Por Visconde de Taunay (1871)
Contamos do nosso lado muitos mortos, todos do batalhão da vanguarda ou dos atiradores que o precediam. O tenente Palestino, que a estes comandava, tivera o peito atravessado por um lançasso de que dias depois velo a morrer.
O tenente Raimundo Monteiro foi durante a ação apanhado a esvair-se em sangue. Levaram-no numa padiola; ao passar diante da companhia que comandava bradou-lhe que lhe vingasse a morte. Recebera oito lançassos, dos quais o primeiro o derribara; e, mais ainda tivera que sofrer do pisar dos cavalos. Restabeleceu-se entretanto, e tivemos o prazer de ver rapidamente curado este valente filho da província de Minas.
Grande número de feridos brasileiros se transportaram de vários pontos; foram todos levados à ambulância provisória, onde os nossos médicos os puseram nos carros de bois, apertados, não há dúvida, e uns sobre os outros, mas recebendo todos os socorros que as circunstancias comportavam. Uma mulher de soldado, a preta Ana, antecipara nesta obra caridosa os cuidados da administração militar. Colocada, durante a ação, no meio do quadrado do 17.°, desvelara-se por todos os feridos que lhe traziam, tomando ou rasgando das próprias roupas o que lhe faltava para os pensar e ligar, proceder tanto mais digno de nota e admiração quanto fora o da maioria das companheiras miserável. Escondidas quase todas sob as carretas, ali disputavam lugar com horrível tumulto.
O único ferido inimigo, encontrado vivo, tinha uma perna fraturada. Quis o Coronel vê-lo, e a fim de o interrogar chamou o filho de Lopes, que falava o espanhol paraguaio. Parecia sentir horríveis dores e pediu água que avidamente bebeu. A sombra com que o cobrimos, rodeando-o, pareceu dar-lhe maior alívio ainda. Respondendo a algumas perguntas contou-nos que o comandante das forças com quem combatêramos se chamava Martim Urbieta, o mesmo de quem já falamos; que o corpo de cavalaria, com quem acabávamos de pelejar, era de 800 praças, estando ainda outro a chegar brevemente. Quanto às informações que lhe pedimos sobre a artilharia, respondeu nada ter a contar: nada sabia. Entretanto, espontaneamente, deu-nos noticias da Guerra do Sul. Havendo o filho do guia indagado se Curupaiti fora tomada, respondeu pelo monossílabo: "Não!"—E Humaitá? "Nunca!" Então a guerra não está para acabar? - Após uma pausa, em que se lhe repetiu a pergunta, replicou o moço, como saindo de um sonho, e no tom de ênfase próprio da língua de sua gente: "A terrível guerra está dormindo!" Delirava.
Levaram-no, então, para uma das carretas da ambulância.
O que a este incidente se seguiu (triste ocorrência que não quisemos, aliás, averiguar) foi, segundo o boato espalhado, que o desventurado, posto num carro atravancado e onde foi aumentar o incômodo de outros feridos e moribundos, desvairados pelo ódio e sede de vingança, acabou estrangulado. Certo é que poucas horas mais tarde, durante a marcha, foi lançado morto à estrada. Enterramos todos os nossos cadáveres em covas que mandamos abrir pelos indios. Quanto aos paraguaios, deixamos tal encargo aos seus compatriotas. Bem sabíamos haveriam de voltar logo àquele local, após a nossa partida. Com os seus sentimentos de homem profundamente religioso, teve o Coronel real desgosto deste abandono. Era, porém, o número dos cadáveres muito avultado, ia o dia alto e o calor tornava-se acabrunhador. Assim recomeçamos a marcha.
Tal foi o combate de 11 de maio, o mais importante da Retirada (1). Já o de 6 mostrara aos paraguaios o que valia a nossa gente; veio este confirmar o efeito em seu animo; e tal impressão se traduziu pela hesitação e a moleza que, dai em diante, mais do que nunca, lhes caracterizou os cometimentos. Ficou-nos, além de tudo, patente que, além da prática da guerra, faltava-lhes a inspiração tática, a que sabe apreciar os fatos, no momento em que se produzem e adivinhar os obstáculos pare os vencer. O seu ataque de infantaria tivera como fim levar a confusão à nossa vanguarda, de modo a entregá-la, no primeiro movimento de surpresa à mercê da cavalaria. Baldado este piano, deveriam ter compreendido que a única probabilidade de triunfo restante residia nas cargas de cavalaria, cada vez mais impetuosas, e sustentadas por sucessivos reforços. Um pouco mais de hábito da guerra lhes teria dado a conhecer, aliás, quanto era a nossa disposição geral excelente e que, pare a derrocar se tornava preciso combinar o emprego da artilharia, de que dispunham, com a ação da cavalaria. Sob este reforço simultâneo ter-nos-ia sido impossível, a principio, defender as nossas bagagens e as munições que as acompanhavam; e depois os nossos quadrados, que às bales ofereciam dilatado alvo. E, então, as nossas fileiras, clareadas e combalidas pelo próprio fato de seu desenvolvimento, não teriam resistido à sua cavalaria, poderosa como era, com os pesados sabres de que dispunha.
Seja como for, vencêramos e ainda com este resultado excelente: crescera o coronel Camisão no conceito dos soldados pelo sangue-frio de que dera mostras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.