Por Machado de Assis (1862)
A virtude da paciência. Empregavas melhor essa virtude em fazer palitos do que em fazer a roda a esta namoradeira. Sabes o que aconteceu aos companheiros de Ulisses passando pela ilha de Circe? Ficaram transformados em porcos. Melhor sorte teve Actéon que por espreitar Diana no banho passou de homem a veado. Prova evidente de que é melhor pilhá-las no banho do que andar-lhes à roda nos tapetes da sala.
VALENTIM
Passas de prosaico a cínico.
DOUTOR
É uma modificação. Tu estás sempre o mesmo ridículo.
Cena II
Os mesmos, INOCÊNCIO (trazido por um criado)
INOCÊNCIO
Oh!
DOUTOR
(baixo a Valentim)
Chega o teu competidor.
VALENTIM
(baixo)
Não me vexes.
INOCÊNCIO
Meus senhores! Já por cá? Madrugaram hoje!
DOUTOR
É verdade. E V. S.?
INOCÊNCIO
Como está vendo. Levanto-me sempre com o sol.
DOUTOR
Se V. S. é outro.
INOCÊNCIO
(não compreendendo)
Outro quê? Ah! Outro sol! Este doutor tem umas expressões tão... fora do vulgar! Ora veja; a mim ainda ninguém se lembrou de dizer isto. Sr. Doutor, V. S. há de tratar de um negócio que trago pendente no foro. Quem fala assim é capaz de seduzir a própria lei!
DOUTOR
Obrigado!
INOCÊNCIO
Onde está a encantadora D. Carlota? Trago-lhe este ramalhete que eu próprio colhi e arranjei. Olhem como estas flores estão bem combinadas: rosas, paixão; açucenas, candura. Que tal?
DOUTOR
Engenhoso!
INOCÊNCIO
(dando-lhe o braço)
Agora ouça, Sr. Doutor. Decorei umas quatro palavras para dizer ao entregar-lhe estas flores. Veja se condizem com o assunto.
DOUTOR
Sou todo ouvidos.
INOCÊNCIO
"Estas flores são um presente que a primavera faz à sua irmã por intermédio do mais ardente admirador de ambas." Que tal?
DOUTOR
Sublime! (Inocêncio ri-se à socapa) Não é da mesma opinião?
INOCÊNCIO
Pudera não ser sublime: se eu próprio copiei isto de um Secretário dos Amantes!
DOUTOR
Ali!
VALENTIM
(baixo ao Doutor)
Gabo-te a paciência!
DOUTOR
(dando-lhe o braço)
Pois que tem! É miraculosamente tolo. Não é da mesma espécie que tu...
VALENTIM
Cornélio!
DOUTOR
Descansa; é de outra muito pior.
Cena III
Os mesmos, CARLOTA
CARLOTA
Perdão, meus senhores, de os haver feito esperar... (distribui apertos de mão)
VALENTIM
Nós é que lhe pedimos desculpa de havermos madrugado deste modo...
DOUTOR
A mim, traz-me um motivo justificável.
CARLOTA
(rindo)
Ver-me? (vai sentar-se)
DOUTOR
Não.
CARLOTA
Não é um motivo justificável, esse?
DOUTOR
Sem dúvida; incomodá-la é que o não é. Ah! minha senhora, eu aprecio mais do que nenhum outro o despeito que deve causar a uma moça uma interrupção no serviço da toilette. Creio que é coisa tão séria como uma quebra de relações diplomáticas.
CARLOTA
Sr. Doutor graceja e exagera. Mas qual é esse motivo que justifica a sua entrada em
minha casa, a esta hora?
DOUTOR
Venho receber as suas ordens acerca da representação desta noite.
CARLOTA
Que representação?
DOUTOR
Canta-se o Trovador.
INOCÊNCIO
Bonita peça!
DOUTOR
Não pensa que deve ir?
CARLOTA
Sim, e agradeço-lhe a sua amável lembrança. Já sei que vem oferecer-me o seu camarote. Olhe, há de desculpar-me este descuido, mas prometo que vou quanto antes tomar uma assinatura.
INOCÊNCIO
(a Valentim)
Ando desconfiado do Doutor!
VALENTIM
Por quê?
INOCÊNCIO
Veja como ela o trata! Mas eu vou desbancá-lo, com minha frase do Secretário dos Amantes... (indo a Carlota) Minha senhora, estas flores são um presente que a primavera faz à sua irmã...
DOUTOR
(completando a frase)
Por intermédio do mais ardente admirador de ambas.
INOCÊNCIO
Sr. Doutor!
CARLOTA
O que é?
INOCÊNCIO
(baixo)
Isto não se faz! (a Carlota) Aqui tem, minha senhora...
CARLOTA
Agradecida. Por que se retirou ontem tão cedo? Não lho quis perguntar... de boca; mas creio que o interroguei com o olhar.
INOCÊNCIO
(no cúmulo da satisfação)
De boca?... Com o olhar?... Ah! queira perdoar, minha senhora... mas um motivo
imperioso...
DOUTOR
Imperioso... não é delicado.
CARLOTA
Não exijo saber o motivo; supus que se houvesse passado alguma coisa que o desgostasse...
INOCÊNCIO
Qual, minha senhora; o que se poderia passar? Não estava eu diante de V. Exa. para consolar-me com seus olhares de algum desgosto que houvesse? E não houve nenhum.
CARLOTA
(ergue-se e bate-lhe com o leque no ombro)
Lisonjeiro!
DOUTOR
(descendo entre ambos)
V. Exa. há de desculpar-me se interrompo uma espécie de idílio com uma coisa prosaica, ou antes com outro idílio, de outro gênero, um idílio do estômago; o almoço...
CARLOTA
Almoça conosco?
DOUTOR
Oh! minha senhora, não seria capaz de interrompê-la; peço simplesmente licença para ir almoçar com um desembargador da relação a quem tenho de prestar umas informações. CARLOTA
Sinto que na minha perda, ganhe um desembargador; não sabe como odeio a toda essa gente do foro; faço apenas uma exceção.
DOUTOR
Sou eu.
CARLOTA
(sorrindo)
É verdade. Donde concluiu?
DOUTOR
Estou presente!
CARLOTA
Maldoso!
DOUTOR
Fica, não, Sr. Inocêncio?
INOCÊNCIO
Vou. (baixo ao Doutor) Estalo de felicidade!
DOUTOR
Até logo!
INOCÊNCIO
Minha senhora!
Cena IV
CARLOTA, VALENTIM
CARLOTA
Ficou?
VALENTIM
(indo buscar o chapéu)
Se a incomodo...
CARLOTA
Não. Dá-me prazer até. Ora, por que há de ser tão suscetível a respeito de tudo o que lhe digo?
VALENTIM
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O caminho da porta. Rio de Janeiro, 1862.