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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Assim, pois, seu amor, suas esperanças, sua riqueza, sua felicidade, tudo isso fora uma ilusão, uma quimera. Reais só foram seus trabalhos e fadigas, suas angústias e inquietações; real era a perfídia de Lúcia; real só era a sua pobreza e a sua atual desesperação. A idéia do suicídio fixou-se no espírito do mancebo. Iria apunhalar-se aos olhos da pérfida, deixando-lhe por legado a sua maldição.

A maldição de quem morre é terrível, pensava ele, e paira eternamente sobre a cabeça do maldito.

X – A AFRONTA

Esse dia, em que Elias se via calcado pela pesada mão da fatalidade até o mais fundo da miséria e do infortúnio, era sábado de aleluia. É esse justamente o dia de mais festanças e folias nas povoações do interior. À tardinha as guitarras e violões ressoavam por toda a parte, as serenatas se ensaiavam, e uma alegre celeuma rumorejava por todos os cantos da nascente povoação.

Em casa do Major nesse dia também a reunião era mais numerosa e animada do que de ordinário, não só por ser o dia que era, como também por se darem ali como umas festas esponsais, em que se iam de uma vez para sempre confirmar as solenes e recíprocas promessas do casamento de Lúcia e Leonel, que tinha de ser celebrado no domingo seguinte, chamado de Pascoela. Nesse dia o Major dirigira convites expressos a grande parte das pessoas mais importantes do lugar. Ao toque de Ave-maria já ali se achava reunida uma escolhida sociedade, e na pequena sala do Major reinava entre luzes e harmonias a maior animação e contentamento.

Contentamento! ? oh! sim; ele se espelhava na fisionomia de todos, exceto na da infeliz Lúcia, que forcejava em vão para dar a seu semblante visos, se não de prazer, ao menos de sossego e serenidade. No propósito de disfarçar aos olhos dos outros, principalmente aos de seu pai e de seu noivo, a angústia que por dentro a pungia, vestira-se com todo o esmero, e até com certa garridice. Trazia vestido de alva e transparente garça, sobreposto a uma saia cor- de- rosa, segundo o costume encantador que estava em moda naquele tempo. O cinto era uma larga fita azul, cujas compridas pontas brincavam sobre as róseas ondulações da saia que a envolviam. Ao vê-la assim trajada poder-se- ia dizer com exatidão quase literal que era a aurora de um formoso dia surgindo entre nuvens de azul e rosas. As mangas do vestido nimiamente curtas deixavam-lhe ver quase completamente nus os braços cheios, mas mimosamente torneados. Na cabeça trazia por único enfeite uma rosa natural. Porém no meio de toda aquela faceira, mas singela casquilhice, ou fosse por um singular acaso, ou de propósito, via-se-lhe no peito uma saudade roxa: era o símbolo de seu coração.

Com o mesmo fim de disfarçar seus íntimos pesares, Lúcia procurava abafa-los no meio do turbilhão, conversando, dançando e brincando. Dobrado martírio para aquela nobre alma!

Enquanto na casa do Major tudo era alegria e folguedo, luz e harmonia, sozinho e merencório, com os cotovelos fincados sobre o parapeito da ponte que comunicava as duas partes da povoação, achava-se um vulto, que com a cabeça entre as mãos olhava fixamente para o ribeirão, que logo abaixo da ponte se despenha em rugidoras catadupas. Nos cachões revoltos da torrente via a imagem das idéias que lhe turbilhonavam no cérebro, dos sentimentos tempestuosos que lhe empuxavam desencontrada e dolorosamente o coração. O amor, a raiva, o ciúme, a vergonha, a sede de vingança, ora lhe traziam aos lábios um sorriso infernal de desespero, ora espremiam-lhe dos olhos lágrimas de fel e de fogo. De quando em quando erguia a cabeça, olhava para o alto da encosta, onde se avistava a linda casinha do Major difundindo em borbotões, luzes e harmonias, risadas e festivas vozerias. Tornava a curvar-se sobre o parapeito, rangendo os dentes e arrancando os cabelos como um possesso; depois com os olhos turvos namorava a torrente, que engrossada pelas chuvas dos dias precedentes roncava debaixo de seus pés. Num acesso de desespero ia precipitar-se; mas. . .

- Ainda não! murmurou com voz cavernosa. É preciso vê-la ainda uma vez, uma só e morrer. Quero ver tudo por meus próprios olhos; quero assistir às exéquias de minha felicidade, que lá se estão celebrando com tanta pompa e regozijo. Depois. . . me imolarei sobre elas. Vamos! coragem! apresentemo- nos lá; pouca gente reparará na minha presença. . . ah! talvez nem ela! . . . que importa? vamos!

E saiu da ponte precipitadamente, encaminhou-se à casa, onde foi compor melhor o seu vestuário, e dirigiu-se resolutamente pelo caminho da casa do Major.

(continua...)

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