-a o calor da atmosfera, mas o perfume fica e ficará por muito tempo! É assim que eu te amo, minha amiga!
No entanto, Rosalina estava longe de alcançar a grandiosidade deste sentimento: supunha-o vulgar e reles, como soe acontecer com as raparigas, que não conhecem o coração do homem.
CAPÍTULO VI
Há dois anos, estava Maffei em Rezina.
Há dois anos, cartas impregnadas de certo cheiro de prosperidade vinham alegrar a família do pescador e sobressaltar o ânimo do pobre Miguel. Contudo, a casinha branca continuava naquela ignorada e encantadora solidão; agora, porém, as oliveiras deixavam apodrecer o fruto nos galhos, o lugar onde dormia ocioso e as redes da pesca não viam água salgada desde muito tempo.
Fazia uma noite deliciosa. Uma dessas noites sem lua, em que a frouxa claridade das estrelas povoa o campo de poesia e amor.
O relógio de São Tiago badejava pausada e religiosamente, o toque do crepúsculo, quando Miguel, com sua rabeca debaixo do braço, seguia abstraído pela orla do caminho, que ia dar à casinha branca.
Em breve, atravessava o patamar de pedra da casa do pescador, e descansava vagarosamente sobre a mesa a rabeca e o chapéu de feltro de copa alta.
Ângela e Rosalina correram ao encontro do recém-chegado.
— Boa noite, Rosalina! Como passou, mãe Ângela?
As duas mulheres responderam familiarmente a este cumprimento.
— Senta-te aqui, Miguel — disse Rosalina, arrastando uma cadeira de pau, enquanto do fundo da casa, um cão, uivando amigavelmente, veio cheirar os pés e as mãos do artista.
Fica visto por esta recepção que aquela visita não era novidade para nenhum dos três.
Miguel sentou-se, sem cerimônia, ao lado de Rosalina; Castor, o cão, veio sentar-se-lhes aos pés, encostando-lhes humildemente a cabeça nas pernas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.