Por Bernardo Guimarães (1872)
Depois de ter reunido por algum tempo o fel de seu infortúnio, Elias chamou de parte o negociante, e contou-lhe como depois de ter tentado fortuna na Bagagem sem resultado algum, e vendo-se quase reduzido à miséria, partira para o Sincorá em companhia de um homem desconhecido, que o convidara. Chegando ali, esse homem com toda a franqueza e generosidade o protegeu e auxiliou, colocando- o à testa do trabalho de suas lavras, em cujos rendimentos lhe dava consideráveis interesses. mas infelizmente esse homem, poucos meses depois, morreu de febre intermitente, deixando a Elias quase no mesmo estado em que saíra da Bagagem. Deu sepultura decente àquele bom e generoso protetor, a cujas cinzas sempre seria reconhecido, e chorou sobre sua sepultura lágrimas sinceras de dor e de saudade. Com os pequenos recursos que adquiriu durante aqueles poucos meses, continuou a garimpar em uma s datas que lhe eram próprias. Mas essas lavras eram pobres, e mal lhe davam para se ir mantendo. Já de novo a miséria o ameaçava de perto, quando um dia um moço de maneiras afáveis e de gentil e agradável presença apareceu no serviço em que ele trabalhava. Era um rico negociante, que andava comprando diamantes na mão dos garimpeiros, e que os pagava a bom preço. Todos os dias continuou a aparecer no serviço, comprava os diamantes que iam aparecendo sem reparar muito na qualidade nem no peso deles, e dava mostras manifestas de que queria protege-lo e dar-lhe a mão. Por fim esse moço, estreitando cada vez mais suas relações com ele, e como reconhecesse nele bastante inteligência e fino trato no conhecimento dos diamantes, o induziu largar o garimpo e ser seu agente no negócio dos diamantes, dando-lhe avultados interesses. Graças a esse novo e opulento protetor, que negociava em grande escala, e que todos os meses enviava para a capital da Bahia partidas consideráveis de diamantes, Elias, que o servia com zelo e inteligência, adquiriu em pouco tempo um avultado pecúlio. nesse tempo o preço do diamante teve grande alta nos mercados europeus, de modo que puderam realizar os mais vantajosos negócios e Elias via o seu pequeno pecúlio duplicar-se, triplicar-se, de mês a mês, e em breve pôde fazer avultadas transações por sua própria conta. Enfim, em menos de uma no, achou-se possuidor de uma soma de 50 contos, o que, no sertão, já se pode chamar uma fortuna. Mas o seu bom protetor, que era ao mesmo tempo seu comissário oficioso para a venda das pedras na Bahia, era também o seu banqueiro e o depositário de seus valores. Tanta generosidade o confundia, o enchia de gratidão e não lhe permitia duvidar um só instante da boa fé e probidade de tal homem. Manifestando-lhe ultimamente o desígnio que formara de voltar ao seu país natal, notou, não sem estranheza, que nenhuma objeção lhe opôs, contentando-se apenas em manifestar o pesar que sentia pela falta que lhe ia fazer, dizia ele, um tão bom e prestimoso amigo. A Elias pouco importava que ele aprovasse ou não o seu desígnio; sua resolução era inabalável. Mas não podendo deixar sem pesar o generoso protetor quem tudo devia, esperava encontrar também da sua parte alguma relutância em deixá-lo partir, e alguma luta de sentimentos. Agora infelizmente caiu o véu ao mistério, e compreendia o motivo infame daquele procedimento. Toda aquela liberalidade e generosa proteção que lhe dispensava, era o laço execrando, que lhe estava armando. Tendo de retirar-se, o seu amigo e protetor contou-lhe todo o dinheiro seu, que tinha em seu poder, perto de 50 contos, tudo em notas daquele valor e padrão, que seu hóspede acabava de ver! E assim acabava ele de atravessar cheio de contentamento e de esperança duzentas léguas de sertão, cuidando trazer na algibeira a fortuna e a felicidade, quando não trazia mais do que um maço de papel sujo.
- Agora, concluiu tristemente o moço, veja lá se é ou não para desesperar esta minha situação!
- É triste na verdade, mas não ainda para desesperar. O senhor é ainda muito moço e com a atividade e inteligência de que dispõe, assim como em menos de dois anos adquiriu esses quarenta ou cinqüenta contos falsos, agora com mais conhecimento do mundo e o escarmento dessa dolorosa experiência, pode também adquiri-los verdadeiros. O futuro é seu, meu amigo, e é vasto o campo das especulações.
- O futuro! oh! o futuro é só de Deus. Amanhã só Deus sabe o que será feito de mim!
Esta exclamação sussurrou apenas pelos lábios do moço, que, por assim dizer, a soluçara dentro do coração.
Ah! decerto pouco lhe importaria a perda de milhares de contos, que fossem, se esses contos não fossem o preço da felicidade de seu coração. Mas agora, que a felicidade lhe fugia para sempre, a perda desse dinheiro, que como um sonho se escoara de suas mãos, não era mais do que um pontapé com que o destino atirava desdenhosamente no abismo a vítima sangrada no coração.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.