Por Aluísio Azevedo (1881)
Passou então a falar nas belezas da sua Atenas: no dique das Mercês, “estava em construção, mas havia de ficar obra muito de se ver e gostar...” afiançava ele cheio de gestos respeitosos. Falou do Cais da Sagração, “também não estava concluído” dos Quartéis, “iam entrar em conserto”, na igreja de Santo Antônio, “nunca chegaram a terminá-la, mas se o conseguissem, seria um belo templo!” Elogiou muito o teatro São Luís. “Dizia o cônego que era o São Carlos de Lisboa, em ponto pequeno!” Lembrou respeitosamente a companhia lírica do Ramonda, o Remorini o tenor “morrera de febre amarela, depois de ser muito aplaudido na
Gemma de Vergi. Ah, como aquela, jurava não voltaria outra companhia ao
Maranhão! Mas que, mesmo na província havia moços de grande habilidade...”
Referia-se a uma sociedade particular, de curiosos. “Tinham seu jeito, sim senhor!”
E, engrossando a voz, com muita autoridade: “Representavam Os Sete Infantes de Lara! - Os Renegados! - O Homem da Máscara Negra, e outras peças de igual merecimento! Tinham a sua queda para a coisa, tinham!... Não se pode negar!...” E assoava-se, meneando a cabeça, convencido “Principalmente a dama... sim! o moço que fazia de dama!... Não havia que desejar - o pegar do leque, o revirar dos olhos, certos requebros, certas faceirices!... Enfim, senhores! era perfeito, perfeito, perfeito!”
Raimundo bocejava.
E o Freitas nem cuspia. Acudiam-lhe fatos engraçados sobre o teatrinho. soltava as anedotas em rebanho, sem intervalos. Raimundo já não achava posição na janela; virava-se da esquerda. da direita, firmava-se ora numa perna, ora na outra deixando afinal pender a cabeça e olhando para os pés entristecido pelo tédio. “Que maçante!...” pensava.
Entretanto, o Freitas a sacudir-lhe a manga do fraque, que Raimundo sujara na caliça da janela, ia confessando que “estavam em vazante de divertimentos; que a sua distração única era cavaquear um bocado com os amigos...”
— Ah! exclamou, minto! minto! Há uma festa nova! — a de Santa Filomena!
Mas não será como a dos Remédios, isso, tenham paciência!...
— Sim, decerto, balbuciou Raimundo, fingindo prestar atenção.
E espreguiçou-se.
— A festa dos Remédios!... repetiu o outro, estalando os dedos e assoviando prolongadamente, como quem diz: “Vai longe!”
Raimundo estremeceu, ficou gelado ate a raiz dos cabelos, percebeu aquela tremenda ameaça e mediu instivamente a altura da janela, como se premeditasse uma fuga.
— O nosso João Lisboa... disse o Freitas. E meteu profundamente as mãos nas algibeiras das calças. O nosso João Lisboa já, em um folhetim publicado no numero... Ora qual é o número do Publicador Maranhense?... Espere!...
E fitou o teto.
— ll73 — Sim! ll73, de l5 de outubro de l85l. Pois nesse folhetim descreve ele, circunstancialmente e com muito donaire e gentilezas de estilo, a nossa popular e pitoresca festa dos Remédios.
Raimundo, aterrado, prometeu, sob palavra de honra, ler o tal folhetim na primeira ocasião.
— Ah!... volveu terrível o Freitas é que ela hoje é outra coisa!... Hoje não se compara! — há muito mais luxo, mas muito!
E segurando com ambas as mãos a gola do fraque de Raimundo e ferrando-lhe em cima dos olhos arregalados, acrescentou energicamente: — Creia, meu doutor, mete pena o dinheirão que se gasta naquela festa! faz dó ver as sedas, os veludos, as anáguas de renda, arrastarem-se pela terra vermelha dos Remédios!...
Raimundo empenhou a cabeça como faria idéia aproximada.
— Qual! Qual! Tenha paciência meu amigo, não é possível! E Freitas repeliu com torça a vitima. Aquilo só vendo e sentindo, Sr. Dr. Raimundo José da Silva!
E descreveu minuciosamente a cor, a sutileza da terra; como a maldita manchava o lugar em que caia; como se insinuava pelas costuras dos vestidos, das botas, nas abas dos chapéus, nas máquinas dos relógios; como se introduzia pelo nariz, pela boca, pelas unhas, por todos os poros!
— Aquilo, meu caro amigo...
Raimundo queixou-se inopinadamente de que tinha muito calor.
Freitas levou-o pelo braço até a varanda; deu-lhe uma preguiçosa, passou-lhe uma ventarola de Bristol preparou-lhe uma garapada, e, depois de havê-lo regalado bem, como antigamente se fazia com os sentenciados antes do suplício, de pé, implacável, verdadeiro carrasco em face do paciente, despejou inteira uma descrição do dia da festa dos Remédios, recorrendo a todos os mistérios da tortura, escolhendo palavras e gestos, repetindo as frases, frisando os termos, repisando o que lhe parecia de mais interesse, cheio de atitudes como se discursasse para um grande auditório.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.