Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Ainda conservava fixada a minha luneta mágica no ponto donde me fugira o rato, quando senti rumor de pessoas que vinham subindo a escada do sótão e ouvi distintamente a voz do médico. O meu primeiro cuidado foi imediatamente esconder a luneta do mesmo modo que antes fizera, e em seguida fechei os olhos e fingi que dormia tranqüilo sono.
Era meu intento, fingindo-me adormecido, ouvir as observações do médico e dos meus três ruins parentes para saber o que devia esperar e temer, e como me cumpriria, ou me conviria proceder.
Confesso que foi grande atrevimento meu querer iludir o médico com um sono falso; contei porém a ligeireza habitual dos exames de muitos desses doutores que, depois do primeiro e esmerilhado estudo do doente, supõem governar a natureza e a moléstia, e dão a cada uma de suas visitas a duração de—cinco minutos por cerimônia.
Desconfio que a visão do mal tem me tornado mordaz; mas os homens merecem ser tratados assim.
XLI
Entraram.
Reconheci as vozes do doutor, do mano Américo da tia Domingas, e da prima Anica.
—Ele dorme, disse a prima Anica.
—Sono reparador, observou o medico com um tom magistral.
E logo tomou-me o pulso com a maior delicadeza para não me despertar; tocou-me a fronte, passando por ela a palma da mão, e examinou-me o calor dos pés.
—Do mais grave perigo está salvo, disse então o doutor; operou-se uma crise benéfica, e a congestão foi a tempo embaraçada. Respondo pelo nosso homem.
—A noticia não pode ser mais agradável, disse o mano Américo; mas eu receio muito alguma recaída...
—Não é impossível.
—A causa subsiste...
—Que causa?...
—A posse em que ele está da luneta que supõe mágica.
—Luneta que é obra do diabo! exclamou a tia Domingas.
—Luneta aleivosa e má, acrescentou a prima Anica.
—Minhas senhoras, não indiciem acreditar no poder mágico da famosa luneta para que eu não me convença de que devo tratar aqui de três doentes em vez de um.
—Essa é boa! tornou a tia Domingas: pois seria a primeira vez que o espírito maligno fizesse das suas no mundo? Bem se diz que os médicos não são religiosos.
—O senhor doutor talvez tenha razão, disse Anica; há porém coisas que fazem tontear a gente!
—Eu creio, respondeu o médico em tom brincão: a senhora por exemplo não tem em si o espírito maligno, e contudo aposto que terá feito andar às tontas as cabeças de muitos moços de bom gosto.
—Ora, ora.
—Mas, doutor, acudiu o mano Américo; tratemos seriamente deste caso: eu também não tenho a simplicidade pueril de acreditar no poder mágico da luneta fatal; todavia meu irmão está possuído dessa idéia.
—O que é mau sintoma, convenho.
—Muita gente se julga ofendida pela luneta e a teme...
—Segue-se que também é preciso tratar dessa gente que padece tanto, como seu irmão. —O doutor graceja...
—Não; falo sério.
—Penso que convinha muito e ainda mesmo à força tomar essa luneta, e quebrá-la.
—Francamente, disse o médico; julgo que seu irmão iludido por um suposto mágico, tem-se tornado vitima da própria imaginação exaltada no maior extremo; com efeito essa ilusão, de que ele é escravo, assumiu o caráter de mania...
—Então...
—Ou é possível ou impossível curar-lhe a manta: se é impossível, para que atormentar seu irmão inutilmente? Se é possível, nós o curaremos da mania mais tarde...
—Mas...
—Agora eu o vejo escapando apenas a um ataque cerebral que ameaçou tomar proporções terríveis, e o ressentimento de qualquer violência que ele sofresse, seria capaz de levá-lo à sepultura. —E a influência maléfica da luneta?...
—Proíbo que contrariem e que desgostem de qualquer modo o nosso doente.
—Então ele está realmente doido, senhor doutor? perguntou Anica.
—Cuidado, minha senhora; seu primo foi multo seriamente ameaçado de uma congestão cerebral; acudimo-lo a tempo; conseguimos prevenir um caso talvez desesperado, mas qualquer imprudência pode ainda ser fatal.
—A minha pergunta...
—Foi menos prudente; se seu primo a ouvisse receberia cruel impressão. Felizmente ele dorme.
XLII
Senti verdadeira dor de consciência por estar com o meu fingido sono enganando ao homem que tão decidido me defendera.
Abri os olhos; fiz de conta que despertava.
—Como vamos? perguntou-me o doutor.
— Acho-me bom; mas fraquíssimo.
—Fui eu que o enfraqueci: tirei-lhe sangue, como nenhum outro médico se lembra mais de tirar; agora a moda é condenar a lanceta; eu porém adoro ainda a minha...
—Obrigado, doutor. Se me quiser estender sua mão, eu a beijarei... duas vezes.
—Tão bom me acha?
—Pela minha gratidão acho-o ótimo.
—Logo nem todos os homens são maus.
Compreendi a alusão e guardei silêncio.
—Daqui a alguns dias resolveremos esta importante questão; agora não lhe permito conversar nem mesmo com os seus parentes.
—Pode ficar descansado nesse ponto, doutor; juro-lhe que não lhes darei nem palavra.
—Que ingrato! murmurou Anica que me apertava uma das mãos.
—Além disso quero que esteja absoluta, perfeitamente tranqüilo, e sem a mais leve apreensão triste ou temerosa no ânimo.
—Como?
—Que é da sua luneta?
—Tenho-a escondida, doutor.
—Escondida por que?
(continua...)
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