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#Romances#Literatura Brasileira

Esaú e Jacó

Por Machado de Assis (1904)

Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho, ela que sacrificara as opiniões aos princípios, como no caso de Aires, e continuou a viver sem mácula. Como então não sacrificar?... Não achava explicação. Relia a frase da carta e a do discurso; tinha medo de o ver perder a carreira política, se era a política que o faria grande homem. "Emancipado o preto, resta emancipar o branco", era uma ameaça ao imperador e ao império.

Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não atinou que a frase do discurso não era propriamente do filho; não era de ninguém. Alguém a proferiu um dia. em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova, era enérgica, era expressiva, ficou sendo patrimônio comum.

Há frases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, à semelhança das idéias. As próprias idéias nem sempre conservam o nome do pai; muitas aparecem órfãs, nascidas de nada e de ninguém. Cada um pega delas, verte-as como pode, e vai levá-las à feira, onde todos as têm por suas.

CAPÍTULO XXXVIII

CHEGADA A PROPÓSITO

Quando, às duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se meteu no bonde, para ir a não sei que compras na Rua do Ouvidor, levava a frase consigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente que passava, nem os incidentes da rua, nada; a frase ia diante e dentro dela, com o seu aspecto e tom de ameaça. No Catete, alguém entrou de salto, sem fazer parar o veículo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha também que, posto o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, caminhou para lá rápido e aceitou a ponta do banco que ela lhe ofereceu. Depois dos primeiros cumprimentos:

—Pareceu-me vê-la olhar assustada, disse Aires.

—Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste ato de ginástica.

—Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia. deixam-me cair, as rodas passam por cima...

—Fosse como fosse, chegou a propósito.

—Chego sempre a propósito. Já lhe ouvi isso, uma vez, há muitos anos, ou foi a sua irmã... Ora, espere, não me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castelo. Não se lembra de uma tal ou qual cabocla que morava no Castelo, e adivinhava a sorte da gente? Eu estava aqui de licença, e ouvi dizer cousas do arco- da-velha. Como sempre tive fé em Sibilas, acreditei na cabocla. Que fim levou ela?

Natividade olhou para ele, como receando se teria adivinhado então a consulta que ela fez à cabocla. Pareceu-lhe que não, sorriu e chamou-lhe incrédulo. Aires negou que fosse incrédulo; ao contrário, sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenças deste mundo. E concluiu:

—Mas, enfim, por que é que chego a propósito?

Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espírito repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta senhora, uma confiança que ela não achava agora em ninguém ou acharia em poucos. Falou- lhe de uma confidência, um papel que não mostraria ao marido.

—Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incomodar a meu marido? Quando muito, contarei o negócio a mana Perpétua. Acho melhor não dizer nada a Agostinho.

Aires concordou que não valia a pena aborrecê-lo, se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em política, e tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a frase da carta e perguntou o que cumpria fazer mais útil. Aires entendeu que eram ardores da mocidade. Que não teimasse; teimando, ele mudaria de palavras, mas não de sentimentos.

—Então crê que Paulo será sempre isto?

—Sempre, não digo; também não digo o contrário. Baronesa, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que é que há definitivo neste mundo, a não ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha. Há quantos dias não sei o que é uma licença? E verdade que não tenho aparecido. E depois, o prazer da conversação paga bem o das cartas. Aposto que os homens casados que lá vão são de outro parecer?

—Talvez.

—Só os solteirões podem avaliar as idéias das mulheres. Um viúvo sem filhos, como eu, vale por um solteirão; minto, aos sessenta anos, como eu, vale por dous ou três. Quanto ao jovem Paulo. não pense mais no discurso. Também eu discursei em rapaz.

—Já cuidei em casá-los.

—Casar é bom, assentiu Aires.

—Não digo casar já, mas daqui a dous ou três anos. Talvez faça antes uma viagem com eles. Que lhe parece? Vamos lá, não me responda repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que uma viagem?...

—Acho que uma viagem...

—Acabe.

—As viagens fazem bem, mormente na idade deles. Formam-se para o ano, não é? Pois então! Antes de começar qualquer carreira. casados ou não, é útil ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de ir com eles?

—As mães...

(continua...)

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