Por Franklin Távora (1878)
De que procedeu o sobredito rompimento? De quererem os negociantes do Recife que esta povoação passasse a vila, e de o não quererem os nobres da cidade de Olinda. Qual a razão de quererem os negociantes do Recife e de não quererem os nobres de Olinda que passasse a vila aquela provação, que aliás já tinha sido cidade no domínio holandês, por suas vantagens naturais, posição física, e principalmente por ser porto de mar e oferecer fácil ancoradouro? A razão era porque, sendo o Recife quase em sua totalidade habitado por negociantes portugueses, passariam estes a ter, com a elevação da povoação a vila, preponderância no senado da câmara, e por seus votos poderiam reduzir a nada, visto que o seu numero era grande, os nobres da cidade na taxação dos gêneros, na arrematação dos contractos, enfim na governança que até então tinha sempre andados nas mãos da nobreza da terra. Um cronista, contemporâneo da guerra dos mascates, escreveu sobre este ponto as palavras que trasladaremos para melhor compreensão do leitor. São as seguintes:
A dar-se ao Recife o termo que o governador queria, perdia a nobreza do país; porquanto, igualando-se os nobres aos mascates, e sendo estes muito mais numerosos, vinham aqueles a ser excluídos nos pelouros dos lugares da republica; perdiam as rendas publicas na arrematação dos contractos, porquanto, sendo os arrematantes os mascates, e compondo estes o senado, perante quem se arrematavam, vinham eles a ser juizes e partes, e a seu salvo podiam arredar da arrematação os nobres que quisessem lançar; perdia finalmente toda a população produtora, porquanto, competindo aos almotacés taxarem os preços dos viveres, e sendo o almotacé do Recife mascate, seguia-se, como se seguiu, que os gêneros conduzidos a mercado pelos matutos se taxassem em preço mui baixo, e os que vendiam os mascates taberneiros se estimassem em subido preço.
Por onde se vê que nem era de todo sem fundamento o ódio que nobres e mercadores se votavam mutuamente, nem a guerra a que esse ódio deu lugar podia faltar em rebentar com a veemência e crueza que a caracterizaram. Enfim, a luta era menos de fidalgos e peões do que da agricultura ameaçada de ruína, e do comercio que aparecia como tirano. Não há luta mais fatal e terrível em seus resultados do que a em que se empenham dois princípios que devem constituir, nas épocas normais, um só elemento de prosperidade publica, servindo cada qual de complemento natural do outro. Estamos por isso muito distantes dos que nesse memorável movimento querem ver, antes um testemunho de ridículos preconceitos, costumes e educação dominantes no século próximo passado, do que a séria colisão de interesses que ainda em nossos dias podem trazer, achando-se em desacordo como então se acharam, resultados ainda mais tristes e lastimosos.
Enquanto as pretensões dos mercadores não passaram de tentativas malogradas, mantiveram-se as coisas em saudável equilíbrio. As pretensões, porém, de que é alma o interesse pecuniário ou a ambição de riquezas dificilmente se resignam a completa renuncia. Quando menos se espera, elas fazem explosão, e só então se reconhece que o silencio em que por algum tempo estiveram a modo de sepultados, não foi o silencio da morte, mas da concentração espiritual e o do estudo dos meios de dar vitoria á dita ambição.
O governador a que alude o cronista na passagem sobremencionada, era Sebastião de Castro Caldas. Não foi o primeiro que chegando a Pernambuco e deixando-se quase dirigir por seus conterrâneos mais exaltados na sua pretensão capital, representara a el-rei a favor da criação da vila. Antes dele já o tinham feito alguns outros, inclinados sempre a proteger os interesses dos seus patrícios. Nenhum, porém, o fizera com tão fortes razões como o novo governador, homem de grandes espíritos, de animo ousado e tão dado á pratica de ator de despotismo que o próprio rei lhe estranhará asperrissimamente, em data de 7 de outubro de 1709 o <Ter invadido a jurisdição dos ministros, soltado presos, mandado tirar devassas, suspendido no procedimento dele despoticamente, abusado das regias leis e provisões e cometido outros absurdos e excessos de grande prejuízo á boa igualdade da razão e em grande dano da justiça dos povos de Pernambuco.>
É fama que pouco tempo depois de haver entrado no exercício do seu cargo, um negociante lhe foi dizer (não se sabe se havia verdade ou enredo na historia do oficioso senhor) que alguns pernambucanos tinham jurado repetir com ele, se metesse a tomar o partido dos do Recife na criação da vila, o mesmo que seus antepassados tinham praticado com o governador Jeronimo de Mendonça Furtado no século anterior.
A isso respondeu Caldas: - Se são nobres e têm, segundo dizem, por se o popular da capitania, repitam o procedimento dos seus maiores. O que eu lhes asseguro é que não hei de imitar Mendonça Furtado, e que, desembainhada a minha espada, não a meterei novamente na bainha antes de embebida no coração do primeiro conjurado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.