Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
— Eu quero fazer as pazes, sr. Fabrício; vejo que deve estar muito agastado comigo e venho trazer-lhe uma chávena de café temperado pela minha mão.
Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto; ele desconfiava das tenções da menina, e sua primeira idéia foi esta: o café não tem açúcar.
Então começou entre os dois um duelo de cerimônias, que durou alguns instantes; finalmente, o homem teve de ceder à mulher, Fabrício ia receber a chávena, quando esta estremeceu no pires... D. Carolina, temendo que sobre ele se entornasse o café, recuou um pouco. Fabrício fez outro tanto, e a chávena, ainda mal tomada, tombou e o café derramou-se inopinadamente. Fabrício recuou ainda mais com vivacidade, mas encontrando a raiz de um chorão, que sombreava o caramanchão, perdeu o equilíbrio e caiu redondamente na relva. Uma gargalhada geral aplaudiu o sucesso.
— Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe.
O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade, corrido do que acabava de sobrevir-lhe; as risadas continuavam, as terríveis consolações o atormentavam, todas as senhoras tinham saído do caramanchão e riam-se, por sua vez, desapiedadamente. Fabrício daria muito para livrar-se dos apuros em que se achava, quando de repente soltou também a sua risada e exclamou:
— Vivam as calças de Augusto!
Todos olharam. Com efeito, Fabrício tinha encontrado um companheiro na desgraça. Augusto estava de calças brancas, e a maior porção do café entornado havia caído neles.
CAPÍTULO XII
Meia hora embaixo da cama
Não tardou que Filipe, como bom amigo e hóspede, viesse em auxílio de Augusto. Em verdade que era impossível passar o resto da tarde e a noite inteira com aquela calça, manchada pelo café; e, portanto, os dois estudantes voaram à casa. Augusto, entrando no gabinete destinado aos homens, ia tratar de despir-se, quando foi por Filipe interrompido.
— Augusto, uma idéia feliz! Vai vestir-te no gabinete das moças.
— Mas que espécie de felicidade achas tu nisso?
— Ora! Pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te mirares no mesmo espelho em que elas se miram?... De te aproveitares das mil comodidades e das mil superfluidades que formigam no toucador de uma moça?... Vai!... Sou eu que to digo; ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os países; óleos aromáticos essências de formosura e de todas as qualidades; águas cheirosas, pós vermelhos para as faces e para os lábios, baeta fina para esfregar o rosto e enrubescer as pálidas; escovas e escovinhas, flores murchas e outras viçosas...
— Basta, basta; eu vou, mas lembra-te que és tu quem me fazes ir e que o meu coração adivinha...
— Anda, que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno.
E isto dizendo, Filipe empurrou Augusto para o gabinete das moças e se foi reunir ao rancho delas.
Ai do pobre Augusto!... Mal tinha acabado de tirar as calças e a camisa, que também se achava manchada, sentiu o rumor que faziam algumas pessoas que entravam na sala.
Augusto conheceu logo que eram moças, porque estes anjinhos, quando se ajuntam, fazem, conversando, matinada tal, que a um quarto de légua se deixam adivinhar; se é cediço e mesmo insólito compará-las a um bando de lindas maitacas, não há remédio senão dizer que muito se assemelham a uma orquestra de peritos instrumentistas, na hora da afinação.
Ora, o nosso estudante estava, por sua esdrúxula figura, incapaz de aparecer a pessoa alguma: em ceroulas e nu da cinta para cima, faria recuar de espanto, horror, vergonha e não sei que mais, ao belo povinho que acabava de entrar em casa e que, certamente, se assim o encontrasse, teria de cobrir o rosto com as mãos; e portanto, o pobre rapaz seguiu o primeiro pensamento que lhe veio à mente: ajuntou toda a roupa, enrolou-a, e com ela embaixo do braço escondeu-se atrás de uma linda cama que se achava no fundo do gabinete, cuidando que cedo se veria livre de tão intempestiva visita; mas, ainda outra vez, pobre estudante! Teve logo de agachar-se e espremer-se para baixo da cama, pois quatro moças entraram no quarto. E eram elas d. Joaninha, d. Quinquina, d. Clementina e uma outra por nome Gabriela, muito adocicada, muito espartilhada, muito estufada, e que seria tudo quanto tivesse vontade de ser, menos o que mais acreditava que era, isto é... bonita.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.