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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

No fim de cinco horas de êxtases e exclamações desse gênero, o Borges cujo estômago reclamava os seus direitos disse, batendo-lhe meigamente no ombro:

— Não te apetece agora uma costelazinha com batatas?... Creio que não será mal lembrado... hein?...

— Não! disse Filomena, repressivamente. — O que me apetece neste instante é o Medinet-Abu na outra margem do Nilo. Creio que esse prodígio de sete séculos valerá sempre mais alguma coisa que uma costeleta!...

— Oh! de certo, de certo! apressou-se a confirmar o Borges, pronto já a seguir a esposa, sem o menor vestígio de oposição.

Mas, pelo caminho, indiscretos suspiros partiam-lhe a miúdo dos lábios.

— Triste fado o meu! resmungava o pobre homem com os seus botões. — Triste fado!

E lá ia caminhando, de cabeça baixa, a puxar pelo cabresto o seu burrico e o da mulher.

O desgraçado esteve a desfalecer, quando, no fim da estafadora peregrinação pelo Egito, Filomena tratou com assombro de Babilônia, na qual, segundo vagas recordações de Herôdoto e Deodoro de Sicília, pensava encontrar panos para as mangas nas estátuas de ouro e nos palácios de Korsabad e Nemrod e nos baixos relevos e nos caracteres da escritura assíria.

Ah! só encontrou de tudo isso indícios, quase apagados — ruínas e deserto! sempre o deserto! sempre o deserto!

Veio-lhe então a idéia de recorrer à Grécia. "aí com certeza encontraria alguma coisa; pelo menos os sublimes destroços do Acropólio, do Partenon, do Agora!"

Já vejo que não é tão cedo que isto acaba!... considerou o Borges, quando a mulher lhe falou nas riquezas descobertas pelo professor Ihlismann, na Argólida.

E, custasse o que custasse, ela havia de fazer um almoço no tesouro de Atréus como fizera seu padrinho!...

— Que padrinho é esse? perguntou o Borges.

— D. Pedro II, o nosso imperador. — Ah!...

Coitada! Mal então sabia ela a influência que o monarca estava destinado a exercer na sua vida!...

— Bem! disse o Borges, depois do passeio à Grécia. Agora, creio que basta de ruínas e que podemos voltar para o nosso canto! Ah! se soubesse, Filomena, as saudades que tenho de meu querido Paquetá!... Aquilo, sim, é que é terra! Estou aqui a ver-me debaixo de uma mangueira, contigo ao lado, depois do jantar... Que bom, meu Deus! que coisa boa1....

— Enlouqueceste?! exclamou ela. Pois nós havemos de voltar sem

conhecer a Índia?!... A fanática! A terra das superstições brutais! dos faquires sobrehumanos! A Índia, com todos os seus formidáveis budas! A Índia, com o seu BothJattrá, essa deslumbrante festa dos carros! Oh! não! isso seria impossível!

O Borges empalideceu.

E depois da Índia, acrescentou ela por que não um pouco da Arábia, onde faremos belas peregrinações ao Nedjed, onde percorreremos aldeolas e lugarejos singulares, estudando a vida das mulheres de Hail, com o seu uso original de trazer argolas de ouro nas ventas e nas orelhas; onde teremos ocasião de apreciar os dançados das donzelas de Shakik?!... E a África?! A África então?! Esquecia-se o Borges de que a África era a única paragem do mundo, em que ainda se podiam encontrar regiões desconhecidas? E, além disso, não valeriam a pena de alguns passos as famosas cascatas de Samba-nagoshi, a aldeia de Mayolo, tão estimada pelos naturalistas?! E as caçadas dos elefantes pretos nas terras dos Aponos, e a caçada dos leões de Mogiana e dos gorilas de Olenda?!... Acaso não reconhecia o Borges a necessidade urgente de ver e experimentar todas essas coisas?!...

— Lá se vai tudo quanto Marta fiou!... disse o pobre homem, gemendo debaixo daquele bombardeamento.

Mas não reagiu. E, no fim de algum tempo; ia-se já habituando ao viver boêmio que a mulher lhe impunha. Dócil, como era, para escravizar-se aos hábitos, afez-se pouco a pouco àquele duro vagabundear, e estaria disposto a seguir Filomena ao inferno, contanto que esta nunca mais lhe fechasse o ferrolho sobre o nariz.

CAPÍTULO X

DE VOLTA A PÁTRIA

E assim se transformava completamente sem dar por isso. Não parecia o mesmo; sabia montar a cavalo, atirar várias armas, bater-se em duelo, andar em velocípede, correr no gelo, jogar o soco e a bengala e até servir-se do terrível bowieknife de dois gumes.

E no fim de algum tempo, quem o visse à tolda de um paquete inglês, numa dessas madrugadas cor de pérola, enluvado no seu ulster de xadrezinho, o chapéu ao lado, a toalha caída sobre as costas, o bigode retorcido, monóculo no olho, binóculo a tiracolo, e tão pronto ao prazer como ao perigo, lépido, terrível, namorador; quem o visse — seria capaz de acreditar que ali estava aquele mesmo Borges, aquele pacato João Touro, que alguns anos antes atravessava as ruas comerciais do Rio de Janeiro, agenciando a vida, muito atarefado, dentro de suas calcinhas de brim mineiro?!...

Onde iria já o casto, o puro, o doce João Touro do outro tempo?...

(continua...)

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