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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Tenha paciencia ; o confessor ha de vir. Agora conte-me com franqueza e verdade o que é feito dessa creança? A justiça humana já nada tem que ver com a senhora ; é perante o tribunal divino que em breve lalvez terá de responder. Si não confessa o seu crime a fim de remediar o mal immenso que fez, e que até hoje pesa sobre essa infeliz creatura, não póde esperar salvação para sua alma.

— Graças, meu Deus ! mil graças vos sejão dadas ! — exclamou a velha, levantando ao céo as descarnadas mãos, e exhalando um forte suspiro, com que parecia alliviar o coração de um peso enorme, que o opprimia. — Graças a Deus que em minha ultima hora me permitte desmanchar o mal que fiz. Meu senhor, pelo amor de Deus, perdoe-me ; minha vida foi toda um tecido de perversidades. Essa menina não morreo, como eu fiz acreditar. Nessa mesma noite em que ella appareceo engeitada á porta de minha casa, uma mulata, minha escrava, tinha tido uma creança, que morreo logo depois de nascida, e eu. . . meu Deus ! . . . que vergonha ! que abominação ! . .

— Diga, diga tudo, senhora, instou Conrado. — É preciso que não occulte nada para descargo de sua consciencia e para se poder remediar o mal que fez.

— E eu fiz baptisar a engeitada como filha da escrava, e fiz constar que a engeitada é que tinha morrido. — E que nome deo á menina?

— Rozaura.

— E depois vendeo-a, não é assim? É verdade, meu senhor.

— E a quem vendeo-a ?

— A um senhor Bazilio, morador na rua do Tabatinguera.

— Justamente ! é ella ! — exclamou Conrado com intimo e profundo jubilo. — Não se póde mais oppôr a minima duvida a respeito da origem de Rozaura. Estou satisfeito, senhora; eu vou neste mesmo instante buscar um padre para ouvil-a de confissão, e tambem mandar-lhe alguns meios de tratar-se. Em menos de duas horas estarei de novo aqui ccrm o padre e mais duas pessoas, porque me é de absoluta necessidade, que a senhora repita diante de testemunhas a confissão que acaba de fazer-me em particular, para conseguir a liberdade da menina, que a senhora condemnou á escravidão. Está disposta a isso. minha senhora ?

— Porque não, meu senhor ! . . . nem ha cousa que eu mais deseje. Prouvera a Deus que eu pudesse desfazer assim todas as outras maldades que pratiquei ! . ah! meu Deos ! perdão! misericordia ! . .

— Pois bem ; até breve.

— Deus o acompanhe, e o traga a salvamento, meu senhor.

Ao sahir fóra da palhoça, Conrado consultou o relogio ; erão quasi duas horas,

— Temos ainda muito tempo, — pensou elle ; — ás quatro horas posso estar de volta aqui com o padre ; os dias são grandes ; das quatro até a noite tudo póde ficar arranjado, salvo si a velha expira antes disso.

Durante a visita, apezar da preoccupaçüo que lhe dominava o espirito, ou em razão dessa mesma preoccupagüo, Conrado examinado com attenção o estado da enferma e apezar de não ser medico, comprehendeo que elle era gravissimo, e que naquelle caso não havia mais cura possivel. Todavia reflectio que o estado de prostração em que a via, podia ser resultado não só da molestia, como tambem da inanição a que a tinha reduzido o abandono e privação absoluta, ha que a dois dias se achava condemnada. Si a deixasse naquelle desamparo, em que a tinha encontrado, corria risco de achal-a na volta sinão morta, pelo menos impossibilitada de fazer de modo intelligivel a declaração que era o alvo de todos os seus esforços. Montou a cavallo e parou de novo á porta da taverna do francez. Os freguezes, que alli encontrára, ainda lá se achavão a pé quêdo, esperando a sua volta.

— Então, meu amo, como vae a velha tinhosa? ainda o diabo não a carregou ? ousou perguntar um, a quem as excessivas libações tinhão tornado por demais desembaraçado.

Conrado franzio o sobrolho, e sem responder directamente á tão brutal pergunta, dirigindo-se a todos exprobrou-lhes sem aspereza nem grosseria, mas em termos ener— gicos e severos, sua deshumanidade para ccli) aquella desgraçada mulher, fazendo-lhes ver que não era proprio de chrjstños deixar morrer á mingoa e ao desamparo uma creatura humana, por meis perversa que tenha sido em sua vida. A molestia, a edade, o sexo e a extrema pobreza- em que vivia e ia morrer, erão bastantes para seu castigo, e a tornavào digna da commiseração de todo o mundo. Aquelles que assim a maltratavão, tornavão-se tão bons como ella e dignos da mesma sorte.

Os caipiras, ouvindo as palavras severas, mas cordiaes e sensatas do mancebo, sentirão mais compuncção e arrependimento do que se ti-vessem escutado as ameaçadoras vociferações do mais rochenchudo e atrabilario capuchinho. Procurarão desculpar-se com a reputação de que gozava a velha, de ser brucha, feiticeira, e de ter pacto com o diabo; mas emfim todso voltárão-se ás boas com o gentil e generoso cavalleiro, que os affagou com uma generosa molhadura, pedindo-lhes que não continuassem a ter em tão má conta uma pobre mulher velha, que estava ás portas da morte. Todos protestarão quo não continuario a ter o mesmo procedimento, declarando-se promptos a fazer tudo que Conrado determinasse.

(continua...)

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