Por Bernardo Guimarães (1872)
Não aconteceu assim a Eduardo, que, no meio da sedução de mil festins e prazeres, e a despeito de todas as fadigas e preocupações de seu afanoso negócio, nem um só dia se esqueceu de Paulina. Bem pelo contrário tudo lhe rememorava a imagem dela, e a cada passo encontrava objetos, que lhe avivavam a saudade que o consumia. Uma bonita perspectiva, um curral, uma gameleira, que via em seu caminho, levava-lhe a imaginação para a fazenda de Joaquim Ribeiro e para junto de Paulina.
Se bem que não se descuidasse dos penosos misteres do seu gênero de vida, trabalhava como por hábito e maquinalmente, como quem se desencarrega de uma tarefa, e não com aquele gosto, zelo e dedicação de quem procura promover seus interesses e adquirir bens da fortuna.
O giro costumado de Eduardo nas excursões de seu negócio era passar o Paraná, percorrer alguns municípios da província de Mato Grosso, atravessar a de Goiás e entrar em Minas pelos municípios de Paracatu, Patrocínio, Araxá e Uberaba, para daqui recolher-se à Franca.
Desta vez, porém, sem plano deliberado, quase sem o querer e sem o pensar, começou sua derrota em sentido inverso. Seu coração o chamava para a Uberaba, e para lá tangeu a sua tropa. Bem sabia, que não ia senão avivar suas mágoas no teatro de seu infortúnio; mas ia assim mesmo, como o passarinho fascinado pela serpente, e que soltando lamentosos pios vai descendo de ramo em ramo até meter-se nas goelas do voraz e hediondo réptil.
Chegando a Uberaba, Eduardo procurou informar-se do estado da família de Joaquim Ribeiro, e soube com prazer e consternação a um tempo, que Paulina se achava ainda solteira, mas gravemente enferma, o que era motivo para seu pai andar sumamente aflito e desgostoso. Eduardo logo presumiu qual era a causa do mal de Paulina, e ficou com o coração entregue à maior angústia e à mais cruel perplexidade. Aparecer a Paulina era avivar-lhe uma chaga profunda e dolorosa, a que ele não podia dar remédio algum; era agravar para ambos uma situação já tão cruel e desesperada; era, além de tudo isso, faltar de alguma sorte ao juramento que prestara a Roberto, pois tendo consciência de ser adorado pela moça, só a sua presença poderia servir de estorvo ao enlace dele com sua prima. Por outro lado considerava que no decurso de um ano as coisas poderiam ter mudado de face, e tomado uma direção inteiramente nova, e que ninguém sabia o que ia pelo interior daquela família; era bem possível que Paulina se recusasse constante e inexoravelmente a aceitar a mão de seu primo, e que este desenganado por fim tivesse desistido de sua pretensão. Nessa eventualidade tão natural deveria ele acaso deixar que se definhasse e morresse de pura mágoa aquela por quem daria mil vidas que tivesse? não era pelo contrário seu rigoroso dever voar a ela, e no caso que fosse possível, levar-lhe consolação e esperança, e salvar-lhe segunda vez a existência?
– Vou decididamente! – pensou consigo depois de um longo dia de ansiedade e hesitação. – Tenho negócios e cobranças a realizar por aquele lado, e não posso deixar de passar pela fazenda de Joaquim Ribeiro. Uma hora que lá me demore, poderei saber de tudo, e decidirei do futuro; meu e de Paulina. Jurei a Roberto de nunca servir de estorvo ao seu casamento, mas não de nunca pôr os pés em casa de seu tio.
Tomada esta deliberação, Eduardo montou a cavalo pela manhã, e na
tarde desse mesmo dia chegou, como vimos, à fazenda de Joaquim Ribeiro.
Roberto estava com seu tio na sala de jantar conversando e discutindo planos para a celebração do consórcio. O tio queria que fosse na roça sem estrondo e com muita simplicidade; o sobrinho instava para que fosse no arraial e com muito arrojo e galhardia.
Graças ao crepúsculo, que descia escurecendo a sombria sala, não notaram a perturbação e o extraordinário transtorno das feições de Paulina, quando veio comunicar-lhes a chegada do sr. Eduardo. Esta inesperada nova causou o maior sobressalto no espírito de ambos, assim como para Paulina fora um raio que a esmagara.
– O sr. Eduardo! – exclamou Roberto levantando-se com a maior surpresa e agitação; – que diabo vem cá fazer agora esse homem!... sua visita nesta ocasião era bem dispensável.
– De fato, – disse consigo o velho, – veio em bem má ocasião. O que virá fazer?... queira Deus não venha desmanchar com sua presença todos os meus planos?...
Na realidade a presença de Eduardo naquela ocasião vinha alterar profundamente a situação dos indivíduos daquela pequena família; vinha arrancar com suas mãos o bálsamo, que o velho fazendeiro com paternal carinho aplicava sobre o coração da filha, e que talvez com o auxílio do tempo e da reflexão viesse a produzir saudáveis resultados.
– Vamos ter com ele, Roberto, – disse o fazendeiro; – muito lhe devemos eu e Paulina; é nosso dever recebê-lo com os braços abertos, e tratá-lo com toda a distinção e carinho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.