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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Baptista applaudíra muito a lembrança que tivera o estudante de ir cagar na floresta vizinha da fazenda de Guilherme, e mais alegre e fallador do que nunca ia de caminho enterrando vivos e desenterrando mortos.

Já havia dado conta dos nomes e da vida dos moradores de quantos sitios ião encontrando perto da estrada, quando, ao tomarem por um trilho que os levava á floresta, ao chegarem ao sopé do monte que buscavão, disse elle a Luciano:

— Este bosquesinho que nos fica á mão direita separa este monte do campo da fazenda do Sr. Guilherme, e pôde atravessar-se em um quarto de hora : se lhe aborrecer- a caçada, e preferir a dar tiros nas pacas, armar laços a uma moça bonita, a viagem é curta.

O estudante fez um movimento de máo humor.

— Não vá desconfiar : a cousa não é para isso; não gosta da filha do Sr. Guilherme eu já sei; são gostos, e se não houvesse máo gosto, o amarello não teria extracção.

— Subamos o monte, ou, se lhe parecer, soltemos já os cães.

— Não : isso ha de ser um pouco mais acima : veja porém que sitiosinho bonito vamos deixar aqui á mão esquerda, e logo á subida do monte : ouve este ruido de agua ? é de uma pequena cachoeira que vem do alto, e cahe no meio de um grupo de arvores formando um formoso lago junto do sitio,

— Fico sciente : subamos...

— Sim ; mas o que não sabe é que o sitio pertence ao meu compadre Pereira, que é casado com a minha comadre Antonia...

— A noticia é realmente interessante...

— Mete-me abulha, heim? pois saiba mais que a comadre Antonia tem parentes na cidade...

— Deveras? isso então é extraordinario !

— Morreu-lhe, ha um anno, uma irmã que lá tinha casado com um pobre diabo, e deixou uma filha a quem o pai condemnou a vir morar na roça com a tia, receioso de que a rapariga se extraviasse...

— Uma cabecinha de vento...

— Qual ? uma cabeça de fogo : dizem que é capaz até de ler latim como o Sr. reverendo vigario : falia que parece um advogado, e anda sempre com o juizo por esses ares fora...

— E feia como um bicho, teve a boa idéa de vir esconder-se na roça...

— Bella como uma rosa, perigosa como uma feiticeira, tentadora como o diabo...

— Compadre Baptista, quer me parecer que o senhor tem sua queda para poeta ?...

— Então?... improviso meus versinhos quando canto em desafio nas nossas noites de fado...

Eu logo vi : e ainda não se soltão os cães?...

— Agora.

Dous escravos approximárão algumas trclas de cães, estes, soltos, sacudirão as caudas, e por alguns momentos andando em torno a rastejar com os focinhos o cheiro da caça, sahirão logo depois, e desaparecerão.

Os caçadores forão seguindo, e a breves passos achárão-se juntos de um arroio que corria sobre um leito de pedras.

— Fique aqui, disse Baptista, terá uma caçada certa, e para distrahir-se, subindo áquelle ingazeiro, verá á sua vontade a fazenda do Sr. Guilherme, e o sitio do compadre Pereira. Até logo.

Baptista internou-se na floresta.

O dia vinha apenas rompendo.

Dentro em pouco os latidos dos cães annunciavão a descoberta da caça, e passada uma hora Luciano, disparando o primeiro tiro, alcançou a primeira victoria.

Tres cães chegarão ao mesmo tempo, arfando de fadiga, mas ufanos de seu triumpho :

o estudante deixou-os descançar por algum tempo, e logo depois banhou-os na agua fresca do arroio e outra vez os lançou na floresta.

Ao longe ouvião-se os gritos de Baptista incitando os cães que lhe respondião latindo, como para demonstrar que zelosos proseguião na sua empreza; mas os latidos cada vez se desprendião mais afastados.

— Creio que terei de esperar muito tempo ; disse comsigo Luciano.

E sem o pensar, lembrou-se do ingazeiro.

Luctou um pouco com a própria consciencia; vencido porém, olhou cuidadoso em torno de si, e certo de que se achava absolutamente só, dirigio-se para o ingazeiro, e subio a elle.

O sol brilhava ; era a sua primeira hora.

Luciano vio um panorama bello e magnífico dilatando-se a seus olhos ; indifferente porém a todos esses encantos da natureza, embebeu suas vistas na casa e no campo da fazenda de Guilherme, e alli as esquecia involuntariamente, quando estremoceu escutando um canto melodioso entoado por uma voz de mulher.

Olhou... e vio...

O sitio de Pereira estava por assim dizer debaixo dos seus pés, e a mais curta distancia do que havia calculado, e uma mulher, de figura graciosa, e toda vestida de branco dirigia-se cantando para um bosquesinho, onde a cachoeira formada pelo arroio cahia, espraiava-se e dava lugar a um lago.

Luciano deu um salto do ingazeiro abaixo e sem reflectir um só momento desceu o monte por entre as arvores, desejoso de ver de mais perto a sobrinha de Antonia, que segundo dizia Baptista, tinha cabeça de fogo, era capaz de ler latim como o vigario, fallava que parecia um advogado, e andava sempre com o juizo por esses ares fora...

O canto tinha cessado : succêdera-lhe silencio profundo.

(continua...)

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