Por Aluísio Azevedo (1897)
Ela não lhe dava ouvidos, e aparecia às vezes visivelmente excitada, com os olhos lacrimosos, o ar cheio de fastio, de má vontade e de maus modos.
A mãe acudialhe com repreensões, porém o pai intervinha a favor da filha, e acabava sempre, para a esta tranqüilizar de todo, lhe prometendo trazer um vestido novo e quatro velhos romances de Alexandre Dumas.
— Você está mas é estragando a pequena com essas bobagens! dizia Genoveva ao marido, com uma voz mole, como se saísse de uma boca de manteiga. Eu nunca tive desses mimos!...
— E é justamente por isso que é quem é! replicava o comendador, pondo em sua frase uma intenção sutil e profunda. Le monde marche, minha rica senhora! e se fôssemos a ser o que foram nossos avós, você seria a estas horas... nem sei mesmo o quê!...
— Se eu fosse o que foi minha avó, seria muito boa lavadeira. Minha mãe dizia constantemente que minha avó era a melhor lavadeira do Rocio Pequeno!
— Ora, não esteja aí a dizer blasfêmias! repreendia o pai de Ambrosina a olhar para os lados. A senhora não sabe ao certo o que é, quanto mais o que foi sua avó torta! Ora; pelo amor de Deus, dona Genoveva!
A Genoveva afastavase, sem ânimo de protestar contra os remoques do marido.
— O diacho do homem sempre tinha uns repentes! Credo!
E assim cresceu Ambrosina fezse mocetona, entre os enervantes zelos do pai e as inércias do amor de Genoveva.
Reuniase gente quase todas as noites em casa do comendador, e faziase um cavaco antes do chá. Ambrosina solfejava ao piano; as visitas fumavam ou bebiam cerveja, e o dono da casa falava de política ou de negócios.
Entre essa gente destacavase D. Ursulina, casada com um negociante inglês, que se tornava muito notável entre os de sua raça, porque jamais ia além do primeiro copo. Tinha o casal duas filhas, uma das quais fazia as delícias dos rapazes namoradores, e a outra os cuidados da mãe, que enxergava nela, com olhos experimentados, todas as qualidades precursoras de um eterno celibato.
A namoradeira chamavase Emília e acudia o chistoso nome de Nhanhã Miló; a outra era pura e simplesmente Eugênia. Uma bonita; e a outra simpática.
Miló era travessa, alegre, faceira; tinha os olhos vivos, a língua solta, o pé ligeiro e um moreninho delicioso. A outra era tristonha e pálida, de olhos azuis, os movimentos compassados, os gestos frios; entretinhase esta em casa a ler revistas inglesas, à noite, antes do chá, enquanto Miló cantarolava uma modinha ao piano ou ia para o portão da chácara ver quem passava na rua. Emília puxara à mãe; Eugênia saíra ao pai.
Da família, a mais tola era Ursulina, cuja conservação dos seus fugitivos dotes de beleza a trazia em constante e ridículo sobressalto.
O marido nunca dera por isso. Fora sempre um verdadeiro negociante inglês — seco, áspero, sem bigode, falando português a socos, e mostrandose sistematicamente indiferente a tudo que não fosse de interesse prático.
À noite lia o Times ou jogava O wist com Eugênia, a sua filha predileta.
Ainda convém citar dois tipos da roda fiel do comendador:
Um era o Reguinho. Rapaz de vinte e tantos anos, filho de um fazendeiro estúpido e rico, que lhe fornecia dinheiro para a pândega. Muito conhecido; todos sabiam das suas asneiras e até de uma ou outra estrangeirinha, mas ninguém lhe ia às mãos por isso.
A sua linha mais acentuada, a sua mania, a sua moléstia, era a mentira. O Reguinho mentia por hábito, mentia por índole, por gosto; mentia, porque mentia.
Não estava em suas mãos proceder de outro modo: ele às vezes, coitado! não tinha intenção de dizer senão a verdade mas era bastante que suas palavras produzissem algum efeito em quem as escutasse, para vir logo a primeira mentira, abrindo a porta a um chorrilho delas. E eilo a aumentar, a exagerar, a meter no assunto episódios falsos; a dizer, enfim, aquilo que não era, e a mentir.
Um dia, encontrou ele na rua o infortunado viúvo de Ana, a quem conhecia de longa data. O pobre de Cristo, desde que perdera o emprego, vivia por aí aos paus, comendo a maior parte das vezes em casa do sogro ou nas águas de alguma velha amizade de melhores tempos.
— Vem cá, homem! como vai tu? disselhe o intrujão, batendolhe no ombro.
O Marmelada queixouse da sorte com a resignação tétrica.
— Andas apoquentando, meu... (Queria dizerlhe o nome, mas não se lembrava dele — Como é mesmo que te chamas?...
— Já nem de meu nome te lembras!... Também o que há nisso de extraordinário? outros nem sequer me conhecem mais!...
O Reguinho deu a sua palavra de honra em como se esquecia do nome de toda a gente.
— Chamome Alfredo da Silva Bessa...
— É isso! é! Mas tu estás desempregado, hem, meu Bessa?
Marmelada meneou afirmativamente a cabeça num desânimo sombrio.
O outro acrescentou:
— Pois tenho um emprego às tuas ordens. É negociozinho para de pronto meteres na algibeira um bom par de notas de cem! Estou convencido de que não me recusarás!...
O rosto lívido do Marmelada iluminouse de um clarão de esperanço.
— Um emprego?! interrogou ele, acompanhando ansioso os movimentos do Reguinho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.