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#Romances#Literatura Brasileira

Memorial de Aires

Por Machado de Assis (1908)

Os dois filhos postiços do casal Aguiar não têm ciúmes um do outro, não se sentem diminuídos pela afeição que recebem dos velhos. Ao contrário, parecem achar que a porção de cada um cresce com a que o outro recebe também. Eis ai uma boa divisão de amigos; há casos em que os filhos de verdade não se mostram tão cordatos.

Mana Rita, a quem comuniquei esta impressão, acha também que é assim. Acrescenta, porém. uma reflexão mais fina que essa, e não tenho dúvida em a escrever aqui ao pé da minha, tanto mais que lhe repliquei com outra, não meros fina que a sua. Vá este elogio a nós ambos. Sempre há de haver quem nos desgabe um pouco, e ai fica já a compensação. Nem custa muito elogiar-se a gente a si mesma. Eis o que me disse a mana:

— Esse sentimento há de custar pouco ao Tristão, estando aqui de passagem.

Ao que eu repliquei:

— Também não lhe custará muito a Fidélia, sabendo que ele se vai embora daqui a pouco.

Escritas as palavras de ambos nós, entro a duvidar da finura dela e minha. Por mais rápida que fosse a passagem do rapaz, ele gostaria de se ver exclusivamente querido, e ela também a si. Penso outra vez. que a qualidade do afeto filial e que os faz assim generosos c abertos. Repite o que lá disse acima: casos há em que não vivem com tanto acordo filhos verdadeiros.

Rita deu-me outras notícias da casa Aguiar, onde não piso há mais de uma semana, creio. Todas confirmam a comunhão de boa vontade da parte de moços e velhos. Os quatro passam os dias em conversa, c ontem a viúva Noronha tocou piano, um pouquinho, é verdade, mas tocou. Parece que lá uma vez jogaram cartas. Rita disse mais:

— Fidélia, que desde que saiu do colégio nunca mais faz trabalhos de agulha, começa agora a imitar a amiga, e já ontem trabalharam juntas. Quando eu lá cheguei às duas horas da tarde e dei com elas, defronte uma da outra, movendo agulhas, você não imagina a alegria com que me receberam; D. Carmo mostrava um pouco de orgulho também, ou coisa parecida. Faziam um par de sapatinhos de criança. O trabalho de Fidélia não tinha a perfeição do da outra, e não estava tão adiantado, mas também o de D. Carmo podia ir mais depressa; talvez fosse intenção dela não deixar a moca muito atrás, e por isso iria demorando os dedos. Quis rir, perguntando a qual delas destinavam tais sapatos, mas não tive tempo; Fidélia disse-me que eram para o filho de uma criada de D. Carmo que fora dar à luz em casa do marido. D. Carmo ia começar o crochet quando Fidélia lhe apareceu, e quis acompanhá-la. Consentiu para não sair trabalho de velha.

O mais que a mana me disse não vai aqui para não encher papel nem tempo, mas era interessante. Vai só isto, que jantou lá e Fidélia também, a convite de D. Carmo. O velho Aguiar e Tristão tinham saído a passeio, depois do almoço, mas voltaram cedo, às quatro horas. Não viram a parada do dia de ontem (sete) apenas viram passar um batalhão, que não deixou impressão no moço. Todos os batalhões se parecem, disse ele. O hino nacional, sim, é que acordou nele algumas saudades do tempo de criança e de rapaz; assim o confessou, e daí nasceu a conversação musical que levou Fidélia ao piano. A viúva não tocou mais de quatro ou cinco minutos, e fê-lo a pedido de Tristão, que lhe citou um autor; Rita não se lembra que autor foi, mas achou bonita a música. Também se falou em coisas da Europa, e os dois ajustaram bem os modos de ver.

Ouvi tudo isso em Andaraí, onde fui jantar hoje com Rita. Propus-lhe vir comigo e irmos ao Flamengo, a mana recusou; estava com o sono atrasado, e queria dormir. Voltei só e fui à casa Aguiar, onde os quatro e o desembargador conversaram de festas religiosas, a propósito do dia santo de hoje. Ainda uma vez os dois deram impressões européias, e realmente ajustaram as reminiscências. As minhas, quando as pediram, ficaram naquele acordo de cabeça, que é útil, quando um assunto cansa ou aborrece, como este a mim.

Quando o tio e a sobrinha se foram, eu fiquei ainda um quarto de hora com a gente Aguiar. O resto amanhã; também eu estou com sono.

9 de setembro

O resto é a noticia de ter chegado Osório, o advogado do Banco do Sul, que foi há tempos ao Recife, onde o pai estava doente e morreu.

— Voltou triste, e o luto ainda o faz mais triste, disse Aguiar.

— Será só a morte do pai? perguntei.

— Que mais pode ser?

— Não me disseram, ou eu adivinhei que ele andava meio apaixonado por D. Fidélia...? — Andava, sim, e talvez mais que meio, explicou Aguiar, mas já lá vai naturalmente. — Em todo caso não se lhe declarou?

— Com o gesto, é possível; ela tacitamente recusou, e foi pena; ambos se merecem.

Aguiar louvou as qualidades profissionais do moço, a educação e as virtudes. Acreditei tudo, como era do meu dever, e aliás não tinha razão para duvidar de nada. D. Carmo confirmou as palavras do marido, sem afirmar que era pena não se terem casado. Calou esse ponto, e foi mais discreta que ele. Pode ser que nele falasse também o gerente do banco. Tristão durante esse tempo folheava um livro de gravuras.

(continua...)

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