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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Tem visto a moça bonita?...

— Quem é a moça bonita. ?...

— Ora ! é D. Dionysia.

— Não, respondeu Luciano rispidamente.

— Pois olhe, Sr. doutor, é tão virtuosa como bella : onde ella chega, entra o encanto dos olhos ea felicidade do coração.

— Que me importa!

— Ainda hontem vimol-a passeiar a cavallo ! como estava linda ! levava um chapéo e um vestido... A mulher do Almeida, que sabe de modas como uma franceza, diz que aquella roupa chama-se vestido de amazona ; mas, seja amazona ou não seja, a moça arrancava os olhos da gente ! e como é boa cavalleira! o seu cavallo corre que parece um passarinho que vóa ! ah! senhor doutor ! V. S. e aquella moça...

O estudante imterrompeu o panegyrista de Dionysia, e retirou-se apressado.

De volta para casa, respirando o ar livre, entregue a si mesmo, e pela primeira vez seriamente reflectindo, consultou o seu coração e estremeceu reconhecendo que não sentia mais a antiga repugnância pela senhora dona Dionysia, e que, pelo contrario, se pudesse ao menos vel-a sem ser visto, fal-o-hia com verdadeiro prazer.

Não amava Dionysia ; mas...

Este mas era o segredo, a historia e a contradicção do seu orgulho...

Luciano teve medo de amar a filha de Guilherme.

Como continuar a desprezal-a, se ninguém mais se lembrava de o querer obrigar a amal-a?...

Agora, porém, como ir procural-a e vêl-a sem o abatimento do seu orgulho?...

E aquelle sorriso de seus pais ? .. confessar-se arrependido e vencido não era fraqueza indigna de um estudante ?...

Luciano ufanava-se de ter sido notavel estudante de logica, e determinou raciocinar sobre o seu estado com todos os preceitos da arte de reflectir : raciocinou pois por duas horas inteiras, e no fim dellas reconheceu espantado que dos mesmissimos principios tinha tirado cincoenta consequencias diversas e oppostas.

O estudante ainda não comprehendia que a logica do coração é mil vezes uma inextricavel meada de inconsequencias.

Assim, pois, descontente de si mesmo e sem ter acertado com o caminho que lhe cumpria seguir, Luciano entrou em casa; mas, ao tocar á porta da sala, parou de subito, ouvindo pronunciar o seu nome e o de Dionysia.

Eugênio conversava com Guilherme e o objecto da conversação era o projectado casamento de seus filhos.

Luciano escutou attento.

— Emfim, meu amigo, dizia Eugênio concluindo ; Deos nos ajude ; mas receio muito que a pertinacia inexplicavel de meu filho acabe por destruir de todo as nossas esperanças.

— E eu não receio nada, respondeu Guilherme; devemos acreditar que Luciano começa já a pensar muito seriamente em Dionyia, e eu aposto que antes de dous mezes morrerá de amores por ella. Temos empregado um systema admiravelmente combinado : o rapaz vai ficar preso na rede qne lhe armámos.

Luciano vio brilhar a seus olhos como uma luz no meia das trevas : o seu orgulho reanimou-se de subito; saudou a lucta que para elle principiava de novo, e ufano e decidido entrou na sala, e, depois de breves momentos de conversação, disse :

— Perdão, meu pai; perdão, Sr. Guilherme : preciso recolher-me e dormir cedo, pois que me preparo para uma importante caçada amanhã. Dizem-me que o monte vizinho da fazenda do Sr. Guilherme é rico de pacas soberbas, e se não houver nisso offensa do direito de propriedade, protesto que nestes ultimos quinze dias que me restão de ferias na roça, o Sr. Guilherme ouvirá diariamente da sua fazenda nos tiros da minha espingarda os signaes das minhas victorias.

— Sabemos que é um excellente caçador.

— Determinei sel-o e fui : quando me decido a qualquer cousa, nem recuo, nem desanimo.

Luciano retirou-se.

Eugênio e Guilherme olharão um para o outro e puzerão-se a rir.

— Tem uma cabeça de fogo! disse o primeiro.

— E ao mesmo tempo tem a balda de todos os moços, que pensão sempre que enganão os velhos, observou o segundo.

III.

O companheiro que nas suas caçadas mais agradava a Luciano, era Baptista, lavrador vizinho e compadre de seu pai, e que com os seus sessenta janeiros não se trocava em vigor, agilidade e destreza por nenhum dos velhos de trinta annos que vivem no seio dos prazeres da cidade.

Baptista era realmente o melhor dos companheiros que poderia ter encontrado o estudante : conhecia todas as florestas, como Luciano o Jardim Botanico e as ruas da capital: marcava todos os pontos dos bosques por uma arvore mais notavel, por alguma fonte, pedra ou furna que nelles havia : designava com certeza as melhores esperas, e os lugares mais se guros para se fazer uma caçada feliz, e, além disso, era a chronica viva daquellas circumvizinhanças; sabia dez mil historias a respeito da gente da terra, tinha sempre um caso novo que referir, e mordaz sem que fosse naturalmente máo, e somente pelo desejo de parecer engraçado, divertia sempre o estudante na ida e na volta, e nas horas de reunião no fim das caçadas.

(continua...)

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