Por Franklin Távora (1876)
Chegou a hora do almoço, a do jantar, e finalmente escureceu de novo sem que os caçadores houvesse volvido a seus lares. Então a consternação tornou se geral e verdadeiramente cruel.
As famílias reuniram se todas na casa grande para se protegerem em caso de perigo que logo tiveram por iminente.
Três dias se passaram nessa aflição que se não pode descrever mas que facilmente se imagina.
Rosalina pensou de uma vez em ir pedir socorro no povoado, mas a quem ? O capitão mor achava se no Recife, e o povoado, que um século antes constava de uma capela dedicada a Santo Antão, e de meia dúzia de casas, pouco mais era do que isto na época em que se passou esta história; precisava também de proteção.
De sua agonia a veio tirar um caboclo velho, que morava no caminho do povoado, em terras da engenhoca, e que era o estafeta do lugar. Vivia só em uma palhoça à beira da estrada. Chamava se Matias mas era mais conhecido pela alcunha de Veado, a qual se originara de ser ele muito ágil e andador.
Matias, achando se sem fumo para o cachimbo, dirigiu se à casa grande no pressuposto de encontrar aí o Liberato que uma vez por outra lhe dava do melhor que tinha alguns pedaços para seu gasto. Só então soube do que havia, e logo se ofereceu para ir dar com o crioulo a quem devia muitas obrigações e respeito. Havendo Rosalinda aceitado o oferecimento, Matias voltou à choupana a buscar uma espingarda velha, e um minuto depois estava no rasto dos caçadores.
Antes de transpor os limites da fazenda, viu ele para as bandas do Monte das Tabocas um bando de urubus esvoaçando como costumam quando sentem carniça. Seria alguma rês morta o objeto da inspeção dessas aves? Talvez fosse. A seca estava fazendo no gado vítimas aos centos.
O Veado porém, naturalmente suspeitoso, acreditou logo que estava ali o cadáver de Liberato ou de alguns dos seus.
Para ir ter à grota sobre a qual se libravam os urubus, não era preciso entrar a mata, mas unicamente contorná-la pelo lado oposto ao rio. O terreno apresentava desse lado um vasto tabuleiro, e depois ia gradualmente alteando até à grota, que se interpunha entre o tabuleiro e a mata, formando um fosso natural que protegia o couto. Só quem tivesse grande coragem, e fosse perfeito conhecedor dos acidentes do solo, se animaria a arriscar o pé no profundo despenhadeiro.
Matias em pouco tempo atravessou toda a planície e chegou à borda do abismo. Cheiro de carnes putrefatas feriu lhe logo o olfato agudíssimo que sentia, à distancia, o quati, o veado, a anta, e até a cobra.
De cima nada pôde ver, porque do fundo do vale e das encostas da montanha se levantava uma vegetação secular cuja folhagem basta e enredada parecia destinada a conservar perpetuamente oculta às vistas do homem a escusa região. O cheiro da carne corruta porém foi um indício, um raio de luz para o índio que, havendo tomado a peito descobrir a verdade, estava no propósito de não hesitar, para o conseguir, diante da perda da própria vida.
A seus pés mostrava se um sulco deixado no terreno pelas águas que, descendo ao longo do estreito espinhaço, aqui se escoavam para o tabuleiro, ali para, dentro do precipício. Por ele se encaminhou Matias, arrimando se na espingarda, e com ela rompendo a custo os cipós que formavam diante de sua passagem uma rede quase inexplicável.
Passou se uma hora. O sol chegou ao poente. Veio o lusco fusco, e com ele aumentaram as tristezas, os medos e as agonias das mulheres recolhidas na casa grande.
Rosalina, tendo posto todos os cães da banda de fora, e fechado todas as portas da casa, abriu o seu tosco oratório, e convidou as outras ao terço tradicional, agora mais do que nunca necessário para fortalecer os espíritos abatidos.
Florinda estava expirando. Ao lado dela achava se Luísa, desfeita em lágrimas, e Aninha que ajudava a enferma a morrer. A porta do aposento inteiramente aberta deixava ver as outras mulheres de joelhos na sala, aos pés do oratório, cantando as rezas que constituem o terço, essa parte do culto externo que, depois de longamente usada em quase todo o Norte, desapareceu das capitais, e já não tem no próprio interior das províncias a prática geral a que em grande parte se deve referir o adoçamento dos costumes dessas povoações antes de haverem sido dotadas com as escolas e com os institutos de educação que atualmente as disputam à ignorância com mais vigor e proveito.
De súbito o ladrar dos cães veio interromper o concerto das vozes femininas que enchiam o âmbito da sala, e iam repercutir no vasto pátio. O ladrar aumentou, e com ele tornou se mais distinto, mais próximo, ao princípio um estrupido de passos, depois um ruído de vozes surdas do lado de fora da habitação.
Nesta a alegria e a aflição, a primeira quando se lhes afigurou que os caçadores chegavam, a segunda quando, em lugar destes, pensavam serem os malfeitores que as vinham assaltar, disputaram um instante em violenta porfia os espíritos das pobres mulheres naturalmente expostas, pelas suas circunstâncias especiais, a estas cruéis alternativas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.