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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Cecília vendo chegar Isabel corou e não se animou a levantar os olhos, lembrando-se do que ela tinha visto e ouvido: pela primeira vez a inocente menina conhecia que havia na sua pura afeição alguma coisa que se escondia aos olhos dos outros. 

Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fora arrastada por um sentimento irresistível, arrependera-se imediatamente; a perturbação que sentia era tão grande, que temeu trair-se; encostou-se no leito defronte de Cecília, muda e com os olhos cravados no chão. 

Assim passou-se um longo intervalo; depois as duas moças quase ao mesmo tempo ergueram a cabeça; e lançaram um olhar para a janela; seus olhos se encontraram, e ambas coraram ainda mais. 

Cecília revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava num cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germe da firmeza de caráter que distinguia seu pai, sentiu-se ofendida por se ver obrigada a corar de vergonha diante de outrem, como se tivesse cometido uma falta. 

Revestiu-se de coragem e tomou uma resolução cuja energia se desenhava em um movimento imperceptível das sobrancelhas.

— Isabel, abre esta janela. 

A moça estremeceu como se uma faisca elétrica tivesse abalado o seu corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento. 

Dois olhares ávidos, ardentes, caíram sobre a janela no momento em que se abriu. Nada havia ali. 

A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua fisionomia iluminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem descer do céu sobre a cabeça da mulher que ama. 

Cecília olhava sua prima sem compreendê-la; mas a pouco e pouco a admiração e o espanto desenharam-se no semblante da menina. 

— Isabel!... 

A moça caiu de joelhos aos pés de Cecília. 

Tinha-se traído. 

XIV 

A ÍNDIA 

 

Peri apenas sentiu voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha através da floresta. Por muito tempo seguiu as pegadas da índia pelo meio do mato com uma rapidez e uma certeza incríveis para quem não conhecer a facilidade com que os selvagens percebem os mais fracos vestígios que deixam as pisadas de um animal qualquer. 

Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas secas espalhadas e partidas, um galho que ainda se agita, as pérolas do orvalho desfeitas, são aos seus olhos exercitados o mesmo que uma linha traçada na floresta, e que eles seguem sem hesitação. 

Uma razão havia para que Peri se encarniçasse assim em perseguir aquela índia inofensiva, e a fazer esforços inauditos a fim de agarrá-la. 

Para bem compreender esta razão, é necessário conhecer alguns acontecimentos que se haviam passado nos últimos dias pelas vizinhaças do Paquequer. 

No fim da lua das águas, uma tribo de Aimorés descera das eminências da Serra dos Órgãos para fazer a colheita dos frutos e preparar os vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão. 

Uma família dessa tribo trazida pela caça aparecera há dias nas margens do Paraíba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e uma filha. 

Esta última era uma bela índia, cuja posse se disputavam todos os guerreiros Aimorés; seu pai, o chefe da tribo, sentia o orgulho de ter uma filha tão formosa, como a mais linda seta do seu arco, ou a mais vistosa pena do seu cocar. 

Estamos no domingo. 

Na sexta-feira, eram dez horas da manhã, Peri atravessava a mata imitando alegremente o canto do saixê, cujas notas sibiladas ele traduzia pelo doce nome de Ceci. 

Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa nesta história, especialmente depois de morto; como não o satisfazia qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus próprios domínios um dos reis das grandes florestas que corriam ao longo do Paraíba. 

Cecília havia dito uma palavra, e ele que não discutia os desejos de sua senhora, tomara o seu arco e seu clavinote e se tinha posto a caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo saiu do mato, e logo depois uma índia que deu dois passos e caiu ferida por uma bala. 

Peri voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu D. Diogo de Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dois aventureiros. 

O moço ia atirar a um pássaro, e a índia que passava nesse momento, recebera a carga da espingarda e caíra morta. 

O cãozinho lançou-se para sua senhora Uivando, lambendo-lhe as mãos frias e rogando a cabeça pelo corpo ensangüentado como procurando reanimá-la. D. Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de piedade sobre essa moça vitima de um capricho de caçador, que não desejava perder a sua pontaria. 

Quanto a seus companheiros, riam-se do acontecimento e divertiam-se a fazer comentários sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha escolhido. 

De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueu a cabeça, farejou o ar, e partiu como uma flecha. 

Peri que tinha sido testemunha muda desta cena, aconselhou a D. Diogo que se recolhesse à casa por prudência, e continuou a sua caminhada. 

(continua...)

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