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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Veja, veja, Salustiano, se arranja alguma coisa, que estou cheio de compromissos! E o Dr. Mosquito, voltando ao seu trabalho, exclamou sem mexer com os olhos:

- Aproxime-se!

André encaminhou-se para ele, de cabeça baixa.

- Como se chama?

- André.

- De quê?

- Miranda.

- Só?

- De Melo.

- André Miranda de Melo... repetiu o diretor, indo a escrever o nome em um livro que acabava de tirar da gaveta.

- E Costa, acrescentou o menino.

- Então por que não disse logo de uma vez?

André não respondeu.

- Sua idade?

- Dez.

- Dez quê, menino?

- Anos.

- Hein?

- Dez anos.

- An!

E, enquanto escrevia:

- Já sabe quais são as aulas que vai cursar?

- Já.

- Já, sim, senhor, também se diz!

- Diz-se.

- Como?

- Diz-se, sim, senhor.

- Ora bem! concluiu o Mosquito, afastando com a mão o paletó para coçar as costelas. E, depois de uma careta que patenteava a má impressão deixada pelo seu novo aluno, resmungou com um bocejo:

- Bem! Sente-se; espere que venham buscá-lo.

- Onde? perguntou André, a olhar para os lados, sem descobrir assento.

- Ali, menino, oh!

E o diretor suspendeu com impaciência a pena do papel, para indicar uma das duas portas que havia do lado oposto do escritório. Em seguida mergulhou outra vez no seu trabalho, disposto a não interrompê-lo de novo:

André foi abrir uma das portas e disse lentamente:

- É um armário.

- A outra, a outra, menino! gritou o Mosquito, sem se voltar.

André foi então à outra porta, abriu-a e entrou no quarto próximo.

Era uma saleta comprida, com duas janelas de vidraça> que se achavam fechadas. Do lado contrário às janelas havia uma grande estante, onde se viam inúmeros objetos adequados à instrução primária dos rapazes.

O menino foi sentar-se em um canapé que encontrou e dispôs-se a esperar.

Foi-se meia hora e ninguém apareceu. Seriam já quatro da tarde e, como André ainda estava só com a sua refeição da manhã, principiou a sentir-se muito mal do estômago. Esgotada outra meia hora, ergueu-se e foi, para se distrair, contemplar os objetos da estante. Levou a olhá-los longo tempo, sem compreender o que tinha defronte da vista.

Depois, espreguiçou-se e voltou ao canapé.

Mais outra meia hora decorreu, sem que o viessem buscar.

Duas vezes chegou à porta por onde entrara na saleta e, como via sempre o escritório deserto, tornava ao seu banco da paciência. E, no entanto, o apetite crescia-lhe por dentro de um modo insuportável e o pobre André principiava a temer que o deixassem ficar ali eternamente.

Pouco depois de entrar para a saleta, um forte rumor de vozes e passos repetidos lhe fez compreender que alguma aula havia terminado; daí a coisa de cinqüenta minutos, o toque de uma sineta lhe trouxe à idéia o jantar, e ele verificou que se não enganara no seu raciocínio com o barulho de louças e talheres que faziam logo em seguida. Depois, compreendeu que era chegada a hora do tal recreio porque ouvia uma formidável vozeria de crianças que desciam para a chácara.

E nada de virem ao seu encontro.

- Que maçada! pensava ele, a segurar o estômago com ambas as mãos.

Afinal, a escuridão começou a invadir a saleta. Havia cessado já o barulho dos meninos e agora ouviam-se apenas de vez em quando alguns passos destacados nos próximos aposentos.

Em tais ocasiões, o pequeno do padre corria à porta do escritório e espreitava.

Ninguém.

Já era noite completa, quando um entorpecimento irresistível se apoderou dele. O pobrezito vergou-se sobre as costas do canapé, estendeu as suas pernitas curtas e adormeceu.

Dormindo conseguiu o que não fizera acordado: seu roncos foram ouvidos pelo inspetor do colégio, e, daí a pouco André, sem dar ainda acordo de si, era conduzido à mesa do refeitório, onde ia servir-se o chá.

Seu tipo, já de natural estranho, agora parecia fantástico sob a impressão do estremunhamento; e os estudantes, que o observavam em silêncio, abriram todos a rir, quando viram o inesperado colega atirar-se ao prato de pão com uma voracidade canina. Mas André pouco se incomodou com isso e continuou a comer sofregamente, no meio das gargalhadas dos rapazes e dos gritos do inspetor que, sem ele próprio conter o riso, procurava chamá-los a ordem.

Por estes fatos apenas fez-se notar a sua entrada no colégio, visto que ele, depois da ceia, recolheu-se ao dormitório e acordou no dia seguinte, ao primeiro toque da sineta, sem ter trocado meia palavra com um só de seus companheiros.

Não procuravam as suas relações, nem ele as de ninguém, e, apesar das vaias e das repetidas pilhérias dos colegas, teria passado tranqüilamente os primeiros dias da sua nova existência, se um incidente desagradável não o viesse perturbar.

Havia no colégio um rapaz, que exercia sobre outros certa superioridade, nem só porque era dos mais velhos, como pelo seu gênio brigador e arrogante. Chamava-se Fonseca e os companheiros o temiam a ponto de nem se animarem a fazer contra ele qualquer queixa ao diretor.

André atravessava numa ocasião o pátio do recreio, quando ouviu gritar atrás de si 'Ó

Coruja!"

(continua...)

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