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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Na província, os sentimentos são mais nus e verdadeiros e as almas mais humanas e firmes. Aqui o coração é coração, o bom é bom e o mau é mau; aqui as mães são verdadeiramente mães, ali muito raras vezes o são; aqui a mulher quer ser mãe para ser feliz, ali não que ser mãe para não afeiar; aqui o amor e o casamento são coisas puras, fáceis e naturais, ali são jogos de especulação e de interesse individual. Nas terras pequenas, o casamento é, em geral, uma conseqüência do amor; nas grandes, quando ele no casamento exista, o que rarissimamente sucede, é uma conseqüência do casamento, isto é, da convivência e do hábito.

Daí imensos crimes e torpezas mesquinhas; daí os filhos raquíticos e desatinados, as mães doentias, céticas, aborrecidas e sem amor.

Na província, enfim, cada um tem o seu coração, por ele vive e pratica, por ele ama e só por ele delibera; na capital, há somente um coração para todos, podemos dizer um coração oficial, uma víscera da nação, uma aparelho mecânico e econômico — tem a mesma pulsação e o mesmo calor para todos; é quase que um coração artificial; é mais um objeto de luxo, que um órgão necessário; é uma tetéia dourada, é um boneco de papelão, é um trapo, é lama!

Pode haver um bom povo numa grande capital, convimos, mas urge compreender que um bom povo não diz o mesmo que uma boa gente. Assim como uma atmosfera, aliás boa e salubre, se compõe de moléculas boas e más, cuja combinação produz magníficos resultados; assim como também o povo de uma grande capital, como a de Paris, por exemplo, ou de Madri, pode ser no todo e ruim em partes.

Junto, unido, fundido em massa, ligado compactamente pelo entusiasmo, pelos brios políticos será bom, porque é brilhante e é grandioso, porém como as montanhas, só produz efeito visto de longe, donde com um olhar se abranja o todo e não as partes. Será belo, através dos prismas encantados da história e dos séculos, será transparente e azul, depois de uma refração, como nos parece o éter através a luz do sol e dos gases atmosféricos, porém de perto é grosseiro e informe como a montanha, pedras bruscas e ruins, vegetações enfezadas, barrancos perigosos, onde se escondem reptis malvados e traiçoeiros.

Assim é o povo de uma capital civilizada, pode ser bom no conjunto, mas em geral os homens que o formam são entre si maus e viciosos.

CAPÍTULO II

Fria e fisiologicamente esmerilhando a verdadeira causa, não é de espantar, como parece à primeira vista, que a estranha família e Lipari se houvesse tão boa, tão patriarcalmente virtuosa, tão desafetadamente ingênua, tão infantilmente generosa e protetora, para com um pobre moço que se apresentava como mestre, sem proteção, sem dinheiro, sem atestados de colégio, sem outros dotes, que o recomendassem além dos morais e intelectuais.

É que nos lugares pequenos abrem-se os corações antes de se abrirem os olhos; preferem o bom caráter e os bons costumes à grande sabedoria e à brilhante nomeada. Ninguém se diz — mostra-se; ninguém pergunta — vê.

E se procurássemos bem a causa de tudo isto, haveríamos de descobrir que, em vez do ar polvilhado das ruas estreitas das cortes, dos acepipes caprichosos dos hotéis, os vestidos apertadíssimos de baile, das encantadoras vigílias das festas, do abuso e perfumes, do uso os licores excitantes, dos sentimentos contrariados, das dores disfarçadas pelo riso e das lágrimas fingidas; em vez de tudo isso respiram os da burguesa província o ar livre dos campos, comem os frugais legumes de suas hortas, vestem-se à larga, dormem cedo, encantam-se com os perfumes das flores e delas tiram as mulheres os seus ornatos, e mostram no olhar e no sorrir as dores ou alegrias que lhe vão por dentro.

Não é de pasmar tal contraste entre os civilizados filhos das grandes capitais e os singelos habitantes dos lugares pequenos, porque os estômagos de uns são diametralmente opostos aos estômagos dos outros, e um homem é bom ou mau, conforme o estado mau ou bom de seu estômago.

Os perfumes e o álcool estragam o cérebro e desbotam a memória; as anquinhas confrangem a respiração; o pó arruina os pulmões; os hotéis encarregamse de aguar o sangue; enfim todos esses cúmplices da morte, que constituem o deleite e encanto as grandes capitais, principiando por estragar o estômago dos cidadãos classificados, acabam por dar batalha à alma, que se enerva, se gasta, se corrompe e apodrece.

Agora, voltemos de novo à medalha. Os outros! como são felizes! como são sadios! como do que vivem todo o elemento fortifica e avigora. Como são bons e alegres, que pois têm bom o estômago e puro o sangue!

O bom estômago é a base de toda e qualquer felicidade possível.

Sem estar em perfeito estado o estômago, não pode haver alegria; sem alegria não há saúde e, sem esta, que seria a virtude? A virtude é uma conseqüência da saúde e da alegria; a tristeza depõe contra a virgindade e contra o amor. E finalmente que são a virtude, a saúde e a alegria, senão a mais completa felicidade humana — a família?

(continua...)

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