Por Franklin Távora (1878)
Não aconteceu, assim porém. Levado do capricho pessoal, ou do interesse, ou do ódio, ou da vaidade de dar mostras de ser capaz de arrostar com a oposição da nobreza de Pernambuco em peso, fez reiteradas instancias ao ministério e ao rei para que se realizasse a elevação do Recife a vila. Esta elevação foi afinal ordenada pela carta regia de 19 de novembro de 1709; mas, como se verificaram logo no ato da divisão de novo termo grandes vexames e violências, irritaram-se mais os ânimos de parte a parte. Caldas respondeu á reação dos pernambucanos notáveis mandando-os prender. Foram do numero dos presos Leonardo Bezerra Cavalcanti, seu irmão Manoel Cavalcanti Bezerra, Luiz Barbalho, Afonso de Albuquerque e outros. O triste exemplo, produzindo impressão de terror em vários agricultores, obrigou-os a deixar suas propriedades e ocultar-se foragidos nos bosques. Enquanto porém alguns se retiravam aterrados, a reação concertava na sombra a sua desforra. Assim que pelas 4 horas da tarde de 17 de outubro de 1710, por ocasião de passar o governador pela frente de uma casa desocupada da Rua-das-aguas-verdes, um tiro lhe foi dai desfechado, não tendo sido parte para que o não fizessem os dois mandatários obscuros o ir Caldas acompanhado e guardado por uma escolta de 25 homens.
Longe de o chamar á razão, o tiro, que mais parece Ter sido aviso de prudência do que meio de dar cabo do poderoso inimigo, visto que, se esta fora a intenção, não teriam posto na arma tão pequena carga que, não obstante ser muito curta a distancia, a bala produziu unicamente no governador ligeira escoriação, serviu antes para o arrojar de uma vez no caminho do atentado. Bastava Ter contra se suspeita de cumplicidade no nefando delito da Rua-das-aguas-verdes para qualquer ser atirado a horrorosa prisão. O capitão André Dias de Figueiredo foi talvez preso como cúmplice, unicamente por Ter por nome o mesmo que o do juiz ordinário que em 1666 intimou ao governador Mendonça Furtado a ordem de prisão em nome do rei. Enfim, foram tantos os excessos do governador Caldas, agora mandando abrir devassas, agora ordenando prisões indevidas; ora estabelecendo presídios, como fez em S.Lourenço-da-mata e em Santo_Antão, ora determinando que o povo fosse desarmado sem ter em atenção sequer estar iminente a invasão francesa, segundo acertadamente pondera o nosso cronista, que, antes do dia 5 de novembro, em que devia romper a revolução, rebentou esta por ocasião de pretender o capitão João da Mota prender o capitão-mór de Santo-Antão Pedro Ribeiro da Silva. Foi em 2 do dito mês que, em lugar de Mota prender Ribeiro quando este ia ouvir missa na matriz, o sitiou ele em seu próprio presidio e o obrigou a capitular com a condição de não voltar ao Recife enquanto o povo, que tratava de reunir-se, não descesse a atacar a vila novamente criada. Enfim, no Domingo (10 de novembro) uma multidão passante de 2.000 matutos tomou o Recife, e como não encontraram ai o governador, foram aquartelar-se em Olinda, senhores da situação. Caldas tinha fugido de véspera para a Baia sem Ter cumprido a sua promessa de embeber, antes de partir, a sua espada em corações pernambucanos.
Foi logo chamado a tomar as rédeas do governo, visto vir apontado na carta regia que prevenia as vacâncias, o bispo d. Manoel Alvarez da Costa que se havia retirado, em visita pastoral, para a Paraíba com o ouvidor dr. José
Ignácio de Arouche pouco simpático aos do Recife por não Ter querido convir na ampliação do termo. D. Manoel volta a Olinda e assume o exercício do novo cargo em 15 de novembro. O primeiro ato do seu governo foi perdoar aos povos a sublevação e o tiro dado em Sebastião de Castro Caldas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.