Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Moço ainda e, portanto, sem aquele prestígio de uma longa experiência que se assinala nas rugas da fronte e nos cabelos grisalhos, que aliás nem sempre são companheiros da sabedoria e da prudência, viera suceder a um administrador provecto, hábil e feliz, que deixava o seu nome recomendado à memória do povo pelos serviços que prestara à agricultura, pela proteção que dera às letras nascentes no Rio de Janeiro, e pelos cuidados com que se empenhara em prover às despesas, à polícia e ao desenvolvimento e asseio da cidade capital da grande colônia portuguesa da América.
A lembrança do marquês de Lavradio fazia já não pouco difícil a posição do novo vice-rei, e ainda como para torná-la mais embaraçada, sobrevieram logo dois lamentáveis sucessos, uma calamidade e um flagelo inesperados, que encheram de desgosto a população.
Alguns meses apenas tinham passado depois da chegada de Luís de Vasconcelos ao Rio de Janeiro, quando, em conseqüência de chuvas aturadas e violentas, romperam-se os aquedutos das fontes públicas, deixando os habitantes da cidade em luta com a carestia d’água, que somente de longe se podia trazer.
Então o pretinho que passava pela rua gritando – Ii! – fazia pagar por um preço relativamente fabuloso o pote d’água que levava à cabeça, e isso era um tormento para os pobres e um motivo de lamentações para os ricos. Se não compreendeis bem a significação desse grito dos vendedores d’água, que ainda se ouvia no Rio de Janeiro em uma época muito recente, eu vo-lo explico. Logo depois da fundação da cidade de S. Sebastião, eram os índios ou gentios que vendiam água aos colonos e a anunciavam na sua língua, bradando: – Ig! Ig! – palavra que foi corrompida mais tarde pelos africanos escravos.
Mas, ainda pior do que a ruína dos aquedutos, aconteceu imediatamente que se desenvolvesse uma terrível epidemia que espalhou o terror e o luto no seio da bela Sebastianópolis. Era uma febre de caráter maligno, acompanhada de afecções cerebrais e da medula, e que, quando não terminava com a morte dos doentes, deixava a estes um legado cruel de paralisias e de deformidade.
Chamou-se então a essa epidemia – zamperini ou zamparina, como dizia o povo, que foi quem assim a denominou.
Permiti que eu interrompa por alguns momentos a minha narração, para dizer duas palavras a respeito de certas denominações populares dadas a algumas epidemias.
Como as moléstias epidêmicas atacam a muitos indivíduos ao mesmo tempo, o povo, que não entende a tecnologia médica e vê naquele fato alguma coisa que se parece com a moda, dá ao mal reinante o nome que está mais em moda.
Assim, em 1779, chamou à epidemia que ceifava a população, zemperini, porque então se penteavam os cabelos e se usavam diversos objetos e vestidos à Zamperini, que foi aquela célebre cantora veneziana que chegou a Lisboa em 1770, levada pelo notário apostólico da nunciatura, e a quem no teatro da rua dos Condes iam todos aplaudir, notavelmente o padre Macedo, que lhe dirigiu sonetos e odes como qualquer outro pecador inspirado o faria.
Assim, também chamou-se em 1847, polka, e em 1851, shottisch, nomes de duas danças muito em voga nesse tempo, a duas epidemias que apareceram.
No princípio do nosso século, se não estou em erro, desenvolveu-se na cidade do Rio de Janeiro uma catarral tão violenta que os afetados à força de tossir acabavam por corcovar-se; a essa moléstia, po rém, não deu o povo um nome da moda, e chamou-a muito apropriadamente carcunda.
Talvez me acusem de prolixo e divagador por entrar em explicações que não têm relação alguma com a história do Passeio Público. É uma injustiça: convém guardar as lembranças que vou registrando, e que podem para o futuro prevenir confusões possíveis. Por exemplo, não se poderia dar o caso de se confundirem as carcundas catarrais com os carcundas políticos, denominações que foram ambas empregadas neste século? Pelo menos, os absolutistas devem me agradecer o empenho com que esclareci um fato que livra a qualquer deles de ser confundido com uma catarral, e que era muito possível que acontecesse.
Fique, pois, bem determinado e sabido: a nossa população nunca até hoje se lembrou de fazer uma alusão política, quando trata de alcunhar alguma epidemia e, entretanto, se o fizesse, não era novidade no mundo, porque em França já o povo deu o nome de um ministro antipático a uma moléstia epidêmica que reinou em Paris. Não digo que andasse bem procedendo assim, não; mas é impossível deixar de reconhecer que às vezes aparecem ministros e ministérios que são tão funestos ao país como a peste mais flageladora e mortífera.
Prossigo sem mais demora a narração que interrompi.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.