Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Celina, eu vou dizer-te o que é amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão, nem nosso amigo; escuta. Nem sempre pertencemos a nossos pais. Chega um dia em que a nossa vida começa a correr de outro modo, e deixando aqueles que nos deram a existência, passamos a ser a eterna companheira de um homem, que nos deve amar e trabalhar para nós, que reparte conosco seus prazeres e seus pesares; que forma com sua companheira um ente só; que é o nosso melhor amigo, e mais do que nosso irmão. Ora pois, escolher, mesmo sem se querer, sem se sentir, mas escolher com os olhos e com o coração entre mil, entre todos um homem, ao qual desejamos pertencer desse modo; pensar nele de dia, sonhar com ele de noite, estar triste em sua ausência, tremer de alegria e de pejo a seu lado, resistir às ordens de um pai, que manda esquecê-lo, e lembrá-lo ainda mais depois disso, jurar ser dele ou de ninguém, e sofrer tudo por ele: eis aqui o que é amar.
– Ah! Celina! exclamou Mariquinhas interrompendo-a; a tua camarada tinha aproveitado muito no colégio!...
– Não a interrompas, disse Felícia.
Celina continuou:
– Eu fiquei pensativa e admirada. Nunca me tinha vindo ao pensamento que se pudesse amar assim a um homem estranho.
Luisinha ainda se dirigiu a mim:
– E agora, que já sabes o que é amar, Celina, é preciso que subscrevas ao nosso ajuste; que, nunca sejas a companheira de um homem a quem não tenhas amor; e que, finalmente, logo que chegues a amar, no-lo digas em confidência.
– Mas quem sabe se chegarei a amar desse modo? respondi eu.
Minhas duas amigas começaram a rir de novo; e Luisinha replicou:
– Hás de chegar, Celina; o amor vem quase sempre contra nossa vontade e ainda contra nossa vontade se deixa ficar em nossos corações.
– E como sabes isso, Luisinha?...
– Ora! tornou-me ela; achei uma boa amiga que me deu as explicações que agora te estou dando.
– Quem nos diz que ela ainda não ama?... disse Leopoldina.
– Ainda não. Mas vamos ao nosso ajuste. Tu subscreves a ele, Celina?...
– Subscrevo, respondi hesitando.
– Vamos jurar! exclamou Leopoldina.
Fizemos um juramento de moças. Juramos por nossa amizade e selamos o nosso pacto com beijos.
Descemos e entramos na sala, onde todos notaram que eu estava pensativa e um pouco melancólica.
Às onze horas da noite retiraram-se nossas visitas. Daí a pouco meu pai abençoou-me, e eu subi de novo para meu quarto.
Deitei-me. Minha mãe entrou, dirigiu-se a meu leito e como costumava fazer todas as noites, beijou-me e disse:
– Dorme bem, Celina.
Achei-me só.
Começaram então a ferver em minha cabeça aquelas idéias que eu tinha pela primeira vez concebido. Foi-me impossível dormir durante muito tempo; julguei que delirava; pensei que ia ficar doida, porque às vezes me parecia ver ao redor de mim meninos louros e travessos, que corriam, saltavam, chegavam-se a meus ouvidos, diziam baixinho – amar! – e fugiam de novo correndo, saltando, e rindo-se muito; outras vezes era uma mão invisível, que estava escrevendo pelas paredes de meu quarto, e com tinta de fogo, essa mesma palavra – amar!...
Enfim, adormeci.
Mas o pensamento, que me governava acordada, não me deixou dormindo. A pesar meu, a idéia única que me ocupava até no sono, era essa mesma que me tinham feito conceber na palavra – amar.
Sonhei.
Eu estava em um vale coberto de verde grama: defronte de mim erguiam-se dois montes altos e povoados de lindas palmeiras; por entre eles prolongava-se um lago profundo, mas de águas tão límpidas que se lhe via perfeitamente o leito de areias de ouro.
O lago, que se continuava por entre os montes, vinha terminar-se no vale, e a poucas braças de um outeirinho, onde eu estava sentada debaixo de um caramanchão natural.
Não era dia nem noite; era a hora do crepúsculo.
De repente soou uma música doce e maviosa, como eu nunca tinha ouvido; e uma multidão de meninos semelhantes aos que eu imaginara acordada, todos eles lindíssimos, louros, muito claros e rosados, vieram com cestinhas de rosas nos braços dançar ao redor de mim.
A música soava sempre... sempre... e parecia que vinha do céu.
No fervor de sua dança começaram os meninos a lançar flores sobre mim; derramou-se na atmosfera um imenso perfume... deleitoso... embriagador... e a música soava sempre tão doce... tão bela, que eu me senti adormecer entre perfumes e harmonias.
Mas era um sono de encanto, no qual eu via tudo quanto se passava no vale...
Então o mais formoso daqueles meninos tirou dentre os cabelos, que eram fios de ouro, uma seta pequenina, porém muito aguda, chegou-se a mim, e rasgando-me o peito, arrancou-me o coração.
Eu não senti dor, nem correu sangue; a ferida de meu peito fechou-se de repente a um beijo que nela deu o menino; e não ficou cicatriz.
A música cessou imediatamente, esvaeceram-se de súbito os perfumes; os meninos bateram palmas e soltaram grandes risadas, e eu, despertando ao ruído delas, comecei a chorar muito por ver o cruel roubador levar o meu coração.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.