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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

E havia sempre uma dissimulação respeitosa, um pigarrear malicioso, quando se falava no comandante.

Fosse como fosse, ninguém o desrespeitava, todos o queriam assim mesmo cheio de mistério, com o seu belo porte de fidalgo, manso às vezes, disciplinador intransigente, modelo dos oficiais.

Bom-Crioulo, porém, nunca o estimara verdadeiramente: olhava-o com certa desconfiança, não podia se acostumar àquela voz untuosa, àquele derretido aspecto protetoral que ele sabia fingir nos momentos de bom humor. Evitava-o como se evita um inimigo irreconciliável. Por quê? Ele próprio, Bom-Crioulo, ignorava. Repugnância instintiva, natural antipatia — forças opostas que se repelem...

— Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente.

Metido em ferros no mesmo dia do “rolo”, a imagem do comandante brilhou na caligem de sua embriaguez e o perseguiu toda a noite sem trégua, sem o deixar um instante, ora terrível, ameaçadora, implacável, outras vezes, doce, meiga e complacente...

Dormiu essa noite numa sepultura de ferro, espécie de jaula estreita e sem luz onde só cabia um homem. Trancado ali dentro, imóvel, porque os pés e as mãos estavam presos, adormeceu quando os outros acordavam, ao primeiro toque d’alvorada, quase dia. Durante o sono viu a figura do português inchando para ele com uma faca, desafiando-o: “Vem, negro, vem, que eu te mostro!” Era um homem reforçado, em cuja roupa havia manchas de sangue — barba longa, olhar atrevido.

Iam se pegar, mas Aleixo não consentiu dizendo que a polícia vinha os prender, que não valia a pena brigar por uma cousa à toa... Então Bom-Crioulo, como gostava do pequeno, fugiu, deixando o português no meio de uma praça muito grande, cheia de arvoredos.

A realidade, porém, veio despertá-lo. Eram onze horas. Tinha-se aberto a porta da solitária e, mesmo em jejum, ele ia ser castigado. Faltava o comandante para se dar princípio à solenidade. Uma onda de luz banhou a prisão iluminando o rosto do marinheiro.

— Levante-se! ordenou o sargento da guarda.

Bom-Crioulo não podia se mover: foi preciso que o segurassem. Apertava-lhe a boca uma mordaça de ferro. Havia no seu olhar uma indignação muda e triste.

Ergueu-se trôpego, bambo, os olhos como duas tochas, uma equimose roxa na face, porque adormecera com a cabeça no joelho em posição de múmia indígena. Fez-lhe bem o ar livre da manhã; a luz que se esperdiçava no espaço reanimou-o; todo ele sentiu-se vibrar; oferecia-se ao castigo, sem medo, impávido e sereno, odiando intimamente, lá no fundo de sua natureza humana, aquela gente que o cercava exultando, talvez, com a sua desgraça. Não tinha ninguém por ele — era um abandonado, um infeliz... O próprio Aleixo onde estaria?

Essa lembrança o comoveu. Sim, o Aleixo era a causa de tudo... Enquanto vivera na companhia do grumete, nunca se embriagara positivamente: bebia, de longe em longe, um golezinho de cachaça para aquecer, e ficava satisfeito. Agora não, só se contentava com uma terça e gostava de repetir. — Ah! seu Aleixo, seu

Aleixo!...

Como da outra vez, na corveta, houve “mostra geral”, a guarnição inteira formou à ré, na tolda.

O castigo foi tremendo.

— Não se iluda a guarnição deste navio! perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam!...

E, como da outra vez, Bom-Crioulo emudeceu profundamente sob os golpes da chibata. Apanhou calado, retorcendo-se a cada golpe na dor imensa que o cortava d’alto a baixo, como se todo ele fosse uma grande chaga aberta, viva e cruenta... Morria-lhe na garganta um grunhido estertoroso e imperceptível, cheio de angústia, comprimido e seco; dilatavam-se-lhe os músculos da face em contrações galvânicas; o sangue convulsionado, rugia dentro, nas artérias, no coração, no íntimo de sua natureza física, palpitante, caudaloso, numa pletora descomunal!

Ele sofria tudo com aquele orgulho selvagem de animal ferido, que se não pode vingar porque está preso, e que morre sem um gemido, com um olhar aceso de cólera impotente!

Errava na luz intensa do meio dia uma tristeza vaga e universal. Lá de fora, da barra, vinha, encrespando a agia, um arzinho fresco impregnado de maresia. A cidade, em anfiteatro, cintilava entre montanhas na lânguida apatia daquela hora calmosa. O vulto do couraçado, largo e imóvel no meio da baía, com seu enorme aríete, com sua cobertura de lona, resplandecia destacado, longe dos outros navios, longe de terra, fantástico, arquitetural!

À última chibatada, Bom-Crioulo rodou e caiu em cheio sobre o convés, porejando sangue. Ah! mas não havia no seu dorso uma nesga de pele que não fosse atingida pelo vime. Caiu fatalmente, quando já não lhe restava a menor energia no organismo, quando se tornara desumano o castigo e a dor sobrepujara a vontade.

Só então apareceu o médico, trêmulo e nervoso, dizendo que “não era nada, que não era nada; que trouxessem o vidrinho de éter e água, um pouco d’água...”

(continua...)

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