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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Horácio acendeu o charuto. Ele não tinha o menor interesse em saber a história de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para falar do objeto de sua adoração, e vazar o que tinha n'alma.

— Há cerca de dois meses, passando pela Rua da Quitanda, achei por acaso sobre a calçada um objeto que tinha caído de um carro. Era uma botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma coisa divina!

"Não podes fazer idéia, não, Leopoldo. Sabes que tenho amado mulheres lindas de todos os tipos, alvas ou morenas; formosuras de todas as raças, desde a loura escocesa até a brasileira de tranças negras; adorei-as, uma depois de outras, e às vezes ao mesmo tempo, essas diferentes irradiações de beleza. Pois confessote que nunca o sorriso ou o beijo da mais sedutora dentre elas me fez palpitar o coração como aquela botina.

"Pensem os fisiologistas como quiserem, o pé é a parte mais distinta do corpo humano; sem ele a estatura não teria a nobreza que Deus só concedeu à criatura racional.

"O pé revela o caráter, a raça e a educação. Cada uma das feições e dos gestos desse órgão de nossa vontade tem uma expressão eloqüente. Há quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de fina têmpera? Ao contrário um pé chato e pesado é a prova infalível de um gênio tardo e pachorrento.

"Virgílio, o poeta mais elegante que tem existido compreendeu que Vênus ocultasse nos olhos do filho, na selva líbica, a beleza imortal de seus olhos, de seu sorriso, de suas formas sedutoras; mas não aquilo que era sua essência divina, sua graça olímpica. Foi pelo andar que ela revelou-se deusa; et vera incessu patuit dea.

"Nunca sentiste o doce contato do pé da mulher amada? É uma sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a mão, cingi-la ao seio, beijá-la. Nada vale aquele toque sutil que abala até a última fibra.

"Faze pois idéia do que eu sentia. E a botina não era senão a estátua ou a efígie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam impressos seus graciosos contornos, sua forma suave.

"Apaixonei-me por esse pezinho, que eu nunca vira, que não conhecia. Sagrei-lhe minha alma como ao ignoto deo de minhas adorações."

Horácio exagerou então os esforços por ele empregados para descobrir o misterioso ídolo de suas adorações, e referiu os fatos que já conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar os nomes; receava ainda que lhe arrebatassem a conquista.

— Finalmente, concluiu ele, o acaso me fez descobrir a dona do pezinho que em vão buscava. Hás de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ela em sociedade e nunca sentira à sua vista a menor comoção. Mas quando soube que a ela pertencia o tesouro, adorei-a. Para ver o pezinho que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casarme!...

— É esta a tua história?

— Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevê-lo.

— Pois, se me permites franqueza, dir-te-ei que realmente o desenlace que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une duas almas irmãs criadas uma para a outra, é uma espécie de grilheta que prende dois galés; o suplício de duas existências condenadas a se arrastarem mutuamente Tu não amas essa moça, Horácio.

— Não a amo?

— Não!

— Quando lhe vou fazer o sacrifício que nenhuma outra mulher obteve de mim?

— Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.

— A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. Às vezes são os cabelos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.

Leopoldo levantou os ombros.

— Sem dúvida. A alma da mulher, como a do homem, se revela em cada pessoa por uma feição mais distinta, por uma expressão mais eloqüente. Mas não é isto que sucede contigo. Tu sentes a idolatria da beleza material; procuraste sempre na mulher a forma, o amor plástico; à força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais sedutores, ficaste com o sentido embotado, precisavas de algum sainete que estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pezinho mimoso e gentil: tornouse logo para ti o tipo, o ideal da beleza material, que te habituaste a adorar.

Horácio soltou uma risada:

— Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor seria um absurdo incompreensível se não fosse uma refinada hipocrisia. Esses mesmos que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem senão da contemplação de beleza material que tratas com tamanho desprezo? É possível que uma mulher feia seja amada por aberração do gosto; mas fazer disso uma regra geral!...

— Ninguém pretende semelhante coisa. A beleza é um encanto, uma graça, um invólucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a mulher, como a pétala é a flor, e a centelha é a luz.

— Sofisma! Tira a beleza à mulher amada e verás o que fica; o mesmo que fica da flor que murcha e da chama que se apaga: pó ou cinza.

— Queres que te prove o contrário? Ouve a minha história.

— Ah! é verdade. A história de teu sorriso?

— Sim.

CAPÍTULO  XIV

O Almeida acendeu outro charuto.

(continua...)

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