Por Aluísio Azevedo (1895)
E tudo isto descobrimos, César e eu; tudo desenterramos, por amor de minha filha; e foi obtido e foi tudo feito com a máxima reserva e discrição. Leandro, ao que suponho, não desconfiou de coisa nenhuma.
Estudando-o de mais perto reconheci que as suas maneiras eram, de fato, convenientes e não afetadas para nos engodar durante o namoro; pareceu-me até que, por debaixo daquela forte robustez física, havia um caráter tímido e paciente. Notei com satisfação que ele não abusava do fumo e detestava o cachimbo. Não me pareceu absolutamente ambicioso. Falava pouco do seu piano e do seu bandolim. No entanto, as suas cartas a Palmira, as quais esta me mostrava sempre, eram discretamente escritas, na forma como no fundo, e pareciam sinceras no que diziam de amor.
Convenci-me afinal de que a coisa única que me restava a fazer era casá-los, dando ainda graças a Deus por ter-me deparado tão bom partido.
Minha filha mostrava-se cada vez mais empenhada por ele, e Leandro cada vez mais disposto a obedecer-me e respeitar-me nos meus desígnios. Íamos bem.
Quanto a mim, tomava-lhe já a estima e habituava-me à idéia de ver nele um futuro filho. Tudo, não obstante, dependia da sua boa ou má disposição para aceitar as condições do casamento. Deliberei impor-lhe as provas preliminares. Entrei em campanha — principiei a contrariá-lo.
Comecei a ser sogra!
CAPÍTULO XII
Meu Deus, como eu, que aliás ainda não tinha então descoberto a terrível lei da incompatibilidade do amor físico com o amor moral, me sentia já ansiosa e apreensiva, pensando no casamento de Palmira! Aquele rapaz, mesmo rigorosamente dirigido por mim, faria com efeito a felicidade de minha filha?... Amála-ia deveras? Seria ele com efeito um bom moço, ou teria conseguido enganar-nos, com os seus gestos de jovem atleta civilizado e com os seus claros sorrisos de mocidade olímpica? Oh! também só nisto punha eu todo o meu empenho — em que ele não nos iludisse; pois, quanto ao fato da sua pobreza e da sua modesta procedência, longe de fazer-lhe carga, dava-lhe até boas vantagens ao meu ver. Minha filha e eu éramos bastante ricas, para não precisarmos perturbar o plano da felicidade dela, e minha, com mais esses frios interesses de dinheiro.
Que era ele um belo exemplar de homem, isso é o que ninguém poria em dúvida, e isso valia bem pelo dote pecuniário de Palmira; pelo outro, ainda mais bonito que ela trazia em pureza, inocência e formosura, valeria a boa vontade com que o noivo aceitasse as estreitas e rigorosas condições, que eu lhe ia impor ao casamento. E nesta última parte estava o ponto mais delicado da questão; para realizá-la, sem futuros prejuízos dos meus planos de absoluto domínio sobre eles, dispunha-me a empregar todo o esforço e toda a astúcia de que eu fosse capaz; pois, em consciência, a verdade era que outro homem já não queria eu, nem já me convinha, para cavalheiro de minha filha ou para gerador de meus netos porque outro com certeza não descobriria eu em condições naturais tão boas e perfeitas como Leandro. Até a sua própria mediocridade de inteligência se me afigurava o belo complemento da sua perfeição de animal humano: — o talento elevado a certo grau é sempre, no amor, uma anormalidade perigosa. Achava-o cada vez melhor e mais próprio para bom marido; achava-o, além disso, muito simpático e atraente; achava graça naquele seu tipo moreno pálido, de olhos muito azuis e cabelos muito pretos; até mesmo o crespo sotaque inglês, que a princípio lhe estranhei e me fazia torcer o nariz, agora achava eu que lhe ia bem com o sonoro metal da sua voz masculina e forte.
Entretanto, não me convinha de modo algum que ele alcançasse com facilidade a certeza da posse de minha filha. Afastava-os intencionalmente; começava a representar, entre eles dois, o terrível papel de linha divisória, de linha sanitária, estabelecida em guerra contra os traiçoeiros inimigos das suas ilusões de amor. Ah! quanto me custava, e quanto me aprazia ao mesmo tempo, esse altruísta e odioso mister de delicada perseguição! Quanto eu me sentia ir ficando sogra! Mas estava disposta a não me arredar um passo do meu programa, ainda mesmo tendo mais tarde de entestar, como já esperava, com a cólera de meu genro e com as lágrimas de minha filha.
Seria muito preferível, em todo o caso, que ela chorasse dessas lágrimas de ilusão a ter mais tarde de amargar as lágrimas de desengano que chorei.
O namoro de Leandro ia se tornando tanto mais insistente, quanto mais era por mim contrariado. Só uma vez por semana lhe consentia viesse ver a desejada, nas noites de recepção comum, como todos os outros nossos freqüentadores; e isso bem percebia eu que o torturava cruelmente.
Vingava-se nas cartas; essas, consentia eu, fingindo ignorá-las. As cartas não podiam prejudicar, antes serviam, opostamente, para manter firme a intensidade do desejo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.