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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Se Ângelo a tivesse recebido com palavras duras, se a enxotasse da sua presença como o arcanjo do Paraíso enxotou a Eva pecadora, é possível que ela não levasse tão longe o empenho de ser amada por ele; mas só a idéia daquela frieza, daquela inalterável superioridade de ente puro e forte, que não teme solução de espécie alguma, só isso era o bastante para levá-la a não desistir da campanha e lutar até vencer ou cair morta.

— Sim! disse ela, cerrando os punhos, desesperada. Agora, dê por onde der, sofra quem sofrer, hei de vencê-lo, hei de possuí-lo, ou buscarei na. morte o completo esquecimento desta fatal paixão!

SEGUNDA PARTE

Si nous révions toutes les nuits la même chose, elle nous affecterais peut-être autant que les objets que nous voyons tous les jours.

PASCAL — Pensées.

CAPÍTULO I

Emurchecer de uma flor

Seis meses são decorridos depois que Ângelo foi para Monteli, e poucas cousas extraordinárias se têm passado com as personagens que figuram nesta amorosa narrativa.

O Dr. Cobalt, durante esse tempo, apresentou à Academia Francesa um livro de fisiologia e de filosofia, revolucionando a ciência de então com as suas novas idéias materialistas. A obra fez grande alvoroço e foi condenada a um tempo pela Sorbona, pelo Papa e pelo Parlamento. Mas ele, sustentado entusiasticamente pelos discípulos de Moraud, Picard e Hecquet, não desanimou e prometeu voltar a campo, armado agora para a luta com um novo trabalho, ainda mais formidável que o primeiro, em que se propunha provar que as famosas convulsões, provocadas pelo milagroso diácono Paris, no cemitério de Saint-Médard, nada mais eram do que fenômenos nervosos da histeria, moléstia que só então começou a ser estudada e conhecida em França.

Bouflers, esse, coitado! havendo escrito uma sátira contra o duque de Choiseul, que nunca mais o perdeu de vista, caiu na tolice de aceitar os ternos favores de demoiselle Tiercelin, então mantida pelo rei no seu famoso serralho do Parc-aux-cerfs, e teve a infelicidade de ser descoberto nos seus amores por aquele ministro, que o denunciou a Luís XV, e o fez prender e encerrar na Bastilha. Lá ficou. Frei Ozéas, pelo seu lado, três meses depois de permanecer em Monteli, fora acometido pela peste; esteve à morte, e vira-se forçado a separar-se do filho por algum tempo. Persistia muito enfermo, e ainda em perigo de vida, num hospital para onde o levara o Dr. Cobalt.

Quanto a Alzira, depois de novas e inúteis tentativas para conseguir arrastar Ângelo a seus braços, precipitara-se de novo na antiga vida dos prazeres largos, e continuava em Paris a servir de retorta ao ouro dos libertinos, cada vez mais terrível e funesta para os seus amantes.

Diziam que a devorava uma implacável sede de orgias e loucuras, a qual nenhuma virtude, por mais sólida, resistia.

Ângelo, entretanto, ia resignadamente cumprindo o seu estreito e obscuro destino de pobre pároco de aldeia.

Estava, porém, muito mais magro, mais pálido, mais concentrado e mais triste.

Fugira-lhe das faces a cândida frescura da sua mocidade, fugira-lhe dos olhos aquele puro e ardente brilho, que era como o reflexo da sua apaixonada alma de inspirado asceta, fugira-lhe dos lábios a purpurina flor dos seus sorrisos virginais, e agora todo ele nada mais era do que a trêmula sombra do que dantes fora.

Sombra lenta e misteriosa, que em silêncio se arrastava pela vida, ofegante e curvada, como se sobre ela andasse a pairar eternamente o anjo da melancolia, roçando-lhe os cabelos com as suas asas úmidas de pranto.

Impressionava vê-lo, à hora do crepúsculo, errar no jardim entre as lousas mortuárias, com a fronte pendida para a terra, como se estivesse a procurar o derradeiro abrigo no seio dessa mãe melhor que as outras, que nunca enjeita os filhos.

Impressionava aquele negro vulto, arrastando a túnica pela areia dos caminhos, para levar, aos que sofriam menos do que ele, a misericórdia da sua consolação e do seu amor.

Uma noite, já nove horas tinham dado, e Ângelo não aparecia em casa.

A velha Salomé, aflita, ia de vez em quando à janela e voltava desapontada, agitando os ombros e sacudindo a cabeça.

— Que digo eu?... exclamou ela sozinha, olhando a estrada deserta. São quase dez horas, e o senhor vigário ainda fora!... Vão ver que está por aí à cabeceira de alguma vítima da peste, sem se lembrar de que não tem no estômago mais do que uma xícara de leite e um pedaço de pão! Ah! definitivamente...

Um relâmpago cortou-lhe a palavra.

— Chih! Santa Bárbara! Vamos ter tempestade! E o pobre homem por onde andará?...

Ia a sair da janela. Mas uma voz gritou-lhe lá de fora, estrangulada pela ventania.

— Ó tia Salomé!

— Ah! disse ela. É você, mestre Jerônimo?...

— Não pensei achá-la acordada!

— Pois se o senhor vigário ainda não chegou!... Entre.

Foi abrir a porta, e mestre Jerônimo, um hortelão da vizinhança, penetrou na modesta sala, trazendo seguro pelo braço um rapazola de uns doze anos, que mal se podia ter nas pernas de tão ébrio que estava.

(continua...)

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