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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Uma ou outra casaca solitária, destoando da linha geral das toilettes largas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um oficial japonês que franze as sobrancelhas num gesto de enfado. — Por que será?... Julgo de mim para comigo que o pobre camarada não se sente à vontade dentro de suas calças de pano com largos galões dourados. A casaca o incomoda visivelmente. O chapéu armado, ele já não sabe como o tenha — se na mão, se debaixo do braço ou mesmo se na cabeça...

Desabotoam-se risos gentis em bocas purpurinas. Derramam-se essências preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Belas misses de face escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredom. Os leques e as jóias são as únicas riquezas que conduzem num contraste frisante com os vestidos leves e claros.

Em um dos lados do enorme quadrilátero, onde reluziam panóplias arranjadas a capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho, em cujo frontispício destacavam em letras de luz 1887 TO 1886 FARWE LI.

Era o lugar do diretor da escola.

Começou a dança...

E à meia-noite a música fazia sinal para a última valsa.

Ficamos sabendo que todas as festas noturnas terminam invariavelmente à meia-noite, nos Estados Unidos. É uma velha praxe que os americanos poucas vezes transgridem.

Anápolis, black City — como te chamam teus próprios patrícios, tu não poderás saber nunca a saudade que levamos de ti nessa esplendida noite clara e constelada!...

CAPÍTULO XV

O 'Barroso" continuava no dique, em Brooklin.

Logo ao regressarmos de nossa viagem a Anápolis tivemos aviso para uma outra excursão não menos interessante e agradável.

West Point era agora o principal objeto de nossa curiosidade — West Point, a bela povoação à margem do Hudson, onde funciona a Escola Militar. Estávamos convidados para assistir a outra festividade acadêmica — um combate simulado entre os alunos do estabelecimento — manejos de armas, exercícios de esgrima, assaltos.

Compreende-se a grande utilidade que necessariamente nos adviria dessas visitas aos estabelecimentos militares no estrangeiro. Sem nos aperceber, íamos conhecendo, de visu, os diversos processos de ensino prático, os métodos mais modernos de educação física, e, quando mais não fosse, lucrávamos com a vista de objetos novos e de novas paisagens.

O viajar é uma necessidade quase imprescindível para o espírito e para o organismo. A alma como que se dilata em presença de estranhas combinações de cor e de luz. A monotonia da vida urbana cansa o espírito, fatiga-o, consome-o lentamente; é preciso o grande ar, o ar livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua beleza original, para que não se morra de tédio e desânimo. O tempo é limitadíssimo e inapreciável para quem viaja com desejo de ver e saber.

Muitos há que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no centro da cidade, asfixiado pela poeira dos boulevards, a gastar economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gozando as inefáveis delícias do campo e das praias, saboreando o clima das montanhas, deliciando a vista com o espetáculo das fontes murmurejantes, dos frescos arvoredos trespassados de luz...

Eu preferirei sempre a paz absoluta e invejável dos subúrbios.

E é por isso que, a cada Nova excursão fora da cidade, eu sentia-me bem comigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado e mais leve, como se saísse de um quarto muito escuro e abafado para a claridade larga e bela do dia.

Foi assim que recebi a notícia do passeio a West Point.

Como devia ser magnífico o Hudson lá para as bandas de sua nascente, a qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou coberto de névoa, pela manhãzinha, ou no silêncio da noite, vago e sombrio como um pântano dormente!...

Era o que íamos ver.

Seis horas da manhã...

Caía uma neve friíssima, transparente, e agressiva como alfinetadas.

O Express, pequeno e elegante cruzador americano, espécie de transporte de guerra, esperava-nos de "fogos acesos", deitando fumo pela chaminé.

Remos n'água e toca pra diante! Pontualidade no caso.

Estamos a bordo.

O Express oferece o belo aspecto de uma galeota imperial que vai suspender ferro...

Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o convés e a câmara.

Tinha-se acabado de fazer a baldeação matinal. Marinheiros, perfeitamente uniformizados, ocupavam-se em limpar as chapas de metal; outros colhiam cabos à proa; outros lá cima, nas vergas, atavam ou desatavam andarivelos, muito rubros, com os seus bonés de pano azul-marinho onde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro: — Express.

A câmara — uma sala espaçosa e clara, elegantemente adornada — ocupava um terço do pontal, a ré, na primeira coberta. Embaixo, na segunda coberta, ficavam os camarotes e a praça de armas.

Servido o fine cognac, que os americanos de bom tratamento não dispensam nos dias invernosos, o captain subiu ao passadiço e deu a voz de suspender. A máquina tocou adiante e o Express começou a singrar o Hudson.

(continua...)

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