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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— Sabeis o que é o inferno, bradou com energia crescente, agarrando-se com ambas as mãos ao púlpito, para mostrar que estava seguro da verdade. Sabeis o que é o inferno? É uma multidão infinita e complicada de todos os tormentos, que se sofrem sem ter esperança de melhorar, por toda a eternidade, para todo o sempre, sem que para diminuir essas atrozes torturas possais invocar a vossa idade, o vosso sexo, a vossa fraqueza, a vossa devoção, nem sequer a vossa qualidade de cristãos, ó cegos colaboradores de Satanás!

O povo ficou transido de susto, ao ouvir falar de repente na escura e misteriosa região em que não penetra a esperança. Padre Antônio falara na entoação firme de íntima convicção. Uma vaga sensação de mal-estar, um terror indefinido parecia ir-se apoderando das mulheres e dos tapuios. Posto não fosse tapuio, o Costa e Silva tinha os lábios trêmulos, sentia-se nervoso, aborrecido por ter ido à missa. O Mapa-Múndi resmungava, fazendo menção de retirar-se, mas a irmã, a D. Dinildes, deixava-se ficar, dominada pela voz severa que lhe falava de coisas tão terríveis.

Padre Antônio percebia o efeito das suas palavras. Devia estar pessoalmente magoado com o procedimento da gente de Silves, devia estar despeitado por não lhe terem correspondido aos trabalhos e dedicação pela salvação da vila. Ou por isso, ou porque um sincero desejo de fixar a fé vacilante dos paroquianos o animasse naquele momento, apaixonando um homem de ordinário tão calmo e comedido, começou a apurar de tal modo 'a influência do pecado sobre a vida futura, a exagerar por tal forma o negro quadro da condenação eterna, pintando ao vivo com muito talento, uma por uma, as diversas cenas do inferno, que, de súbito, o povo pôs-se a bater no peito, num desespero surdo em que os soluços das mulheres, prostradas sob o peso da ameaça, se misturavam com a respiração forte, ofegante, dolorosa dos tapuios caídos de joelhos, sobre os tijolos da igreja, num abatimento profundo, como se o véu que encobria a consciência de todos eles se tivesse rasgado à voz poderosa do padre, para lhes deixar conhecer o estado de pecado mortal em que jaziam. O Mapa-Múndi e o Costa e Silva tinham a garganta seca e os olhos úmidos. O capitão Fonseca batia, às ocultas, nos peitos, realmente arrependido de ter proibido à mulher o remédio da confissão. De D. Mariquinhas das Dores apenas aparecia a cabecinha envolta numa gaze branca, cercada de botões de laranjeira, agitada por um tremor convulso de rolinha assustada. O Cazuza Bernardino tinha estereotipado nos lábios um sorriso à-toa. O tenente Valadão, de faixa a tiracolo, encostado a um pilar, reprimia a tosse. O Neves, muito vermelho, chorava como uma criança, assoando-se ruidosamente.

O padre, então, falou ao coração compassivo daqueles roceiros, como já falara à imaginação daqueles filhos do Amazonas. Parecendo gozar a satisfação completa do triunfo, adoçou a voz, terno e compassivo, e disse daquele divino Jesus, pendurado da cruz do sacrifício, entre dois criminosos, com o belo corpo chagado e dolorido, com a fronte cismadora inclinada ao peso dum incomparável martírio, com os braços abertos como para exprimir o imenso amor que dedicara à humanidade, morrendo como um bandido duma morte afrontosa, injuriado, cuspido, açoitado como um negro, amesquinhado na sua pessoa e na sua obra, tudo para remir da mácula do pecado original aqueles tapuios imbecis, aquelas mulheres apáticas e moles, aqueles homens soberbos, indolentes e viciados - que apesar de haverem nas águas do batismo bebido a puríssima doutrina do Salvador do Mundo, viviam como verdadeiros pagãos, como judeus que eram pelo pecado, a crucificar novamente o Crucificado, a pregá-lo outra vez na cruz dos seus desatinos, a chagarlhe o corpo com a sua ingratidão e vileza, a injuriá-lo, a cuspi-lo, a amesquinhá-lo na sua Igreja e nos seus sacerdotes.

E olhou de relance para o Costa e Silva que se sentia desfalecer. O MapaMúndi, reconhecendo-se culpado, abaixara os olhos, confuso, torturado pelo olhar da irmã, cheio de censuras.

— Sim, meus irmãos, continuou padre Antônio, compungido e riste, com lágrimas na voz, com doloroso sentimento na face. Sois os verdadeiros judeus deste tempo. Entre o nosso doce Salvador, o nosso bom e querido Jesus, que se sacrificou por nós, que se empenhou por nós ante o austero tribunal do seu augusto Pai, que morreu por nos naquela cruz, e o nosso eterno inimigo, vós preferis o inimigo, vós crucificais a Cristo e festejais o demônio.

— Sim, o demônio! repetiu fulminando com o olhar o Mapa-Múndi e o Costa e Silva.

Depois amaciando a voz, e mostrando a estátua do Senhor dos Passos, avelhantada e triste:

— Aquela pálida imagem chora ainda hoje lágrimas de sangue pelos vossos desvarios, e quando Nosso Senhor chora e geme sob o peso de tantas cruzes, vós, filhos e irmãos ingratos, só cuidais em festas e negócios, como se nada houvesse depois desta vida terrena!

(continua...)

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