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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Implorando a vênia do senhor ouvidor-geral... disse o tabelião curvando-se. 

— Diga! 

— Penso que não haverá dúvida, pois os biltres, com perdão de vossa mercê, têm hábito sim, mas de tonsura nem sinal. 

— Está bem certo? 

— Assim estivesse de obter desagravo. 

— Pois há de obtê-lo, que lho digo eu. Amanhã abrirei a devassa. Desque não são tonsurados!... 

 

XXI 

 

COMO SE ARRANJAVA OUTRORA UM MOTIM PARA DESFASTIO 

DO BOM POVO FLUMINENSE, EM VEZ DAS INSÍPIDAS 

LUMINÁRIAS QUE LHE DÃO AGORA 

 

No dia seguinte abriu o Dr. Pedro de Mustre a devassa e, inquiridas as testemunhas, mandou em segredo de justiça lhe fosse o feito concluso para julgar. 

Quando chegou à notícia do prelado que o ouvidor estava devassando de seus fâmulos, o reverendo urrou com a afronta, e no primeiro momento disse cousas que muito haviam de alegrar a Satanás, se as ouviu. Vindo a reflexão, mandou chamar o vigário forâneo, o licenciado Vilalobos, e com ele praticou, encerrados ambos na câmera eclesiástica. 

Nessa mesma tarde apresentou-se em casa do ouvidor, o Padre Rafael Cardoso. 

Era uma sexta-feira e contava-se 30 de outubro. Estava o Dr. Pedro de Mustre aproveitando o tempo em arranjar uma pacotilha para a viagem que tinha de fazer por aqueles dias ao Espírito Santo, onde ia em correição tirar devassa da morte do capitão-mor assassinado à boca-de-fogo, assim como de outros graves malefícios. Apreciador do bom prato, o digno magistrado não deixava, nas suas excursões judiciárias, de levar sofrível provisão de alguns temperos prediletos, que naquele tempo, e talvez que ainda hoje, se não encontravam pelo interior. 

Já tinha ele diante de si na mesa vários embrulhos de drogas, e ajuntava uma porção de cominhos espalhados na gaveta, quando entrou-lhe o Padre Rafael Cardoso. 

— Deus dê boas-tardes ao senhor ouvidor. 

— As mesmas a Vossa Reverendíssima. O que o traz por esta sua casa? perguntou o magistrado com fingida simpleza. 

— Motivo bem desagradável, senhor ouvidor; mas está nas mãos de vossa mercê que daí não venham outras piores conseqüências. 

— Como então? 

— Bem a meu pesar, e por obediência ao superior, que é um dos preceitos da nossa Santa Religião, venho por ordem do reverendíssimo senhor Vigário-geral, licenciado Francisco da Silveira Vilalobos, notificar a vossa mercê para devolver incontinenti a devassa tirada por esta Ouvidoria contra os fâmulos do reverendíssimo prelado ao juízo eclesiástico a quem só releva este assunto. 

— Ah! foi só a isso que veio? E se eu não quiser receber semelhante notificação?

— O senhor ouvidor não fará isso! 

— E por que o não farei, reverendo, se desconheço a autoridade com que o vigário-geral ou ainda o administrador se intromete na jurisdição secular, e tem a protérvia de mandar intimações a mim, ouvidor-geral desta comarca? 

— Assim, Vossa Mercê persiste? 

— Tenho dito. 

— Neste caso sou forçado a consignar a vossa mercê três dias para cumprir a notificação sob a pena de excomunhão maior, que em nome do senhor vigário-geral lhe comunico pelas três canônicas admoestações. 

Ao ver o tom citatório, que tomou o beleguim do vigário-geral, e sobretudo ao ouvir a ameaça de excomunhão, teve o Dr. Pedro de Mustre ímpetos de agarrar o padre pelo gasnete e atirá-lo pela janela fora. Mas avisou que seria derrogar de sua hierarquia, tomar ao sério aquela farsa eclesiástica. 

Entretanto havia o Rev. Rafael sacado do bolso da batina um rolo de papel, e depois de ler por três vezes a canônica e paternal admoestação, estendeu o rolo ao magistrado. 

— Vem a ponto! disse o ouvidor com ar zombeteiro. Estava mesmo à cata de um papel para embrulhar este cominho! 

E seu dito, seu feito. 

— Cautela, senhor ouvidor! Veja o que faz!... 

O Dr. Pedro de Mustre cresceu para o padre, e calcou-lhe a manopla no ombro: 

— O reverendo já fez as suas três admoestações; agora quero eu fazer-lhe uma, uma só e que não tem nada de canônica. Suma-se e não me esgote a paciência. 

Não recalcitrou o Padre Rafael Cardoso, que só ao transpor o limiar da porta sentiu dissiparse o calafrio que produzira nele o olhar do ouvidor. 

Ficou em segredo essa ocorrência, da qual não transpirou nova na cidade. Por sua parte o ouvidor acreditando que a tal notificação não passava de uma ameaça para meter-lhe medo, persistiu em não tomar ao sério a empáfia do prelado, e a ninguém falou do caso, que ele tinha como não sucedido. 

Quanto ao prelado e sua roda, como esperassem reduzir o magistrado a abrir mão da devassa, assentaram que não era prudente metê-lo em brio com a divulgação do fato, o que tornaria indispensável a excomunhão. Embora resolvido a não recuar da grave censura, quando a necessidade o exigisse, entendia o prelado que não devia levar o ouvidor a tal extremo, tendo por mais prudente prevenir do que punir. 

Assim decorreu o tríduo da notificação e veio o dia de finados que esse ano caiu em domingo. Durante esse tempo preparou-se o Dr. Pedro de Mustre para a viagem do Espírito Santo, fixando sua partida precisamente para a segunda-feira. 

(continua...)

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