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#Romances#Literatura Brasileira

Esaú e Jacó

Por Machado de Assis (1904)

—Mas eu também (desculpe interrompê-la) mas eu também sou seu filho. Não acha que o costume, o bom rosto, a graça, a afeição e todas as prendas grisalhas que a adornam compõem uma espécie de maternidade? Eu confesso-lhe que ficaria órfão.

—Pois venha conosco.

—Ah! baronesa, para mim já não há mundo que valha um bilhete de passagem. Vi tudo por várias línguas. Agora o mundo começa aqui no cais da Glória ou na Rua do Ouvidor e acaba no cemitério de S. João Batista. Ouço que há uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do Caju, mas eu sou um velho incrédulo, como a senhora dizia há pouco, e não aceito essas notícias sem prova cabal e visual, e para ir averiguá-las, falíam-me pernas.

—Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta anos.

—Rita exagera. Mas, voltando à viagem, a senhora ainda não comprou os bilhetes?

—Não.

—Não os encomendou sequer?

—Também não.

—Então, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua ocupação, quanto mais as semanas e os meses. Pensemos em outra cousa. e deixe lá o Paulo pedir a república.

Natividade achou consigo que ele tinha razão; depois, pensou em outra cousa, e esta foi a idéia do princípio. Não disse logo o que era — preferiu conversar alguns minutos. Não era difícil com este sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na banalidade nem subir às nuvens; tinha um modo particular, que não sei se estava na idéia, se no gesto, se na palavra. Não é que falasse mal de ninguém, e aliás seria uma distração. Quero crer que não dissesse mal por indiferença ou cautela; provisoriamente, ponhamos caridade.

—Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim, além do conselho. Ou não quer mais nada?

—Custa-me pedir-lhe.

—Peça sempre.

—Sabe que os meus dous gêmeos não combinam em nada, ou só em pouco, por mais esforços que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia. Agostinho não me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto com forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de sociedade, hábil, fino, cauteloso, inteligente, instruído...

—Eu, em suma?

—Adivinhou.

—Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então que lhe parece que possa fazer?

Pode corrigi-los por boas maneiras; fazê-los unidos, ainda quando discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina; parece até propósito. Não discordam da cor da Lua, por exemplo, mas aos onze anos Pedro descobriu que as sombras da Lua eram nuvens, e Paulo que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu é que os separei. Imagine em política...

—Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente para esse caso...

—Oh! não!

—Para os outros é igualmente inútil, mas eu nasci para servir, ainda inutilmente. Baronesa, o seu pedido eqüivale a nomear-me aio ou preceptor... Não faça gestos; não me dou por diminuído Contanto que me pague os ordenados... E não se assuste; peço pouco, pague-me em palavras; as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda a minha ação é inútil.

—Por quê?

—É! inútil.

—Uma pessoa de autoridade, como o senhor, pode muito, contanto que os ame, porque eles são bons, creia. Conhece-os bem?

—Pouco.

—Conheça-os mais e verá.

Aires concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova. Confiava na ação do conselheiro, e para dizer tudo... Não sei se diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinação do velho diplomata. As cãs não lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem me lê nesta ocasião. Se é homem, talvez não entenda logo, mas se é mulher creio que entenderá. Se ninguém entender paciência; basta saber que ele prometeu o que ela quis, e também prometeu calar-se; foi a condição que a outra lhe pôs. Tudo isso polido, sincero e incrédulo.

CAPÍTULO XXXIX

UM GATUNO

Chegaram ao Largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ela entrou pela Rua Gonçalves Dias, ele enfiou pela da Carioca. No meio desta, Aires encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em direção ao largo. Aires quis arrepiar caminho, não de medo, mas de horror. Tinha horror à multidão. Viu que a gente era pouca, cinqüenta ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a prisão de um homem. Entrou num corredor, à espera que o magote passasse. Duas praças de polícia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este resistia, e então era preciso arrastá-lo ou forçá-lo por outro método. Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.

—Não furtei nada! — bradava o preso detendo o passo. É falso! Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto! protesto!

—Siga para a estação!

—Não sigo!

—Não siga! bradava a gente anônima. Não siga! não siga!

(continua...)

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