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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Dias depois, espalhou-se que o partido restaurador premeditava romper em uma nova revolta, apoderando-se primeiramente dos augustos pupilos da nação. Fosse apenas um pretexto, ou tivesse realmente algum fundamento, certo é que essa notícia deu motivo a que o governo suspendesse o venerando José Bonifácio de Andrada do exercício da tutoria do imperador e das princesas e a que todos os juízes de paz da capital, escoltados de uma força de cem homens da polícia e de duas peças de artilharia, partissem para S. Cristóvão, varejassem o paço da Quinta, prendessem o tutor e, enfim, acompanhassem a família imperial, que foi trazida em triste triunfo para o palácio da cidade.

Passado algum tempo, arrefecido o fogo dos partidos, tornou o imperador a ir habitar a Quinta da Boavista, e o palácio, em que por meses residira, voltou àquela grande e melancólica solidão em cujo seio passou durante quase toda a época da minoridade.

Em 1840, o imperador foi proclamado maior, e o palácio imperial abriu suas salas à corte, que se apressou, mais do que nos nove anos que haviam decorrido desde 1831, a vir cercar o trono da majestade.

Em 1844 celebrou-se o casamento da princesa imperial a Sra D. Januária com o Sr. Conde de Aquila, Príncipe das Duas Sicílias, que ficaram residindo, em todo o tempo que estiveram no Rio de Janeiro, na quela parte do palácio imperial que fora outrora convento dos carmelitas.

No reinado do Sr. D. Pedro II, o Brasil tem visto com ufania o palácio imperial hospedando dignamente as ciências, as letras e as artes.

Em uma das salas principais do palácio celebrava a Imperial Sociedade de Medicina, celebrava o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil as suas sessões aniversárias.

Desde o dia 15 de dezembro de 1848, o mesmo Instituto Histórico recebeu no segundo andar do antigo convento do Carmo as acomodações necessárias para a celebração de suas sessões ordinárias e para a sua biblioteca e arquivo, e além desta graça muito especial, que tanto o distinguiu, o imperador, seu primeiro sócio, começou, dessa data em diante, a presidir constantemente os seus trabalhos e a tomar neles parte com um interesse tão glorioso como patriótico.

No pavimento inferior do palácio imperial, têm sido, em algumas salas, hospedados artistas de merecimento. Em uma delas via-se, ainda não há muitos anos, o habilíssimo Petrich, manejando o cinzel e o martelo, dar vida ao mármore e transformar a pedra informe em belas estátuas.

E apesar de todas estas recordações, apesar dos grandes vultos do passado, dos nomes ilustres e dos acontecimentos importantes que nos faz lembrar, o palácio imperial não pode e não deve ser conservado. Não há conserto nem reparações que lhe aproveitem.

Não é, repito pela última vez, não é digno nem da majestade, nem da nação.

Todas as artes devem dar-se as mãos para erigirem um palácio novo. O patriotismo o exige. A necessidade instantemente o recomenda.

O que estamos vendo no meio do largo do Paço não é um

palácio, é uma casa antiga e na mais completa ruína.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O Passeio Público

I

FAZEI de conta que vos achais agora comigo no aprazível terraço do Passeio Público do Rio de Janeiro.

O dia foi calmoso. Em compensação, porém, a tarde é bela e fresca. O sol derrama sobre a terra seus últimos raios. Anuncia-se a hora do crepúsculo. A viração festeja docemente as verdes folhas das árvores que sussurram com um leve ruído.

Imaginai tudo isto. Embalar-vos-eis com uma ficção que já tem sido e será mil vezes uma verdade.

Sentemo-nos nestes bancos de mármore e de azulejos. Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos-ia em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus. A hora do crepúsculo é suave, melancólica e propícia aos sonhos do futuro e às recordações do passado.

Deixemos o futuro a Deus no Céu e aos poetas na Terra.

Lembremos antes o passado, e, ligados pelo mesmo pensa mento, vamos buscar no último quartel do século décimo oitavo o princípio da história deste jardim público.

Suponhamos ainda e finalmente que por unanimidade de votos me escolhestes para vosso orador: foi uma eleição inteiramente livre, sem cabala, sem fósforos, sem intervenção da polícia, sem duplicatas, sem anulações de votos fatais, um verdadeiro milagre constitucional. Tenho consciência da pureza do meu mandato.

Falo em nome de todos vós.

O célebre Luís de Vasconcelos e Sousa, que no dia 5 de abril de 1779 substituíra o marquês de Lavradio no governo do Brasil, via com a mais profunda mágoa começar o seu vice-reinado debaixo de maus auspícios.

(continua...)

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