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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Daí — é que tenho cá um palpite! explicou ele. — Não conheces o Amâncio!... A gente leva-o para onde quiser!... Um simplório , mas o que se pode chamar um simplório!

Mme Brizard fez um gesto de dúvida.

— Afianço-te, volveu Coqueiro, – que, se o metermos em casa e se conduzirmos o negócio com um certo jeito, não lhe dou três meses de solteiro!

* * *

Nessa mesma tarde Mme Brizard entendeu-se com a cunhada. Falou-lhe sutilmente no “futuro”, disse-lhe que “uma menina pobre, fosse quanto fosse bonita, só com muita habilidade e alguma esperteza poderia apanhar um marido rico”. E tocando lhe intencionalmente no queixo:

— Anda lá , minha sonsa, que sabes disso tão bem como eu!...

Amélia riu, concentrou-se um instante e prometeu fazer o que estivesse no seu alcance, para agradar ao tal sujeitinho.

Ardia, com efeito por achar marido, por se tornar dona de casa. A posição subordinada de menina solteira não se compadecia com a sua idade e com as desenvolturas do seu espírito. Graças ao meio em que se desenvolveu, sabia perfeitamente o que era pão e o que era queijo; por conseguinte as precauções e as reservas, que o irmão tomava para com ela, faziam-na sorrir.

Às vezes tinha vontade de acabar com isso. ”Que diabo significavam tais cautelas?...Se a supunham uma toleirona, enganavam-se — ela era muito capaz de os enfiar a todos pelo ouvido de uma agulha!”

— Agora, por exemplo, neste caso do tal Amâncio, que custava ao Coqueiro explicar-se com ela francamente?...Por que razão, se ele precisava de seu auxílio, não a procurou e não lhe disse às claras: “Fulana, Domingo vem aqui um rapaz, nestas e nestas condições; vê se o cativas, porque ali está o noivo que te convém!” Mas, não senhor! — meteu-se nas encolhas e entregou tudo nas mãos da mulher!

— Ora! Disse consigo a rapariga. — Isto até nem sei que me parece! Ou bem que somos, ou bem que não somos!...Se Janjão queria alguma coisa de mim, era falar com franqueza e deixar-se de recadinhos por detrás da cortina!

E Amélia, quanto mais refletia no caso, tanto mais se revoltava contra a reserva do irmão:

— Ele já a devia conhecer melhor! Pelo menos já devia saber que aquela que ali estava era incapaz de cair em qualquer asneira; aquela não “dava ponto sem nó ”Outra que fosse, quanto mais — ela, que conhecia os homens, como quem conhece a palma das próprias mãos! — Ela, que viu de perto, com os seus olhos de virgem, toda a sorte de tipos! — ela, que lhes conhecia as manhas, que sabia das lábias empregadas pelos velhacos para obter o que desejavam e o modo pelo qual ser portam depois de servidos! Ela! tinha graça!

— Ela, que até ali dera as melhores provas de sagacidade e de esperteza; já “convencendo” tal freguês remisso que não queria pagar, nem a mão de Deus Padre, o aluguel do quarto pelo preço cobrado; já respondendo a tal credor, que, em tal época, veio receber tal conta; já sofismando tal compromisso; já resolvendo tal aperto, uma vez em que nem a própria Mme. Brizard sabia que fazer! E ainda a suporiam criança?...ainda teriam medo de qualquer asneira sua parte?...Pois então que se lembrassem da questão do Pereirinha!

O Pereirinha foi um dos primeiros hóspedes do Coqueiro. Rapaz bonito, perfumado, muito prosa. Amélia representava para ele a mesma inocência em pessoa, só lhe falava de olhos baixos, voz sumida, o ar todo candura e vexame. Pereirinha jurava-lhe uma paixão sem bordas, fazia-lhe versos, tocava-lhe nos pés por baixo da mesa, e, depois do jantar, quando os mais se alheavam no egoísmo da saciedade, ele a fitava tristemente, pedindo, com os olhos fosse lá o que fosse. Pois bem, ela a tudo isso correspondia com muito agrado, submetia-se resignadamente a todos esses requisitos do namoro vulgar, mas...um belo dia em que o pedaço de asno do Pereirinha quis ir adiante, Amélia aconselhou-o sorrindo a que primeiro a fosse pedir em casamento ao irmão.

E, quando se convenceu de que o tipo não queria casar, disse-lhe

abertamente: “ Ora, meu amigo, outro ofício!”

E Coqueiro sabia de tudo isso, tão bem como a própria Amélia — para que pois aqueles escrúpulos ridículos e amoladores?.

* * *

Só à noite,, à acostumada palestra em torno da mesa de jantar, lembraram-se de que o dia seguinte era de grande gala.

— Ó diabo! considerou Coqueiro.— E eu que podia ter dito ao Amâncio para vir amanhã! Escusávamos de esperar até domingo.

— Ora, senhores! Onde diabo tinha a cabeça!...

— Queres saber de uma coisa? Disse, tomando a mulher de parte. — Vai tu e mais Amelinha arranjar o gabinete, que eu escrevo uma carta ao nosso homem; pode ser que amanhã mesmo o tenhamos por cá. Anda, vai! O segredo das grandes coisas está às vezes nesta pequenas deliberações!

E, enquanto Mme. Brizard aprontava com Amélia o gabinete, escreveu ele a carta que Amâncio encontrou sobre a cômoda.

(continua...)

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