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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Estava num pé e noutro para ter notícias certas do barulho, quando, entrou, de repente, Bentinho. Vinha muito amarelo, com a mão enrolada em um pano e acompanhado por dois cabras, armados até os dentes. – Que foi? – perguntei-lhe assustada — "Nada, um arranhão no pulso, respondeu com voz sacudida – amarre-me, endireite-me isto, sra Quitéria." Enquanto a velha punha mezinha na ferida, um talho que ia da palma da mão esquerda ao meio do braço, Bentinho, fora do seu natural, com os olhos espantados, a voz surda e seca, ainda trêmulo de raiva, contou-me que, chegando à feira, fora desfeiteado por uns cabras, novatos na terra, já muito encachaçados e intimando com todo o mundo. Chamou a gente para amarrá-los, mas um deles, saltando como um gato sobre o ginete, disselhe: — Você pensa, seu alvarinto, que amarrar homem é furtar, à traição, mulher alheia? Nisto chegou, à toda, o João Brincador com três homens escolhidos, e eu disse-lhe: — Amarra essa cambada de desordeiros. – Em cima das minhas palavras, riscou o Berto, e foi dizendo: Você, pode amarrá-los seu filho desta, filho daquela, mas depois de me pagar e ajustarmos as contas. – Eu e os meus demos de rédea para sairmos do meio do povo; eles, rente, atrás da nossa poeira. A certa distância rodamos sobre os pés os animais, e os cabras que também estavam bem montados, quase esbarram em riba de nós. – Agüenta, rapazes! – disse ao João, que me respondeu sorrindo: Não há novidade, capitão. Deixe eles para nós. Palavras não eram ditas, o Berto papocou-me fogo. Abaixei-me, e a bala tirou um taco da beira do chapéu do João – O cabra mata seu Bentinho! – gritou ele – Os outros cangaceiros atiraram, e os meus responderam com uma descarga. O cavalo de um deles empinou-se e rodou morto por cima do cavaleiro, também ferido. O Berto, então, veio seco em cima de mim, e correu dois palmos de faca do Pasmado – Tenha mão, capitão Berto – disse-lhe eu, aparando o golpe, com a minha parnaíba – Tenha mão que se desgraça. Mas o homem estava roxo de raiva; espumava como um touro feroz. Avançou outra vez num ímpeto, que não era para graças. Suspendi o russopombo passarinhando como um gato; salto pra aqui; pulo pra acolá, e o homem decidido atravessando-se na minha frente, com o cavalo preto e ligeiro que nem um tigre. Na terceira investida, meteu-me o ferro com vontade. Rebati com a mão; mas quando senti o aço ranger-me na carne e o sangue espirrar, saquei da garrucha. O homem estava cego, arremeteu de novo e meteu-me o ferro outra vez aqui na aba do gibão. Vendo, então, que o diabo me matava mesmo, e que eu não podia com vantagem brigar com ele a ferro frio, perdi as cerimônias, e lasquei-lhe fogo... O homem soltou um berro; abriu os braços como se quisesse abraçar o vento, e derreou pra trás. O cavalo, sentindo falta de rédea, deu quatro galões e meio, como um poldro brabo e desembestou desapoderado, arrastando Berto enganchado no estribo. Morreu?!... – perguntei, tiritando de frio, e batendo os dentes como se tivesse sezões. "Não sei. Foi batendo por troncos e barrancos até desaparecer de nossa vista com os dois cabras restantes metidos em uma nuvem de poeira. Dois dos dele ficaram no barro. Da minha rapaziada,, o Chico Pintado levou uma bala aqui na coxa – lá nele — ; o Borburema perdeu o gibão, e foi ferido com um pontaço nas cruzes; o Brincador ficou com o chapéu, novo em folha, estragado. Todo o mundo sabe que ele tem o corpo fechado. Enquanto brigávamos, o povo fazia um barulho medonho. Todos viram que me defendi o mais que pude, negaceando, para lhe poupar a vida. O diabo do ferro cortava como navalha. O talho está doendo de verdade. "E voltando-se para mim, disse: - "Não chores, Teresa. Isto, com sumo de angico ou de maçã de algodão, sara depressa.... É uma arranhadura de nada." Supunha que eu chorava por ele; mas, naquela ocasião, meu pensamento acompanhava Berto, desfigurado pelos encontrões, coberto de sangue e pó, arrebatado pelo Moleque, cavalo de estimação que eu bem conhecia. Minha vontade era correr atrás do pobre, apanhar os pedaços da sua carne, arrancados pelos tocos e pedras. Talvez o encontrasse ainda vivo para pedir-lhe perdão... Desde esse dia, ficou decretada a minha desgraça. Bentinho me achava sempre triste e sucumbida. Eu tinha repugnância daquele homem manchado com o sangue do outro. Não era já a mesma mulher... Ele parece que percebeu isso, e foi também esfriando, até que me participou o seu casamento com uma prima bonita e rica. Eu respondi que lhe fizesse bom proveito... Deu-me um maço de dinheiro e não voltou mais a casa da velha Quitéria.

Luzia, embebida nas palavras de Teresinha, acompanhava a narrativa com intenso interesse, intenso abalo.

— E... depois? – perguntou.

(continua...)

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