Por Bernardo Guimarães (1883)
Conrado chamou de parte o francez, dono da taverna, e dando-lhe uma somma de dinheiro mais que sufficiente, pedio-lhe que acudisse de prompto á doente com algum cordial ou algum caldo, que a confortasse, visto que ella estava morrendo mais de fraqueza e inanição do que mesmo da doença. Recommendou-lhe lambem que mandasse immediatamente varrer e aceiar a immunda pocilga, em que jazia a misera velha, e collocar lá duas outras cadeiras ou tamboretes, porque dentro de duas horas ao mais tardar tinha de voltar com um padre para ouvil-a de confissão.
Tenha paciencia, — disse elle ao tavernoivo ; — não se poupe a despeza nem a trabalho, que tudo hei de remunerar generosamente, e além disso lhe ficarei tão agradecido por tudo que fizer por essa mulher, como si fosse um serviço feito a mim proprio.
O francez comprometteo-se de bom grado a cumprir tudo que Conrado lhe recommandára. O interesse que aquelle rico e distincto cavalleiro tomava pela pobre e desgraçada velha, lhes excitando altamente a curiosidade, os dispunha tambem a secundal-o em tão louvavel e caridoso empenho.
Conrado agradeceo, e tocou a galope para a cidade.
CAPITULO XII
Frei João de Sta-Clara
Conrado, chegando á cidade, apenas parou um momento á porta de sua casa para dar ordem a seu pagom de sellar o animal mais manso que houvesse na cocheira, e leval-o immediatemente ao convento do Carmo, onde ia esperal-o.
Achava—se então em S. Paulo hospedado no Convento de sua ordem, um frade carmelita, por nome Frei João de Santa Clara, distincto por suas virtudes e seu grande saber. Pregador eximio e theologo profundo, este não tinha passado seus dias vegetando em piedoso ocio e pizando mansamente os sanctos ladrilhos com o breviario na mão á sombra das severas abobadas do claustro. Tinha percorrido quasi todas as provincias do Brazil, missionando já entre populações civilisadas, já entre aldêas de indigenas em serviço de catechese. Era tambem por vezes encarregado pelo Geral da Ordem de arduas e importantes commissões, e era em virtude de uma destas que se achava então em S. Paulo. Suas virtudes não consistião meramente na pratica desses exercicios asceticos, que seus confrades de ordinario tanto alardeão mais para se imporem á veneração do vulgo, do que por verdadeiro espirito de penitencia e mortificação. Tolerante, benevolo e affavel para com todos, nada tinha dessa exterioridade rispida e austera, que constitue o caracter essencial do frade. Era ameno e singelo na conversacão, e entregava-se sem escrupulo aos pra zeres licitos e compativeis com o seu estado. Pertencendo a uma importante e abastada familia da Bahia, renunciara a todas as vantagens que lhe propriconavão o nascimento e a fortuna, e tomára o habito em virtude de uma vocação sincera posta á prova por longo noviciado. Era portanto Frei João de Santa Clara um monge moldado pelo typo sublime dos Boaventura, Francisco-Xavier, Luiz de Gonza o a e Vicente de Paula.
A figura de Frei João estava em perfeita harmonia com sua natureza. Porte elevado, Lições correctas e suaves, physionomia nobre e expansiva, maneiras singelas, mas delicadas, um timbre de voz claro e sonoro tornavão-no um personagem altamente sympathico, que logo á primeira vista conquistava a effeição e respeito do todos. Todavia, não obstante a moderação e brandura de seu caracter, não lhe faltava energia e severidade, quando assim era mistér, quer na linguagem, quer nas acções. A edade de Frei João orçava então pelos quarenta e cinco annos, e tanto no porte como no semblante reunia ao viço e ao vigor da juventude, a gravidade e sisudeza da edade madura.
Quando Conrado esteve no Simorá, tambem ahi se achava Frei João missionando, e teve então aquelle occasião de travar relações com o carmelita, relações que em breve se converterão em laços de reciproca estima e amizade. Quando o frade chegou a S. Paulo, onde na época dos acontecimentos, que vamos narrando, se achava ha cerca de um mez, Conrado foi um dos primeiros que apressou-se em visital-o e offcrecer-lhc seu prestimo e seus serviços. Frei João folgou muito dc encontrar o seu joven conhecido c amigo de outrora cm tão prospera e brilhante posição, e como não tinha sinão mui poucas relações em S. Paulo, começárão ambos a frequentarem-se com assiduidade, e os laços da antiga amizade se reatárão talvez com mais força e intimidade ainda.
Nenhum sacerdote pois cstava em melhores condições para ser o confessor de Nha-Tuca, e auxiliar a Conrado no melindroso negocio em que se achava empenhado.
Além de ser homem de consummada prudencia e discreção, e um sacerdote respeitavel por possuir em gráo eminente todas as virtudes peculiares ao seu estado, era seu amigo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.