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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

– Então apronte-se, minha rica prima, arranje quanto antes o seu enxoval... seu pai quer que o noivado seja aqui na roça, muito à capucha; mas eu não estou por essa; quero que seja no arraial e com muito arrojo; ele que não tenha susto, que eu faço as despesas. Que bonito noivado não há de ser... e que par feliz não havemos de ser, hem, minha prima do meu coração, meu benzinho da minha alma?

Assim falando, Roberto agarrava com amoroso frenesi em uma das frias e brancas mãos de Paulina, enlaçou-lhe com força o braço em torno da cintura, e pespegou-lhe na face um sequioso beijo, cujo estalo teria denunciado ao longe seu atrevimento, se o curral não estivesse completamente ermo, e retirou-se à pressa como que corrido de sua própria ousadia, e com medo de alguma reprimenda.

Capítulo x

Regresso extemporâneo

Ao sentir a impressão daquele beijo, ao qual seu rosto se teria incendiado de vivo rubor, se porventura o recebesse de Eduardo, as faces de Paulina já habitualmente pálidas se cobriram de lividez cadavérica. Esse beijo, que não era aceito nem santificado pelo amor, viera como sopro de ardentes e bravios páramos crestar-lhe para sempre o matiz virginal das faces, e estampar-lhe no rosto o selo do infortúnio eterno, O sangue todo refluiu-lhe ao coração, e largo tempo ela ficou na mesma posição, em que a deixara Roberto, imóvel e como que petrificada.

Saindo enfim daquela espécie de vertigem, levantou-se, e volvendo um último olhar para a estrada da Uberaba, divisou ao longe um cavaleiro, que vinha só dirigindo para a fazenda. Pelo que se podia julgar ao longe, era pessoa de distinção; cavalgava possante e garboso animal, e acompanhava-o um camarada tocando um cargueiro com canastras. Paulina, que já se havia levantado e ia-se recolher, deteve-se alguns minutos para reconhecer quem era o viandante. Como vinha marchando com muita rapidez, este não levou muito tempo a chegar à porteira do curral. Quando curvou-se sobre o animal para correr a tramela e abrir a porteira, gritando – dá licença,– pela voz e pela figura logo o reconheceu; já antes seu coração lho estava adivinhando. Era ele! era Eduardo!

Só Deus sabe quanto esforço foi preciso à pobre moça para manter-se em pé, e saudar convenientemente o cavaleiro, que entrava.

Comprimentou-o, todavia, dominando do melhor modo que pôde a sua perturbação, convidou-o a apear-se e a subir para a varanda, e a muito custo com passos trêmulos e vacilantes o foi acompanhando.

As faces de Paulina, onde há longo tempo não assomava nem o mais leve rubor, se incenderam de repente, e converteram-se em duas rosas purpúreas; o lado principalmente, em que Roberto acabava de imprimir seus lábios, ardia-lhe como uma brasa viva. Considerava-se quase como uma amante infiel, e parecia-lhe que Eduardo estava vendo em sua face o vestígio do beijo que acabava de receber, e entretanto notava que Eduardo a olhava com um olhar bem diferente do de outrora, e lhe lançava vistas repassadas de emoção e de ternura. Pobre infeliz! acabava de se precipitar no abismo no momento em que a mão do destino baixava talvez sobre ela para erguê-la ao céu do amor e da felicidade.

Como porém aparecera Eduardo ali naquela ocasião?... o que vinha ele fazer?

É o que o leitor vai imediatamente saber.

Eduardo poucos dias depois da última conversa que tivera com sua mãe, fez seus aprestos de viagem, e partiu para Sorocaba. Esperava conseguir com as fadigas, cuidados e distrações dessa longa jornada senão o completo esquecimento, ao menos uma grande diversão a seus pesares.

Sorocaba em tempos de feira, assim como é um foco de atividade e comércio, é também mansão de prazeres e divertimentos de toda a natureza.

A afluência de uma multidão de pessoas de todas as classes e procedências, a animação e movimento, que ali reina, as reuniões, jogos, bailes, espetáculos e folguedos de todo o gênero são suficientes para atordoar a cabeça de um moço, e fazê-lo esquecer, ao menos temporariamente, a fada de seus sonhos, por mais enamorado que esteja.

A vida do muladeiro, por outro lado, é rude e trabalhosa; exige uma contínua vigilância, uma atividade incessante. O muladeiro quase que não larga os arrieiros senão para deitar-se e repousar algumas horas. Tanger manadas de milhares de mulas bravias através de imensos e inóspitos sertões por matas, serradões e campinas abertas, rodeá-las, repontá-las e contá-las todos os dias de manhã e de tarde, além de outras muitas fadigas e cuidados inerentes a esse gênero de vida, é tarefa para acabrunhar as mais ativas e robustas organizações, e pouco ou nenhum tempo pode deixar para pensar em amores.

(continua...)

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