Por Franklin Távora (1879)
A estas vozes, Bezerra voltou-se. Janoca tinha um pé firma no chão e o outro posto sobre o cotovelo de um dos cajueiros, o qual ficava na altura dos joelhos de uma pessoa. A saia, já de si curta, lhe descobria, pela atitude em que estava a rapariga, o princípio de uma perna alentada sobre a qual ela se derreava sobraçando a trouxa. A cabeça guarnecida de cachos, os seios salientes, o corpo, que parecia não caber no cabeção e na saia escassa, levemente encurvado sobre o dorso, davam-lhe certos jeitos e certa nudez de ninfa, que o lugar ermo e a hora crepuscular armavam com mil perigos.
— Que diabo irritante! — disse Bezerra.
E não pode vencer a provocação. Voltou.
— O senhor sabe onde moro? É ali embaixo. Se não quiser ir mesmo, pode mandar para lá o vestido que mamãe recebe. Olhe, a casa é ali à mão direita depois e passar a porteira.
Janoca deu o andar.
— Se quer ver a casa, venha comigo. Não tenha medo, que ninguém há de nos ver.
— Sempre quero saber onde é que tens o teu inferno, demônio! — disse Bezerra, seguindo atrás da rapariga.
Bezerra tinha a infelicidade de sentir particular predileção por esta espécie de gente. Uma mestiça, quase da mesma idade de Janoca, levara-o a praticar loucuras no Pará alguns meses antes; uma fora causadora de grandes desastres em sua vida.
Testemunhando essas trivialidades indignas, Maurícia passou da suprema satisfação à suprema pena. A transição foi rápida e cruel. A exaltação em que estava favoreceu este resultado. Ódio e asco sentia ela pelo marido, que nunca se mostrara digno de sua companhia; mas, nesse momento, pungiu-lhe o coração, além de tais sentimentos, outro que nunca lhe parecera pudesse inspirar-lhe o objeto deles - um ciúme inexplicável, incompreensível, paixão nova que pela primeira vez penetrou nas carnes do seu coração as aceradas garras.
Através da palha da casa e por entre as sombras do crepúsculo, Maurícia viu o marido usar adiante um gesto que cada vez aguçou mais a ponta do espinho que já a lacerava. Bezerra, olhando, como quem espreitava, a um e a outro lado, passou o braço direito à roda da cintura da mestiça, e cosido com ela lhe segredou ao ouvido palavras que a mulher não pode ouvir, mas supôs adivinhar.
— É o mesmo homem! - disse Maurícia com entranhável dor no coração. mas se é o mesmo que dantes, deverei acaso voltar à sua companhia para ser espectadora de mais uma cena destas?
Desejara ouvir tudo; desejara ir atrás dele, pé ante pé, ainda que isto lhe parecesse pouco digno de si, para não perder uma só palavra dessa conversação indecente; mas semelhante intento era irrealizável; demais urgia deixar o esconderijo. Saiu cautelosamente. Estava quase fora de si.
Tanto que se viu do lado de fora, correu tão velozmente como pode, até alcançar o laranjal. Protegida por este e estugando sempre os passos, chegou a dentro em pouco tempo à casa do engenho.
Estava pálida, fria e trêmula. O seu coração tinha servido aquela tarde de campo de muitas batalhas que ela saíra já vencedora, já vencida.
Pesar e prazer, amor e ódio, ciúme e desconhecido desejo de vingança, grandes surpresas, grandes esperanças e grandes desesperos - eis as encontradas forças que a traziam suspensa entre mil incertezas e mil desvarios.
Entrando no aposento, Maurícia tinha inteiramente resolvida a sua vingança. A suave imagem de Ângelo, que enchia o seu entendimento, incitava-a a pô-la por obra. Era terrível o que concebera o seu espírito. Eis pouco mais ou menos no que consistia. Ela desceria à sala de visitas e, quando Bezerra entrasse, declararia, em presença de todos, que, posto tivesse resolvido voltar para sua companhia, adotara opinião contrária. Albuquerque havia de inquirir-lhe a razão desta súbita mudança; então ela referiria o que acabava de ver o marido praticar; fulminaria este com a vergonhosa revelação; impossível seria que não tomasse todos os seu partido. Ficaria vingada e salva.
A imagem de Ângelo, que trazia no seu pensamento como luz benfazeja e consoladora, tinha ficado superior a este plano; não fora o amor que lho inspirara. fora o ódio, o desprezo, a raiva, o despeito, que nas mulheres assume não raras vezes proporções brutais.
Estava para descer, quando Virgínia entrou no quarto. A menina subira as escadas, correndo satisfeita e feliz. Passara toda a tarde em companhia de Paulo, e ao entrar no engenho, alcançara Bezerra.
— Meu pai está aí, mamãe. Venho pedir-lhe que não deixe de aparecer hoje.
— Aparecer-lhe hoje? - inquiriu Maurícia. Sim, hei de aparecer-lhe para lhe dizer que é impossível a minha volta.
— Meu Deus! - exclamou a menina. Para que quer fazer isso? Ou não lhe meta mais raiva. Ele já vem tão triste, tão pálido, que me parece estar sofrendo alguma dor.
— Enganas-te, Virgínia. É a hipocrisia em pessoa. A vileza inspira-lhe o disfarce para ocultar-se. Vi-o há pouco risonho e ... prazenteiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.