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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Variadíssimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas caprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e aldeias, límpido às vezes, outras vezes toldado e sombrio.

West Point fica a duzentas milhas de Brooklin.

Passamos o dia inteiro e à noite em viagem para amanhecermos em nosso destino.

Novas manifestações de simpatia. Oficiais e alunos da Escola Militar esperavam-nos com aquele sorriso afável de gente hospitaleira, que logo se traduz em franca e sincera camaradagem.

A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exercícios práticos.

Inúmeras barraquinhas de lona, alinhadas em simetria, alvejavam, como um acampamento de beduínos, guardadas por sentinelas que rondavam de arma ao ombro, perfilando-se de vez em quando em continência a um oficial que passava.

Cada barraca abrigava cinco a seis alunos que se rendiam pontualmente na sentinela.

Enquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila às costas e espingarda ao ombro, os outros divertiam-se a trocar socos, a jogar o dominó, a apostar corridas, até que o tambor ou a cometa os chamasse à forma. Então, com uma rapidez extraordinária, lestos, vivos e fortes, corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada a companhia.

Cada aluno era um verdadeiro soldado.

Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de saúde, tesos, empinados, quadris largos, espáduas amplas, todos se pareciam em robustez física.

Uns rapagões sadios!

Notei mesmo certa propensão dos americanos para o militarismo. Parece que a educação militar, adaptação de princípios rigorosos na disciplina do corpo, é o único meio de obterem-se homens robustos e cumpridores do dever. A Escola de West Point é, sem exagero um exemplo raro de estabelecimentos desse gênero. E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brasileiros — raça degenerada e linfática — víamos criar-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independência.

Tive ocasião de assistir a uma luta corporal entre dois alunos, competentemente armados de luvas de camurça, rosto a descoberto. Pegaram-se a socos, um defronte do outro, calmos e convictos, como se estivessem cometendo uma nobre ação.

No fim de alguns minutos, o agressor estava com o rosto inchado, escorrendo sangue, os olhos vermelhos, injetados, e a luta acabava com um abraço entre os dois contendores. O mais forte foi aclamado pelos companheiros, teve o prêmio de sua robustez.

É talvez um duro sistema de educação esse, mas incontestavelmente o mais acertado e eficaz.

Simples questão de raça...

CAPÍTULO XVI

Estava terminada a nossa estação de quase dois meses em Nova Iorque.

No dia 30 de julho o Barroso deixou aquele porto em direção a Newport, outra cidade dos Estados Unidos, refúgio da população aristocrática nos quentes dias de verão. Uma perfeita cidade balneária, muito fresca e saudável, à beira-mar, olhando para o largo oceano e recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Público.

Os banqueiros e a gente rica de Nova Iorque costumam fazer aí o seu ninho de verão, e, de vez em vez, para amenizar a vida monótona que se leva nesse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na esplêndida enseada que orla a cidade e que nesses dias de festa marítima toma uma feição ridente e característica de aquarela inglesa, com os seus cutters a vela, com os seus iates de recreio bordejando ao largo como um bando de gaivotas pousadas n'água.

Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra príncipes e lordes vêm assistir e tomar parte no jogo.

A regata é um dos divertimentos prediletos dos americanos. Todas as cidades marítimas e fluviais dos Estados Unidos têm pelo menos um clube de regatas.

Nota curiosa: em Newport não se bebe álcool. É proibida a importação de bebidas que contenham espírito, ou qualquer outra substância nociva. Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante, uma simples limonada, fomos bater a uma farmácia! Garantiram-nos que esse preceito contra o álcool é escrupulosamente observado naquela cidade. Custávamos a acreditar, mas, enfim, não havia jeito senão ser delicados.

De resto, uma cidadezinha elegante e sossegada, Newport. O comércio aí é quase nulo.

No fim de oito dias o Barroso deixava de uma vez o país dos ianques, fazendo-se de vela para os Açores.

Já agora não nos doía muito a saudade desse belo e prodigioso país. O regresso à pátria, depois de uma ausência de quase um ano, enchia-nos o coração de alegria.

Não fora a perda de um companheiro em Nova Orleans e voltaríamos todos, sem faltar ninguém, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.

Voltávamos, sim, mas tínhamos deixado atrás, em terra estrangeira, num cemitério de Nova Orleans, um dos nossos camaradas.

Trazíamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe compreender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados Unidos. A idéia da morte não os preocupa: um ianque triste é coisa rara e toma proporções de fenômeno.

(continua...)

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