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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

A embarcação não se movia: era como se não houvesse ninguém a bordo. Os marinheiros fingiam-se distraídos.

— Cambada de burros! Atraca essa porcaria!

E abriu a boca numa tremenda explosão de impropérios, fechando o punho ameaçadoramente, desenrolando todo o vocabulário imundo e obsceno das tarimbas contra os companheiros, berrando em alta voz “que era livre, que havia de fazer, que havia de acontecer!...”

— Infames! Não preciso de vocês pra nada! Pra nada!

Mas, ao voltar, deu de ombros com um português, que estava a seu lado rindo tranqüilamente, segurando um remo.

— E você também, seu galego; você está se rindo, porque ainda não apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo dando um empurrão no homem.

O português carregou o rosto, medindo o negro d’alto a baixo, sem dizer palavra.

— E não tem que olhar não, não! Se dúvida faço-o beber água salgada.

— Vá-s’embora, homem de Deus! murmurou o outro com benevolência. Vás’embora...

— O quê?

— Mal vai a cousa...

— O quê, seu galego, o quê?

E “abotoou” o português, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o boné.

— O senhor não me provoque...

— Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo!

O homem perdeu a calma Nos seus olhos fulgurou um clarão de raiva, o sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da mão, e, investindo para o Bom-Crioulo, quis derrubá-lo corpo a corpo, naquele mesmo instante. Era sujeito baixote, rijo, de bigode fulvo, muito vermelho, com pintas de sarda.

Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espaço entre as duas estações marítimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvoraçada, que vinha de todos os ângulos da praça numa precipitação de avançada. — “Rolo! Rolo!”

E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para o largo, afastando-se daquele ponto insustentável, onde não se podiam mover livremente, sem risco de cair n’água, abraçados, corpo a corpo, enroscados um no outro, qual mais forte — iguais na envergadura muscular.

O escaler de guerra tinha se aproximado.

Havia grande rebuliço nos botes: o alarma era geral no cais e imediações.

— Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros.

Assobios, canzoada, berros: — Não pode! não pode! confundiam-se num alvoroço descomunal, reboando na praça.

De repente, com um safanão medonho, Bom-Crioulo separa-se do português e rápido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do cós um objeto: logo toda gente viu, com espanto, reluzir na mão do marinheiro o aço de uma anavalha.

— É agora! disse uma voz no meios do povo.

A multidão espalhou-se, recuando, abandonando o campo da luta. O clamor aumentava: — Pega! Pega! não pode!

O português, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem, abalou na carreira; mas o negro, vendo se aproximarem polícias, brandindo a arma furioso, ameaçou:

— Quem for homem, venha!

A figura do “galego” tinha desaparecido: sua cólera voltava-se agora contra o povo e contra a polícia. Ninguém ousava se aproximar daquele homem-fera, cujo olhar fazia medo...

Quatro horas no relógio da estação.

Daí a pouco saltou no cais um oficial da marinha. Bom-Crioulo esperou-o a pé firme: — Não venha, que leva!

Era um primeiro tenente; acompanhavam-no marinheiros.

— Segurem aquele homem, ordenou, parando à distância.

— Não venha! Não venha! exclamou o negro, gingando com a navalha no ar.

Os homens dividiram-se, três para cada lado, e marcharam impavidamente, de prancha desembainhada.

Foi um momento de ansiedade e assombro.

A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de requintada clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o impelisse oculta mola de arame. — Não venha! Não venha!...

Mas, quando, num formidável arranco, salta à direita, um pulso mais forte “gruda-o” pela esquerda e Bom-Crioulo, o invencível Bom-Crioulo, sente-se agarrado, preso como um animal feroz!

O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem o receio de agressões, comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado à beira d’água por uma onda de curiosos.

Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.

Afinal, lá o conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...

CAPÍTULO VIII

O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo,

“falavam-se cousas...”

Um lenda obscura e vaga levantara-se em torno do seu nome, transformandoo numa espécie de Gilles de Rais menos pavoroso que o da crônica, cheio de indiferença pelo sexo feminino, e cujo ideal genésico ele ia rebuscar na própria adolescência masculina, entre os de sua classe.

Calúnia, talvez, insinuações de mau gosto.

Os marinheiros narravam entre si, por noites de luar e calmaria, quando não tinham que fazer, lendas e histórias muitas vezes forjadas ali mesmo no fio da conversa...

O comandante, diziam, não gostava de saias, era homem de gênio esquisito, sem entusiasmo pela mulher, preferindo viver a seu modo, lá com a sua gente, com os seus marinheiros...

(continua...)

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