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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Úrsula é uma santa senhora; Estácio, um caráter austero e digno. Venhamos agora ao conselho. Há muito tempo ando com idéia de ir à Europa; estou caminhando para a velhice; não quero deixar de ir ver alguma coisa, além do nosso Pão de Açúcar. Já desfiz o projeto mais de uma vez. Cuido que agora vou definitivamente realizá-lo. Dá-se, porém, uma circunstância grave. Sabe que minha filha ama seu irmão? Meus olhos descobriram desde muito tempo essa inclinação de um e outro, porque também seu irmão ama minha filha. Merecem-se; e de algum modo continuam a afeição dos pais; a natureza completa a natureza. Esta é a situação. O que eu desejava, porém, é que me dissesse se devo partir já, levando-a; ou se é melhor esperar que eles se casem.

Helena ouvira o médico sem olhar para ele; quando ele acabou, fitou-o admirada e curiosa. A puerilidade da pergunta era tão evidente que a moça procurou ler no rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e oculto. Camargo apressou-se a explicar-se.

Estácio, disse ele, pode amar Eugênia com idéias matrimoniais; mas também pode não passar isto de um capítulo de romance, como o que se lê em uma viagem da Corte a Niterói. O caráter é sério; o coração tem leis especiais. Confesso que o procedimento de Estácio nada me afirma a tal respeito. Há nele umas mudanças pouco explicáveis. O tempo decorrido é mais que muito suficiente para que... Está refletindo?

Estou.

E...

Suponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal respeito as intenções de Estácio?

Isso.

Mas por que não se dirige a ele mesmo?

Não havia inconveniente; estabeleceu-se, porém, que um pai não deve ser o primeiro a falar em tais coisas. E preciso respeitar a dignidade paterna. Acresce que Estácio é rico, e tal circunstância podia fazer supor de minha parte um sentimento de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D. Úrsula; creio, porém, que ela não tem a sua habilidade, e... por que o não direi? a sua influência no espírito de Estácio.

Eu!

Oh! influência incontestável! A senhora veio completar a alma de seu irmão. É visível a afeição e o respeito que ele lhe tem. Demais, em tais assuntos uma irmã natural confidente e conselheira.

Helena deu três pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os olhos pela porta de comunicação entre aquela e a sala principal. Depois voltou-se para o médico.

Sei que eles se amam, disse ela, e já dei a minha opinião tal respeito. Eugênia parece ser minha amiga; meu irmão é meu irmão; desejo-lhes todas as felicidades. Há, porém, um limite à intervenção de uma irmã; e não desejo ir além. Demais, seu pedido é ocioso.

Por quê?

Anuncie a viagem, e Estácio se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é porque a não ama, conforme ela merece, e em tal caso mais vale perder um casamento do que o fazer mal.

Sim? perguntou Camargo.

Naturalmente.

O conselho é excelente, disse o médico depois de um instante, mas tem o defeito substancial de suprimir a sua intervenção, que me é necessária. Vejamos o meio de combinar as coisas. Suponhamos que, anunciada a viagem, Estácio não corresponde às minhas esperanças. Que devo fazer?

Embarcar.

Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento é um de meus sonhos. Desejo que os filhos continuem a afeição dos pais. Se Estácio recuar, minhas esperanças esvaem-se como fumo; o tempo cavará um abismo entre os dois; Eugênia amará outro... Enfim, conto com a senhora.

Comigo?

A senhora tem uma força de resolução, uma fertilidade de expedientes, um espírito capaz de empresas delicadas; e, tratando-se da felicidade de um irmão, creio que empenhará todas as forças para levar a cabo a mais pura das ambições. Não lhe peço um absurdo, peço- lhe a felicidade de minha filha.

Helena não respondeu; olhou de revés para ele, e cravou depois os olhos na águia branca tecida no tapete, sobre o qual pousava o pé impaciente e colérico. Podia referir mais detidamente qual o seu papel junto de Estácio, a respeito de Eugênia, os pedidos que lhe fez, e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas, nem quis dar esperanças que os acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe consentia mais larga confidência. Ambos eles viam que se detestavam cordialmente; mas, se em Helena havia cólera abafada, em Camargo havia tranqüilidade e observação. Ele con- templava a moça, com o olhar fixo e metálico dos gatos; a mão esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com os dedos magros e peludos. Nada dizia; todo ele era uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.

Dá-me o seu braço até à sala? perguntou. Camargo sorriu.

Só isso? Eu dizia comigo outra coisa.

Que dizia então? perguntou Helena.

Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar às seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre que a não adorne garridamente uma flâmula azul...

(continua...)

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