Por Machado de Assis (1870)
— Não lhe acho defeito...
— Nada de evasivas; a verdade é essa. Augusta não se parece com as outras moças que pensam muito bem de si, mas sorriem quando lhes fazem algum cumprimento, e franzem o sobrolho quando não lhos fazem.
— Direi que é uma adorável exceção, respondi eu sorrindo para a moça, que me agradeceu sorrindo também.
— Isso é, disse o pai; mas exceção completa.
— Uma educação racional, continuei eu, pode muito bem...
— Não só a educação, tornou Mendonça, mas até a origem. A origem é tudo, ou quase tudo.
Não entendi o que queria dizer o homem. Augusta parece que entendeu, porque entrou a olhar para o teto sorrindo maliciosamente. Olhei para o capitão; o capitão olhava para a coruja.
Reanimou-se a conversa por espaço de alguns minutos, ao cabo dos quais o capitão, que parecia ter uma idéia fixa, perguntou-me:
— Então acha esses olhos bonitos?
— Já lho disse; são tão formosos quanto raros.
— Quer que lhos dê? perguntou o velho.
Inclinei-me dizendo:
— Seria muito feliz em possuir tão raras prendas; mas...
— Nada de cerimônias; se quer, dou-lhos; senão, limito-me a mostrar-lhos. Dizendo isto, levantou-se o capitão e aproximou-se de Augusta, que inclinou a cabeça sobre as mãos dele. O velho fez um pequeno movimento, a moça ergueu a cabeça, o velho apresentou-me nas mãos os dois belos olhos da moça.
Olhei para Augusta. Era horrível. Tinha no lugar dos olhos dois grandes buracos como uma caveira. Desisto de descrever o que senti; não pude dar um grito; fiquei gelado. A cabeça da moça era o que mais hediondo pode criar imaginação humana; imaginem uma caveira viva, falando, sorrindo, fitando em mim os dois buracos vazios, onde pouco antes nadavam os mais belos olhos do mundo. Os buracos pareciam ver-me; a moça contemplava o meu espanto com um sorriso angélico.
— Veja-os de perto, dizia o velho diante de mim; palpe-os; diga-me se já viu obra tão perfeita.
Que faria eu senão obedecer-lhe? Olhei para os olhos que o velho tinha na mão. Aqui foi pior; os dois olhos estavam fitos em mim, pareciam compreender-me tanto quanto os buracos vazios do rosto da moça; separados do rosto, não os abandonara a vida; a retina tinha a mesma luz e os mesmos reflexos. Daquele modo as duas mãos do velho olhavam para mim como se foram um rosto.
Não sei que tempo se passou; o capitão tornou a aproximar-se de Augusta; esta abaixou a cabeça, e o velho introduziu os olhos no seu lugar.
Era horrível tudo aquilo.
— Está pálido! disse Augusta, obrigando-me a olhar para ela, já restituída ao estado anterior.
— É natural... balbuciei eu; vejo coisas...
— Incríveis? perguntou o capitão esfregando as mãos.
— Efetivamente, incríveis, respondi; não pensava...
— Isto é nada! exclamou o capitão; e eu folgo muito que ache incríveis essas coisas poucas que viu, porque é sinal de que eu vou fazer pasmar o mundo.
Tirei o lenço para limpar o suor que me caía em bagas. Durante esse tempo Augusta levantou-se e saiu da sala.
— Vê a graça com que ela anda? perguntou o capitão. Aquilo tudo é obra minha... é obra do meu gabinete.
— Ah!
— É verdade; é por ora a minha obra-prima; e creio que não há que dizer-lhe; pelo menos o senhor parece estar encantado...
Curvei a cabeça em sinal de assentimento. Que faria eu, pobre mortal sem força, contra um homem e uma rapariga que me pareciam dispor de forças desconhecidas aos homens?
Todo o meu empenho era sair daquela casa; mas por maneira que os não molestasse. Desejava que as horas tivessem asas; mas é nas crises terríveis que elas correm fatalmente lentas. Dei ao diabo os meus arrufos, que foram a causa do encontro com semelhante sujeito.
Parece que o capitão adivinhara aquelas minhas reflexões, porque continuou, depois de algum silêncio:
— Deve estar encantado, ainda que um tanto assustado e arrependido da sua condescendência. Mas isso é puerilidade; nada perdeu em vir aqui, antes ganhou; fica sabendo coisas que só mais tarde saberá o mundo. Não lhe parece melhor? — Parece, respondi sem saber o que dizia.
O capitão continuou:
— Augusta é a minha obra-prima. É um produto químico; gastei três anos para dar ao mundo aquele milagre; mas a perseverança vence tudo, e eu sou dotado de um caráter tenaz. Os primeiros ensaios foram maus; três vezes saiu a pequena dos meus alambiques, sempre imperfeita. A quarta foi esforço de ciência. Quando aquela perfeição apareceu caí-lhe aos pés. O criador admirava a criatura!
Parece que eu tinha pintado o pasmo nos olhos, porque o velho disse:
— Vejo que se espanta de tudo isto, e acho natural. Que poderia o senhor saber de semelhante coisa?
Levantou-se, deu alguns passos, e sentou-se outra vez. Nesse momento entrou o moleque trazendo café.
A presença do moleque fez-me criar alma nova; imaginei que fosse ali dentro a única criatura verdadeiramente humana com quem me pudesse entender. Entrei a fazer-lhe sinais, mas não consegui ser entendido. O moleque saiu, e fiquei a sós com o meu interlocutor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O capitão Mendonça. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1870.