Por Franklin Távora (1876)
Depressa porém se dissiparam todas as dúvidas. Com fúria indômita, os cães deram mostras de querer despedaçar os visitantes. Semelhante indício foi uma prova evidente de que, não de casa, mas estranhos eram estes.
De repente ouviu se uma voz que, ecoando no terreiro, veio ressoar dentro de casa:
— Aqui estou. Sou eu.
Era a voz de Matias.
Rosalina, ébria de violenta alegria, correu à porta para a abrir, mas logo sobresteve a este novo falar do caboclo:
— Não digo, não digo isto, ainda que me matem.
— Dize que abre a porta, senão te varo com esta faca, Veado do demo — disse Joaquim a meia voz.
— Não digo — repetiu o caboclo.
E alteando a voz, trêmula e como abafada, gritou com toda a força que pôde:
— Não abram, não abram. Eu trouxe os malvados enganados até aqui para poder avisá-la, sinhá Rosalina. Liberato, Ricardo, Sebastião e Vicente são com Deus. Fujam, se podem, que eu sei que morro.
— Ah ! miserável, que nos iludiste — vociferou Joaquim.
E com a faca atravessou incontinente o coração de Matias que, sem soltar um ai, caiu envolto em um turbilhão de sangue.
Não é sem grande constrangimento, leitor, que a minha pena, molhada em tinta, graças a Deus, e não em sangue, descreve cenas de estranho canibalismo como as que nesta história se lêem. Aperta me naturalmente o coração sempre que me vejo obrigado a relatá-las. Entre os motivos da minha repugnância e da minha tristeza sobressai o seguinte: Eu vejo nestes horrores e desgraças a prova, infelizmente irrecusável, de que o ente por excelência, a criatura fadada, como nenhuma outra, para altíssimos fins, pode cair na abjeção mais profunda, se o afastam dos seus sumos destinos circunstâncias de tempo e lugar que, nada, ou muito pouco valendo por si mesmas, são de grande peso para a perturbação do equilíbrio moral do rei da criação, tal é a fragilidade da realeza, ou antes das realezas humanas. Mas desgraçadamente estas cenas não são geradas pela minha fantasia. São fatos acontecidos há pouco mais de um século. Se só alguns deles foram recolhidos pela história, quase todos pertencem à tradição que nô-los legou, antes como límpido espelho, que como tenebrosa notícia do passado. Não estou imaginando, estou, sim, recordando; e recordar é instruir, e quase sempre moralizar. Com estas razões considero me justificado aos teus olhos, leitor benévolo.
Gritos, queixumes, imprecações e prantos que nenhuma pena humana pode descrever seguiram se, de dentro da casa, às últimas palavras do Veado.
Teresa, mulher de Vicente, abraçou se com Rosalina, menos madrasta do que mãe, e começou a carpir com ela a desgraça comum, dando mostras de ter enlouquecido. Não se demoraram a imitá-las nas demonstrações de dor e desespero Josefa, mulher de Ricardo, e Cândida, mulher de Sebastião.
Da sua angústia, para a qual será difícil encontrar paralelo na história das desgraças humanas, vieram tirá-las uma fortíssima pancada contra a porta, e estas formais palavras de Joaquim:
— Se não abrem por bem, hão de abrir por mal.
— Quando for tempo de tocar fogo na capuaba, é só dizer, Joaquim — acrescentou Manuel Corisco.
— Querem queimar a casa, Rosalinda — disse Candida — Estamos perdidas, minha gente. Meu Deus, meu Deus, socorrei nos.
Rosalina poderia ter vinte anos. Suas formas eram arredondadas, os cabelos crespos e negros, os olhos admiravelmente fendidos, a boca impossível de descrever se, porque exprimia graça, volúpia soberba e desdém ao mesmo tempo. Era o tipo da mulata ardente, caprichosa, cheia de vivacidade e energia, tipo que está destinado a desaparecer dentre nós com o correr dos anos, mas que há de ser sempre objeto de tradições muito especiais no seio da sociedade brasileira, pelo muito que tem figurado no campo, na cidade e no lar.
— Sim, querem tocar fogo na casa para nos obrigarem a sair. Mas não sairemos — disse Rosalina com firmeza.
E acrescentou sem demora:
— Sair para onde ? Os nossos maridos desapareceram para sempre dentre os nossos braços. Não temos mais quem olhe por nós neste mundo de amarguras e misérias. Somos cinco desgraçadas a quem a vida já não pode oferecer prazer nem sossego, mas só desgostos e lágrimas. Não, Candida, não sairemos daqui.
— Mas que faremos, Rosalina ?
— Que faremos ! Pois você ainda pergunta ?
— Sim, porque os malvados estão aí, e é tempo de tomarmos a nossa resolução.
— Está tomada — respondeu Rosalina. — Morreremos, e não nos entregaremos aos malvados.
— Meu Deus ! meu Deus ! — exclamou Teresa.
— Não, não, Rosalina — acrescentou Josefa. — Vamos ver se nos salvamos.
— Se nos salvamos !... — disse a mulata com ironia e desdém. — Não ouves os malfeitores bateram na porta ?
— Mas então... — balbuciou Teresa.
— Morreremos todas, Teresa, morreremos todas, mas com honra, ao pé deste oratório — gritou Rosalina com tal energia e decisão que nenhuma das outras se animou a proferir uma palavra sequer contra a sua sentença de morte.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.