Por Adolfo Caminha (1896)
E depositou cautelosamente o besouro na bolsa de couro da Rússia que sempre trazia, dizendo:
— Que demora de meu marido! — Anda às voltas, com o Raul.
E no momento em que ela fechava a bolsa para continuar o passeio, Furtado abaixou a cabeça, num movimento nobre, e beijou-lhe audaciosamente a mão, oferecendo-lhe, ato contínuo, o braço.
— Senhor!...
Ia exclamando: — Senhor Furtado!... — num tom de admiração e de queixa; mas, o insólito procedimento do secretário gelou-a.
Um beijo!... Faltava-lhe toda a coragem, toda a presença de espírito, para reagir no mesmo instante, lembrando ao marido de D. Branca o respeito que todo o homem deve a uma senhora casada. Penderam-lhe os braços, curvou a cabeça, e em vez de uma explosão de palavras que demonstrassem a Furtado a sua indignação e o seu assombro, ela deixou que as lágrimas corressem como pérolas de rosário desfiado. Nunca homem algum se atrevera a tanto, nunca o seu pudor de mulher fora tão cruelmente magoado como naquela ocasião e por um homem que devia ser o primeiro a respeitá-la.
— Adelaide... — murmurou Furtado numa voz suplicante. — Zangou-se?
A jovem senhora não respondeu. Ia calada, muda, abafando o seu ódio, enxugando as lágrimas. Compreendia agora os zelos do secretário para com ela, a sua fingida dedicação ao Evaristo; compreendia tudo...
Mas, ao mesmo tempo, compreendia a necessidade de ocultar aquele episódio revoltante "para não dar escândalo", para evitar a cólera de Evaristo e uma grande desordem, talvez, entre o secretário e a mulher. Oh, infelizmente era preciso mostrar cara alegre, ainda que o coração estivesse sangrando... Nunca lhe passara pela idéia que o Sr. Furtado, um homem que se dizia tão fino, tão bem-educado, abusasse da sua posição e de um momento como aquele para... para beijá-la, como se estivesse tratando com uma criadinha de família, sem pejo nem nada! Era muita coragem e muita desfaçatez!
— D. Adelaide... — repetiu Furtado aproximando-se dela. - Queira desculparme se a ofendi...
A esposa de Evaristo continuou no mesmo silêncio obstinado, como uma pessoa que de repente perdesse a fala, indo maquinalmente pela avenida, sem ver as coisas, olhando para o chão fofo que seus pés iam pisando insensivelmente. De alegre que estava quando saiu do caramanchão, tornou-se melancólica e indiferente às belezas do jardim e às fulgurações da luz. Doía-lhe a cabeça com uma intensidade atroz.
Furtado emudeceu também, penalizado, um pouco arrependido já, receoso de que Adelaide não fosse cometer alguma imprudência desabafando-se. Mordia o castão da bengala com um ar sério de quem cogita numa grave questão. Aventurou nova pergunta:
— Quer que me ajoelhe e peça perdão? Creia que foi uma loucura de que me confesso arrependido...
Adelaide suspirou levemente, como alívio, ainda sem responder. Neste instante a música do outro lado do parque tocava uma habanera saudosa cujo eco ia morrer longe nas montanhas, penetrado de evocações. O coração terno da esposa de Evaristo encheu-se de bondade e acordou subitamente da melancolia em que o deixara Furtado. Ela, porém, não tinha coragem de abrir a boca e dizer uma simples palavra, como se estivesse na presença de um estranho, de um desconhecido. Queria esquecer a ofensa que recebera do amigo do Evaristo, acabar com aquilo e continuar a viver como dantes; o homem às vezes não é senhor de si... Lembrava-se dos favores que o bacharel devia ao secretário, da extremosa amizade de D. Branca e um sentimento de gratidão penetrava-a desanuviando-lhe a alma, restituindo-lhe o bom humor e a visão otimista da paisagem e das coisas... Não valia a pena zangarse, amofinar-se por uma tolice, de uma loucura... Ninguém vira o secretário beijar-lhe a mão, ninguém...; a aléia estava deserta como o interior de uma gruta longínqua. Para que então, provocar escândalo? Também não se deve ser muito escrupulosa... deve-se desculpar, fechar os olhos a estas coisas.
Furtado ouviu um rumor na areia. O Raul aproximava-se correndo; atrás dele vinha o bacharel em passo ordinário.
—Eh, lá! — gritou Evaristo. — Esperem ao menos pela gente!
O secretário voltou-se com Adelaide e riram ambos da filosofia ingênua daquele marido excepcional.
— Já te fazíamos desertor!
— A mim?... Ufa, que já me não tenho nas pernas!... Desertor?
— Onde andaste há quase uma hora?
— Vendo as cascatas e os reservatórios... Pergunta ao Raul!
— Oh, que bonito, heim, senhor Evaristo? Que bonito, papai! A cachoeira vem de lá de cima da montanha rolando, rolando como uma chuva...
— Esplêndido! — tornou o bacharel. — Já não nos lembrávamos de vocês...
Que é do visconde?
— Vai lá adiante com a Branca.
— Papai, oh papai! — interrompeu o menino.
— Que é, meu filho?
— Um homem estava tirando o retrato da cachoeira, com uma máquina... — Já sei.
E para Evaristo:
— D. Adelaide é que está com uma dorzinha de cabeça.
— Melhorei um bocado, já não dói tanto — disse Adelaide.
— E agora para onde nos atiramos? — perguntou o bacharel. — Ao encontro do visconde e da Branca.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.