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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

A subida da íngreme ladeira).

O mártir Sebastião mudar quisesse,[8]

Ás sombras se acolheu da casa sua

O regedor da fluminense igreja,

Não de outra sorte o ríspido pampeiro,

Depois que os campos e revoltos mares

Desabrido varreu, as asas frouxas

De novo enrola, o ímpeto refreia

E à morada dos Andes se recolhe.

III

Então a Gula, que jamais lograra

De todo triunfar na infante igreja,

A vil Preguiça revoando busca

E vai achá-la cochilando à porta

De um amável garção, que os bens houvera

E o nome dos avós, à custa ganhos

De muita cutilada e muita lança

Em África metida. Ali com ela

Descem Indigestões e Apoplexias,

Sua querida e diligente prole;

Umas pálidas são, outras vermelhas,

E todas ofegantes e cansadas,

De esvaziar boticas sem descanso

E encher continuamente os cemitérios.

Com a pesada planta a Gula toca

O peito da Preguiça, que estremece,

Abre os olhos a custo, a custo a língua

A mastigar começa alguma frase,

Quando a Irmã, nestas vozes prorrompendo,

A palavra lhe corta: "Será crivei ,

Que do nosso poder sempre mofando

Só a Ira governe há tanto tempo

A fluminense igreja, e que o prelado,

Das nossas armas em desdouro eterno,

Num perpétuo lidar empregue os dias,

Que nem ócios, nem jogos, nem banquetes

A raiva lhe moderem? Mana amiga,

Dentro em breve prostradas ficaremos.

Que o poder usurpando a pouco e pouco

Ela só reinará no mundo inteiro".

IV

Deste jeito falando a voraz Gula,

Os brios da Preguiça abala e acorda,

E a lembrança lhe traz desconsolada

De quantas vezes a terrível Ira

As obras malogrou das artes suas.

"Vamos (lhe diz) a cercear-lhe o gosto

Do triunfo. Propício ensejo é este

Mais que nenhum; esse revolto oceano

Que dous mundos divide, a acender guerras,

A rebelar o coração dos homens

A bárbara transpôs". Isto dizendo

Toma nos braços a Preguiça e voa,

Com certa frouxidão cortando os ares,

E a Guanabara descem. Entre a ermida

Que ao nazareno artífice votara

A piedade cristã, e esse edifício

Que albergue foi de míseros culpados,

E onde hoje troa o popular Congresso,

A casa do prelado aos olhos surge.[9]

Ali descendo a Gula e a Preguiça

Invisíveis penetram, e nos braços

O fogoso pastor e seus amigos

Sem muito esforço ao coração apertam.

V

Adeus, guerras! Adeus férvidas brigas!

Os banquetes agora e as fofas camas,

Os sonos regalados e compridos,

As merendas, as celas, os licores

De toda a casta, as frutas, as compotas

Com intervalos de palestra e jogo,

A vida são do jovial prelado.

Ele a queda não vê do grande nome,

Inda há pouco temido; nem as chufas

Lhe dão abalo no abatido peito.

Em vão algum adulador sacristã

Os ditos da cidade lhe levava,

As dentadas anônimas da gente

Maliciosa e vadia; o grande Almada

Às denúncias do amigo vigilante,

Os nédios ombros encolhia apenas,

Fleumático sorria, e um bocejo

E cum arroto respondia a tudo.

VI

Com ele os dias docemente passam

Dez ou doze ilustríssimos amigos,

Entre os quais a figura majestosa

Campeava do profundo Vilalobos,

Que era a flor dos doutores da cidade,

Vigário do prelado, e a mais robusta [10]

Das colunas da igreja fluminense.

O pregador Veloso ali brilhava

Pelas risadas com que ouvia as chufas

Do ínclito prelado, de quem era

Convencido capacho,e que esperava [11]

A posição haver de Vilalobos

Que a tribo lhe empregou dos seus parentes.

Esse era o pregador das grandes festas,

De tal quilate e tão profunda vista,

Que quando orava em dias de quaresma

Analisava os textos, e exprimia

O doutrina evangélica de modo

Que a não reconhecera o próprio Cristo.

VII

Segue-se o impávido escrivão Cardoso,[12]

Que mede nove palmos de estatura,

E tem força no pulso como gente,

E inda é mais destemido que forçoso.

O Lucas, com quem foi ingrata e avara,

Ao dar-lhe entendimento, a natureza,

Também ali com eles palestrava.

E, sem nada entender, de tudo ria;

Mas sendo sempre igual a madre nossa

Em estômago o cérebro compensa

Ao gordo comilão, que não contente

De devastar as nobres iguarias

Quando na casa do prelado come,

Com os olhos devora, inda faminto,

A tamina dos pretos da cozinha.

Vinha depois o Nunes, o Duarte,

E quatro ou cinco mais; porém faltava

Meia dúzia de padres venerandos,

Em quem poder não teve a Gula nunca,

Nem a mole Preguiça, e que enjoados

Da vida solta que viviam esses,

As sandálias à porta sacudindo,

Da aborrecível casa se alongaram

Levando n'alma a austeridade antiga

E a pureza imortal da santa igreja.

VIII

Os mais deles em frívola conversa,

Os sucessos do dia comentavam.

Ali o alcaide-mor e o seu governo,

Entre contínuas mofas e risadas,

Dos amáveis ferrões picados eram,

E bem assim o temerário Mustre

Que de si mesmo cheio, presumia

Ter o rei na barriga, e na cabeça

Toda a ciência humana concentrada.

Vinha depois algum picante caso

De monacal discórdia, ou de profana

Namoração que o Nunes abelhudo,

Para o baço espraiardo grande Almada, [13]

E fazer jus às boas graças dele,

Pelas ruas colhia, e temperava

De combinadas pausas e trejeitos.

IX

Finalmente falavam da aventura

Do almotacé Fagundes, que, dançando

Na Rua do Alecrim com suma graça

Tão derretido contemplava as moças

Que de ventas caiu no pó da sala.

Ao vê-lo na ridícula postura,

Desataram a rir as cruéis damas,

Os gemidos cessaram das rebecas

(continua...)

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