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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

– Ora! respondeu ele. Formar-me! Acho desnecessário! Minha vocação toda é o professorado, e para isso não preciso ter carta, basta-me saber conscienciosamente as matérias que ensinar.

IV

Havia em Catumbi uma velha de uns quarenta e tantos anos, chamada Margarida, que vivia em companhia de sua filha única - a Inezinha, e sobre quem ela firmava todas as suas esperanças e a quem dedicava todos os seus afetos.

Moravam sozinhas e, porque não dispunham de outra fonte de receita senão o trabalho, labutavam a valer desde pela manhã até ao fugir do sol.

A velha era incansável, ativa como poucas, mas, por outro lado, geniosa e resingueira como ninguém. Posto que o trabalho lhe tomava todas as horas do dia e às vezes uma boa parte da noite, ainda ela descobria algum tempo para dar à língua com os vizinhos e comentar a vida do próximo.

- Aquela almazinha não tinha um momento de descanso, murmuravam os seus conhecidos.

E isso mesmo estava a dizer a figurinha enfreneziada de D. Ernestina: pequena, seca e viva como um camundongo

Era a primeira que se levantava no seu quarteirão, e, ainda não se sabia a cara que traria o sol, já andava o demônio da velha na sua canseira de todos os dias; braços arremangados, saia puxada ao cós, a lidar, a vassourar para a direita e para a esquerda e a ralhar com a filha, que "Benza a Deus! não parecia ter vindo de tal mãe!"

E daí atirava-se às costuras, à lavagem ou ao engomado, e era trabalhar para a frente, até dizer basta.

A Inezinha, porém, com o seu ar de mosca morta, os seus olhos sonolentos e a sua voz arrastada e frouxa, metia-lhe fezes no coração.

- Ó pequena! gritava-lhe a velha muitas vezes, a sacudir-lhe o braço, como se quisesse acordá-la; onde diabo vais tu parar com toda essa moleza?... Deus me livre! Parece que tens chumbo nas pernas! Pois olha que é preciso puxar pelo serviço, se queremos que não nos faltem os feijões!

Mas Inezinha não endireitava nem à mão de Deus Padre e cada vez parecia mais ronceira e menos capaz de tomar caminho.

- Aí está, resmungava a mãe; aí está para que serviu saberes mais do que eu! Bem dizia teu pai, a quem Deus haja; bem dizia ele, quando, quando te pus no colégio, que nada havíamos de lucrar com isso!

- Mas eu faço o que posso... contrapunha a rapariga. Que culpa tenho eu de não me ajeitar à lavagem da roupa e muito menos ao ferro de engomar? Se algumas vezes deixo o serviço, é porque não há outro remédio, é porque me aparece a pontada no estômago! Ora aí está!

A mãe ralava-se. Aquela filha era o seu tormento! Ainda se Inez fosse uma rapariga esperta, diligente para outras coisas, vá! Dar-se-lhe-ia um jeito; mas aquela mesmo, Deus te livre! aquela que não sabia se mexer pelos seus pés, aquela sem vontade que só caminhava quando alguém a empurrava para a frente! Credo! que até parecia castigo do Deus!

Foi nessa conjuntura que D. Margarida se lembrou de fazer a filha tomar criança para ensinar.

Vieram os primeiros discípulos, e tal gosto revelou Inez para esse gênero de trabalho, que o no fim de pouco tempo a sua idéia fixa era arranjar uma cadeira de professora régia. - Mas, com que pagar a um bom explicador de português, a quem aprontasse em pouco tempo?... A coisa não podia ser tão barata, e elas, coitadas, mal ganhavam para o pão de cada dia.

A velha, entretanto, não descansou mais e tanto furou, tanto virou e tanto tagarelou sobre o caso, que afinal descobriu o Coruja, por intermédio da filha de uma sua amiga, a quem ele ensinava de graça.

Foi logo procurá-lo no colégio, levando engatilhado um arsenal de lamúrias, que havia de mover o coração do professor por mais duro que fosse. André, porém, não lhe deu tempo para lançar mão do arsenal e, logo às primeiras palavras da velha, declarou que ela estava servida.

- Deixe-me o número de sua casa, disse ele, e vá descansada, vá, que a menina há de aprontar-se para a primeira ocasião. D. Margarida quis beijar-lhe as mãos.

- Não tem que me agradecer; vá, vá! Hoje por mim, amanhã por ti. Talvez que ainda esta noite de um pulo até lá. E adeus, adeus, que vai entrar a aula de latim.

Daí a dois dias principiara ele a dar as suas lições a Inez, com a mesma pontualidade e o mesmo inalterável zelo que empregava para com todos os seus discípulos.

Chegava lá regularmente às sete horas da noite e principiava logo o trabalho, defronte de um grande candeeiro de azeite, que D. Margarida trazia para o centro da mesa.

As duas senhoras viam em André um benfeitor caído do céu e, para mostrarem o seu reconhecimento, desfaziam-se em pequeninos obséquios: davam-lhe a melhor cadeira, só lhe falavam a sorrir e obrigavam-no a aceitar todas as noites uma xícara de café.

Em pouco o bom rapaz não representava para elas um simples professor, mais um amigo, uma espécie de membro da família.

No fim de alguns meses ele já as levava aos domingos a dar uma volta no Passeio Público e, lá uma vez por outra, acompanhava-as a alguma festa de arraial ou a algum espetáculo no Provisório.

(continua...)

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